terça-feira, 22 de Abril de 2014

O que faço aqui? – O V Encontro Livreiro por Andreia Azevedo Moreira


Desde o Encontro Livreiro do ano passado que ando a matutar: «Qual é o meu papel aqui? Em que posso intervir?» O meu ponto de vista, quando vos venho ouvir, é o de Leitora e embora não tenha participado falando, recuso ser mera testemunha. É do meu feitio se sinto haver desacerto, ou mal-estar, impor-me uma qualquer acção. Insignificante que seja. Neste caso sou o burro a olhar para o palácio porque, além do óbvio, não descortino o que mais poderei fazer para contrariar a tendência actual. A partir do momento em que reflecti sobre este assunto e o adoptei como um dos que me importa e preocupa, arregacei mangas para o que se encontra ao meu alcance. Ganhei maior consciência de que as minhas opções individuais têm importância, sim, e que mesmo sendo gota de água, o meu mililitro de contribuição pode fazer a diferença. Compro os meus livros, na sua maioria, em livrarias independentes. Nesta área, como em outras, também falho. Às vezes uma pessoa está com pressa e tem ao pé o que precisa e pronto. Para mim, essa será a excepção que confirma a regra. Tenho noção exacta do que tem acontecido a demasiadas Livrarias independentes, por uma grande parte dos Leitores se render ao comodismo das estantes fáceis. 

Em Setembro de 2008 falaram-me de uma Livraria que ficava no Rato. O nome por si só era prometedor: «A Trama». Aí encontraria uma publicação de poesia, a Criatura, que me apaixonara com o texto anónimo que lhe servia de mote. Começava assim: Não precisas de explicar ou dar nome a um movimento para fazeres as coisas moverem-se. De Setembro de 2008 a Junho de 2010 «A Trama» foi a minha livraria. Nessa altura, como agora, o orçamento doméstico não permitia grandes desvarios, por isso, guardava-me para lá ir em busca das leituras que me faltavam. Era um imenso prazer falar com a Catarina Barros e com o Ricardo Ribeiro. Perguntar-lhes o que achavam deste, ou daquele livro. Sentia-me orgulhosa quando seleccionava sozinha volumes e eles me sorriam cúmplices, aprovando a(s) escolha(s). Seria difícil que não o pudessem fazer. Todas as capas em destaque eram a melhor Literatura. Trabalho deles, essa criteriosa selecção. Passeava enamorada pelos títulos, maldizendo a falta de um plafond maior. Olho para as minhas estantes e sei cada livro que lá adquiri. Não foram poucos. Deviam ter sido muitos mais. A Trama fechou e não me esqueço dela, nem dos dois Livreiros, como não se esquece um amigo importante que partiu, deixando-nos com a saudade. Este foi, neste contexto, o primeiro grito ensurdecedor que me atingiu certeiro. 

(Apercebo-me, neste momento, que fechou a «Livro do Dia» em Torres Vedras que nunca cheguei a visitar, apesar da vontade, o que me deixa desolada.) 

O que é que a Trama tinha de especial? A intimidade. O ser um ponto de venda de livros, mas também um local de discussões profícuas, de aprendizagem, de convívio, de arte, do saber, de enriquecimento intelectual. Lá conheci pessoas estimulantes como a Rosa Azevedo, a Raquel Ochoa, a Rita Pedro, a Ana (Uma senhora de oitenta e tal anos que ainda se atirava a workshops de escrita criativa, recusando a solidão e a velhice.) entre muitas outras. Foi naquele espaço que reconheci, à distância, o Fallorca que acompanhava no blogue «O Cheiro dos Livros» cuja notícia da morte recente muito me entristeceu. Passeei os olhos por exposições de fotografia e outras. Dei mais uns passos neste trilho desmedido que é a Literatura. Lá amadureci enquanto Leitora. 

Falou-se disso neste Encontro Livreiro. Por que preferir as Livrarias independentes aos gigantes? Precisamente por isto. Nenhum Golias me marcará, ou ensinará, desta maneira. Os laços, o contacto directo e estreito com quem pretende comprar bons livros, a vontade de promover o encontro entre as gentes que os amam, de trocar ideias, de difundir a leitura e os bons autores, só poderá ser concretizada por pessoas apaixonadas e conhecedoras: os Livreiros. Muito dificilmente máquinas comerciais com líderes que são exclusivamente gestores e não se comovem com histórias de amor aos livros, como se preocupam com lucros, farão tanto por eles, pela leitura e pela Literatura. 

Exemplifico uma pequena parte da cadeia que já se criou na minha vida graças às livrarias independentes e às pessoas a elas ligadas: 

Na Trama frequentei dois cursos de Literatura com a Rosa Azevedo. Fiquei de olho nela, como pessoa a seguir, por ter entendido que dela virá sempre aprendizagem útil e refrescante. Entretanto, a Rosa organizou um ciclo de encontros que se intitulava “Para acabar de vez com a Leitura”. Iniciativa singular que muita falta me faz. Numa das sessões vi, pela primeira vez, o Luís Guerra. Homem dedicado aos livros, às letras e aos afectos que já muito me trouxe e que adorei conhecer, na Culsete, o ano passado, sem o filtro da virtualidade. Ele é o que se vê online e é alguém que nos enriquece a vida. Graças a ele tenho-me cruzado com outras pessoas marcantes, como o divertido Joaquim Gonçalves da «A das Artes» que por muito negra que se encontre a actualidade, acha os meios para arrancar um sorriso a quem o rodeia e para não perder o seu; o Nuno Fonseca e o Francisco Belard a quem o Luís tratou de arranjar boleia (a minha) para este quinto Encontro Livreiro, o que me proporcionou muitos minutos de conversa boa. Na «Pó dos Livros» frequentei um curso (Com a Rosa. Lá está.) sobre Surrealismo que me aprofundou o encantamento por Mário Cesariny, Alexandre O’Neill e António Maria Lisboa. Na «Ler Devagar» tive umas luzes sobre ficção para TV, com o vibrante filipe Homem Fonseca a quem continuo a acompanhar à distância. O Ricardo Ribeiro continua a ser o meu Livreiro de eleição, mesmo sem poiso fixo. Aquele a quem recorro e em quem confio. Tudo o que diga ficará aquém do quanto já ganhei nesta rede, sob o tecto acolhedor de Livrarias Independentes e pelas mãos empenhadas e amigas dos respectivos Livreiros. 

Um povo com Cultura terá maior capacidade para reflectir, ripostar e exercer o seu pensamento de forma livre. Não é possível submeter-se quem raciocina, está informado, sonha fora dos parâmetros, imagina e vislumbra além do que é imediato. Fornecido mastigado. É inestimável e fundamental o uso que os Livreiros fazem das suas Livrarias, na divulgação da nossa Cultura. 

O que faço perante um problema que considero também meu? 

1) Compro os meus livros em Livrarias Independentes. 
2) Divulgo, insistente, as livrarias que visito. 
3) Quando ofereço um presente a alguém dou primazia ao livro. 
4) Recomendo leituras. 
5) Leio aos meus filhos e conto-lhes histórias. 
6) Sensibilizo os que me rodeiam para a temática. 
7) Compareço, quando posso, nas iniciativas que as Livrarias dos meus afectos promovem e tento que me acompanhem amigos. Divulgo. 
8) Prefiro o papel ao digital. 

Reforço o apelo que já um dia fiz. Ajudem-nos a ajudar-vos. O que podemos, enquanto Leitores, fazer mais? 

Se a união dos Livreiros Independentes fará a força, essencial à sua sobrevivência, também é verdade que trará pujança à luta, a sensibilização dos Leitores para esta causa. Explicar-lhes o que está em jogo, o que perderão assim desapareça esta forma de olhar para os Livros e o quanto têm a ganhar ao entenderem que viver a Literatura é muito mais do que a mera compra do objecto. 

(Perdoem se me alonguei.) 

Finalizo dando os parabéns ao Antero Braga, da Livraria Lello, por esta justa homenagem a 46 anos de dedicação aos Livros, à Literatura e de serviço aos Leitores. 

A todos os que referi e aos que estão implícitos o meu MUITO OBRIGADA. 

Um abraço amigo. 

21 de Abril de 2014 

Andreia Azevedo Moreira, Escreleitora, Carcavelos.

domingo, 6 de Abril de 2014

A difícil situação dos livreiros no Portugal de hoje e (...) a necessidade de sinergias e políticas que os defendam e ao seu valioso património, em risco de perda irreversível — Daniel Melo | Universidade Nova de Lisboa

                                    Daniel Melo, aqui no II Encontro Livreiro (2011)

Por motivos de saúde, não posso comparecer ao V Encontro Livreiro na Culsete, para o qual fui amavelmente convidado pela incansável Fátima Ribeiro de Medeiros. Ainda assim, tenho muito gosto em partilhar convosco o meu agradecimento a todos quantos se esforçam por ver reconhecida a relevância do livreiro e da actividade cultural em geral. 

Aproveito também para deixar duas informações relativas a esta 'causa': a 1.ª é que a revista Cultura do Centro de História da Cultura da NOVA irá lançar em breve um dossiê sobre os livreiros e o seu património. Esperemos que possa ser apresentado já na próxima Feira do Livro de Lisboa. Esse dossiê acolhe textos dos livreiros que o Nuno Medeiros e eu convidámos para um encontro específico, realizado em Outubro passado. Os livreiros convidados foram Fátima Ribeiro de Medeiros e Pedro Oliveira, o último em nome dos antigos livreiros da Sá da Costa. Aditámos-lhe um texto introdutório onde reflectimos sobre a difícil situação dos livreiros no Portugal de hoje e sobre a necessidade de sinergias e políticas que os defendam e ao seu valioso património, em risco de perda irreversível, como ocorreu recentemente após o fecho de várias livrarias. 

A segunda informação respeita à recente abertura de um sítio de Internet dedicado à editora Romano Torres e ao projecto de salvaguarda e comunicação do seu precioso acervo documental e iconográfico. Esse site pretende também divulgar bibliografias temáticas e fontes orais, bem como dinamizar os estudos sobre a edição e o universo do livro. Trata-se de um projecto também do CHC da Nova, apoiados pela Fundação Gulbenkian, e pelo qual se busca ainda sensibilizar para a necessidade urgente de espaços institucionais destinados à salvaguarda do património da edição e do livro em Portugal. 

Espero que estas duas iniciativas possam contribuir para o adequado reconhecimento dos agentes ligados ao livro, designadamente dos livreiros. 

Bom Encontro Livreiro para todos, 

Daniel Melo
Historiador | Universidade Nova de Lisboa


(mensagem recebida no dia 29 de Março e lida no V Encontro Livreiro)

Agradeço todo o trabalho que as Livrarias e os Livreiros têm protagonizado em torno do livro — Francisco Madruga | Calendário de Letras



Caros amigos,

Na impossibilidade de estar presente na homenagem ao Antero Braga agradeço todo o trabalho que as Livrarias e os Livreiros têm protagonizado em torno do livro.

Um abraço

Francisco Madruga
Calendário de Letras | V. N. Gaia


(mensagem recebida no dia 30 de Março e lida no V Encontro Livreiro)

Acredito que hoje é fundamental a criação de uma rede de livrarias independentes no nosso país — Eduardo de Sousa | Letra Livre






Caros amigos,

Bom dia.

Mesmo não podendo estar presente no Encontro Livreiro por razões pessoais e de trabalho não deixo de acompanhar essa iniciativa com toda a atenção até porque acredito que hoje é fundamental a criação de uma rede de livrarias independentes no nosso país. Esses encontros podem ser uma oportunidade, e acredito que o sejam, não só de encontro de iguais mas de troca de ideias e experiências entre pessoas que têm uma paixão pela cultura do livro impresso e que tentam viver no complicado contexto de concentração oligopolista e absoluta mercantilização da actividade livreira.

Um bom encontro para todos os presentes.

Cordialmente,

Eduardo de Sousa 
Livraria & Editora Letra Livre | Lisboa

(mensagem recebida no dia 30 de Março e lida no V Encontro Livreiro)

Esperamos sinceramente que o próximo Encontro Livreiro no Porto seja em breve uma realidade — Dina Ferreira | Poetria



A Poetria, livraria de poesia e teatro, no Porto, associa-se em pleno ao 5º Encontro Livreiro no próximo domingo, na livraria Culsete, em Setúbal, onde este maravilhoso movimento nasceu, e envia aos colegas livreiros uma mensagem de solidariedade e esperança num futuro melhor para todos nós. 

No Porto há livrarias bonitas, e a mais bonita de todas é a magnífica Lello, cujo livreiro e grande amigo Sr. Antero Braga, está de parabéns porque acaba de ser homenageado com o diploma "Livreiro da Esperança". 

Nessas livrarias, há livreiros com histórias de dedicação, competência, entusiasmo, partilha de experiências e informação com o público que lê mas também com o que (ainda) não lê. 

Incansáveis e apaixonados pelos livros, os livreiros revêem-se nas sábias palavras do saudoso Manuel Medeiros, o querido "Livreiro Velho" que nos deixou recentemente: "...o olhar encontra de imediato os escritores e os leitores, mas entre o livro e a leitura está o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro 'publica' a leitura". 

Esperamos sinceramente que o próximo Encontro Livreiro no Porto seja em breve uma realidade, e estamos a trabalhar para que isso aconteça muito brevemente, porque estamos em perfeita sintonia com o espírito e objectivos que estiveram na origem desta iniciativa: conhecimento mútuo dos livreiros a nível nacional, englobando na mesma um universo alargado de gentes do livro e da cultura, reflexão conjunta sobre todos os aspectos e problemas inerentes a esta profissão: A MAIS BELA PROFISSÃO DO MUNDO! 

Um grande e forte abraço a todos. 

POETRIA
Dina Ferreira | Porto

(mensagem recebida no dia 27 de Março e lida no V Encontro Livreiro)

Para todos os Colegas e demais presentes, os meus melhores cumprimentos e votos de bom e proveitoso convívio — Maria de Lurdes Santos | Fundação Livraria Esperança




Muito boa tarde. 

É com muita tristeza que Vos informo que não me é possível comparecer em Setúbal no próximo domingo. Fiz todos os projectos para lá estar, mas não contei com o factor saúde que à última hora me faltou. (...) 

Para todos os Colegas e demais presentes, os meus melhores cumprimentos e votos de bom e proveitoso convívio. Espero fazer algumas visitas, logo que me possa deslocar ao continente. 

Atenciosamente,



Maria de Lurdes Santos
Fundação Livraria Esperança | Funchal



(mensagem recebida no 25 de Março e lida no V Encontro Livreiro)

sábado, 5 de Abril de 2014

Lutamos para manter vivos, no interior, espaços de encontro com os livros, com os autores, espaços de debate em torno da literatura e da cultura em geral...


E de Trás-os-Montes e Alto Douro continua a vir um exemplo que nos dá alento e muita esperança. De uma região onde já se realizaram três Encontros Livreiros regionais, veio uma delegação composta pelos livreiros Vírgínia do Carmo, da Poética (Macedo de Cavaleiros), e António Alberto Alves, da Traga-Mundos (Vila Real). Em representação das suas livrarias e também das gentes do livro que participaram recentemente no III Encontro Livreiro de TMAD, falaram-nos das suas experiências e leram o texto que agora publicamos.


Antes de mais, louvar a iniciativa… 

Numa altura em que, perante tanta informação desarrumada e desalinhada da realidade, temos paradoxalmente, cada vez mais, uma sociedade “desinformada” e alheada da verdade das coisas que regem efectivamente a sua vida, é importante que se criem movimentos destinados, precisamente, ao esclarecimento, e que incentivem o crescimento de uma outra visão mais genuína das coisas. É urgente uma espécie de “iluminismo” que desperte as mentes distraídas para outros critérios que não os que insistem em servir-nos em pratos dourados promocionais. Como se hoje em dia tudo pudesse ser objecto de promoção e vender-se em saldo. Nós acreditamos que nem tudo. E acreditamos que há valores para além dos economicistas a serem preservados. Por isso lutamos pela manutenção deste conceito de livraria “tradicional”, um conceito que pode até deixar na boca um estranho travo a conservadorismo quando se verbaliza, mas acreditem, nós, os que estamos aqui hoje vindos de Trás-os-Montes, somos tudo menos conservadores. Devereis entender porquê. Lutamos para manter vivos, no interior, espaços de encontro com os livros, com os autores, espaços de debate em torno da literatura e da cultura em geral, quando este país insiste na imagem falsa e oca de que só no litoral acontecem as coisas importantes a esse nível. Arriscamos a nossa sobrevivência - e acreditem…. arriscamos mesmo… - em função de algo que encaramos quase como um missão. Não baixamos os braços… lutamos e lutamos…. procuramos caminhos de sustentabilidade, alternativas que nos permitam persistir na materialização do sonho sem perder o sentido prático da vida. 

Daí que encaremos este nosso cruzar de percursos com o Encontro Livreiro como muito feliz. Foi uma oportunidade para coisas que só podem fazer-nos crescer: sinergias, partilha de experiências, conhecimento de outras realidades e respectivas aprendizagens. E é isso que estamos também a tentar reproduzir à nossa escala regional. 

Nesse sentido a Traga Mundos, que teve o primeiro contacto com o Encontro Livreiro e a generosa iniciativa de o fazer chegar aos restantes, promoveu um primeiro encontro em Vila Real, em Março de 2013. Nessa altura foi feito um esforço no sentido de chamar a participar o máximo de livrarias possível. Foi a primeira oportunidade de debate em tornos das preocupações comuns e das sinergias possíveis para uma melhor estratégia de afirmação das livrarias ditas “tradicionais”. Ficou clara a vontade de encontrar pontos de convergência, nomeadamente ao nível “da partilha de novidades editoriais de cada concelho, da cooperação na apresentação de livros de autores na região e da permuta de informação sobre eventos que cada uma realiza na sua região.” 

Em Junho de 2013 novo encontro teve lugar na Poética, em Macedo de Cavaleiros, para pensar e repensar estratégias para o futuro. Voltou a insistir-se no reforço das sinergias entre as livrarias com o propósito de dar mais voz mas também de encontrar formas alternativas e concertadas de viabilização económica deste sector numa dimensão regional. 

E por fim um terceiro encontro reuniu-nos em Bragança, na Livraria Rosa d’Ouro, num evento aberto a toda a comunidade em que a excelente organização daquela livraria brigantina congregou, para além dos sete livreiros presentes, a saber, Casimiro Fernandes & Família, da Rosa d’Ouro, e Carlos Prada de Oliveira, da Livraria Benquerença, de Bragança; Virgínia do Carmo, da Poética – livros, arte e eventos, de Macedo de Cavaleiros; António Alberto Alves, da Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisa do Douro, e Alfredo Branco, da Livraria Papelaria Branco, de Vila Real; Ari Oliveira, da Papelaria Dinis, de Valpaços; e Augusto Dias, da Livraria Aguiarense, de Vila Pouca de Aguiar, congregou também, dizíamos, editores, autores, professores, bibliotecários, jornalistas e, sobretudo, muitos LEITORES, numa “partilha de momentos de conversas e afectos, ideias e louvores, poesia e leituras, inquietações e sonhos”. 

Na sequência deste encontro inclusivo teve uma reunião mais restrita em que os livreiros mais uma vez se centraram nos objectivos e na estratégia futura no sentido de dar um impulso maior a este movimento. 

Da partilha de ideias, algumas das quais sublinhadas pelos contributos que foram sendo dados por todos os participantes (não livreiros) no período anterior do Encontro, emergiram as várias propostas, sugestões e compromissos: 

— o reforço dos objectivos assumidos aquando do II Encontro, e ainda não plenamente cumpridos, a saber, a partilha de informação relativa a novidades editoriais e actividades em agenda, e organização conjunta de eventos; ficou claro que já alguma já foi feita a este nível, nomeadamente com a vinda do autor Miguel Carvalho a três destas livrarias, mas mais há para ser pensado e feito; 

— a possibilidade de realização conjunta de uma “feira” do livro; 

— um maior envolvimento dos próprios leitores neste movimento, tendo sido colocada a hipótese dos leitores virem a ser o tema central do próximo encontro livreiro de TMAD, num abordagem a estudar; 

— empreender esforços no sentido da projecção dos autores nascidos na nossa região para lá das fronteiras da mesma em articulação e colaboração com as editoras dos respectivos autores; 

— a cooperação na divulgação dos autores locais, de cada concelho; 

— realização, em Agosto de uma montra de autores transmontanos simultânea em todas as livrarias da região que venham a aderir à iniciativa, em articulação com os respectivas editoras. 

Este foi um encontro motivador na medida em que deixou clara uma premissa que continuará a ser uma das bases de argumentação desta nossa causa: as livrarias “tradicionais” têm um papel insubstituível na aproximação das comunidades à cultura e aos livros, e também na divulgação e promoção das pequenas editoras e dos seus autores. 

Virgínia do Carmo | António Alberto Alves
(em representação do Encontro Livreiro de TMAD)

V Encontro Livreiro, Livraria Culsete, Setúbal, 30 de Março de 2014

quinta-feira, 3 de Abril de 2014

«Se o ciclo do livro está uma baralhada, a parte final é uma tourada»




Texto escrito para leitura no V Encontro Livreiro, em Setúbal, o que aconteceu no passado domingo, dia 30 de Março, foi já considerado aqui como uma «divertida e irreverente paródia, uma metáfora inteligente sobre o momento presente.» Passemos à leitura, se bem que nos falte agora a voz e o saber dizer do Joaquim, o Livreiro de Sines, para a transformar num momento único, de uma beleza irrepetível, que apenas quem esteve na Culsete pôde testemunhar e sentir. 

Por isso mesmo e pelo título que dou a esta breve intervenção, não me apetece falar de livros, nem de livrarias, nem de grandes grupos, concorrência desleal, supermercados, bombas de combustíveis, máquinas de livros… nada disso. 

Estou farto dessa conversa que, sem acção precisa e coordenada, só leva a um lado — a banalização do entorpecimento. 

Por isso mesmo, e porque estamos aqui, informalmente, mais uma vez, a confraternizar, deixo para outros as coisas sérias e tomo a liberdade de ocupar um pouco deste nosso tempo de forma lúdica. Talvez, assim, limpemos as cabeças para baralhar e dar de novo. 

Ora, lá, onde a minha mãe me deu à luz (no século em que nasci chamava-se parir…) nascidos em terra de tradições tauromáquicas, desde crianças que nos habituámos a aguardar ansiosamente o mês de Setembro para participar nas Festas anuais. Do seu programa ainda hoje constam, em confortável maioria, os espectáculos com toiros bravos. Para além das touradas, várias largadas de toiros nas ruas e praças, ao uso de Pamplona, rezam os cartazes. 

Directos ao assunto, falemos, então, das touradas e do seu cerimonial. 

Praça cheia, colorida, povo e mais povo. A gente ilustre em lugares de destaque. Barreira de sombra, para onde confluem olhares. O povaréu ao sol, lugares mais baratos. A banda de música convidada dá alma à tarde. Cinco horas — cinco en punto de la tarde — hora importada para o início da função. 

O público existe. O público aguarda. Está sedento de espectáculo. Seja qual for o cartaz, a mole humana vagueia, mais ao sabor da moda. Mesmo que haja pouco dinheiro, guardou-se algum para a festa. Se o cartaz é anunciado na televisão, melhor ainda. Já é bom antes de ser! 

Abre-se a porta larga — cerimónia de cortesias. Primeira oportunidade de apreciar as casacas dos cavaleiros – traje de luces, gente nobre, ou parecida com isso; a destreza dos cavalos, bem amestrados, dançando ao som do passo-doble. Na sombra da parelha, os peões de brega, subalternos, apeados, não variando muito de vestimentas. Já as dos moços de forcado, com ligeiras diferenças, são sempre iguais. Parentes pobres da afición, quantas vezes com as jaquetas esgaçadas, mas altivos e orgulhosos da sua posição independente no cartel, sem cachet, quantas vezes a terem de financiar a actividade, sempre a actuar pelo amor à camisola. 

Toca a música a compasso, os cavalos acompanham em passo artístico cadenciado. Acenam, acenam, que os cavalos acenam sempre! Ainda mais se forem vaidosos, que é assim que os donos os querem. 

Recolhidas as apresentações, a expectativa cresce. Pára a música até que o corneta anuncie a primeira lide. Surge, pela porta larga, o primeiro cavaleiro, agora já com outra montada. Dá voltas à arena, reconhece terrenos. Posiciona-se no lado oposto frente à porta dos curros. 

O corneta entra novamente em acção. É tradicional falhar uma ou outra nota daquele sinal que os aficionados sabem de cor. 

Porta dos curros aberta, sai a besta a soprar. O cavalo volteia, o cavaleiro condu-lo em busca de posição de cite. 

-Toiro, toiro! Eh toir’ liiiind’! 

Corre daqui, foge para acolá, posiciona-se mais além. O toiro desconfia. Decide-se, corre em busca do vulto provocador. O cavalo faz nova habilidade, contorce-se no cruzamento, o cavaleiro espeta o primeiro ferro. 

Seguem-se outros. Primeiro a série de compridos, depois, a de curtos. 

Entretanto, já os peões de brega voltearam os capotes rosa, em tentativas de posicionar o boi para a faena. Se têm dificuldade em conseguir ou abusam dos floreados, a turba assobia. O povo quer ver brilhar o artista. 

Toca a corneta para sair. O cavaleiro finge que sim. Mas, enchendo, ufano, o peito, cabeça para trás, saca do tricórnio, acena triunfal ao público que não regateia aplausos. Volteia, simula a saída e pede mais um ao director da corrida. Perante a concordância deste, rompe a praça num urro. E vai sair um curtíssimo. É o cravo, corolário da exibição. 

Sai o cavaleiro, toca para a entrada do grupo de forcados. Em pose e movimentos estudados, saltam a trincheira a um tempo, ajeitam os barretes, compõem a cinta. 

O público anseia pela porrada. São homem e toiro frente a frente, sem artefactos. Há quem defenda que é a parte nobre da tourada. 

Alinham-se os moços em fila. Destaca-se um – é o que vai à cara. Pega de caras, portanto. Seguem-se os ajudas — com título, o primeiro e o segundo. Os restantes, anónimos, excepto o último – o rabejador, que aguenta o que resta da fúria do bicho, até que os colegas se coloquem a salvo de ocasional investida. 

- Hu! Hu! Ehhhhhh toiro! Toiro, toiro, tooooooiro! 

Há gritos que se repetem, há coreografias próprias. 

Depois de vários cites e de uma dança de gato e de rato, a besta resolve-se a arrancar, num tropel doido, em direcção ao vulto provocador. O da cara recua em passinhos apressados para que o embate seja amolecido. Dá-se o choque. O homem, cara à banda, agarra-se à barbela do bicho; o primeiro e o segundo ajudas saltam para cima do estranho duo; os outros seguem as pisadas e, de repente, é um enxame de homens a imobilizar o animal. Resta o rabejador, com uma mão já agarrada à cauda, a outra em busca de terra para que não escorregue quando ficar sozinho a dar conta da bizarma. 

A pega de caras é uma operação de trabalho conjunto, solidário. Se os moços não estiverem todos em consonância, a coisa falha. 

Mesmo assim, nem sempre a pega corre de feição. Por vezes o toiro não colabora. Caem forcados, há quem saia ferido, há quem nunca mais possa pegar toiros. Há quem morra. Mas o espectáculo tem de continuar e as hipóteses de sucesso têm conta curta. 

Novo toque do inteligente – o tal homem da corneta que, por acaso, é uma trompete. Desiludidos, saem os moços da arena. Menos dois. Um par fica para a cernelha, última oportunidade de pegar o toiro, antes que as chocas entrem para o varrer de novo para os curros. A colaboração, agora, tem de ser ainda maior. Não há mais ajudas. Estudando os movimentos do bicho preto, de repente desatam numa correria e pegam o animal de lado. Já está. 

Salva de palmas, música no ar. Nas bancadas, gritos por queijadas e cervejas. - Olh’ó gelaaaaado f’squinh’! 

Enquanto os moços de arena vão alisando a terra com rodos, o cavaleiro já saltou para o recinto para a volta de honra. Sempre atrás de si, os peões de brega vão apanhando bonés e flores que o público arremessa e, subservientes, lá vão entregando ao artista. Este, chama o forcado da cara para o acompanhar. Assentindo, mais um salto acrobático sobre a trincheira, aí está o garboso. 

São agora dois os homens a recolher os louros da lide. O faustoso cavaleiro emproado na sua casaca e a modesta dignidade do forcado, lado a lado… a apanhar bonés! 


E tudo isto para nada! Vieram os fundamentalistas das ligas de defesa dos animais e acabaram com a fiesta

À falta de projector, fomos forçados a eliminar as ilustrações. Mas não faz mal. Toda a gente conhece as imagens, basta nomeá-las e logo o leitor/ouvinte as encaixará no devido lugar: 

1 - Nas bancadas, o público; 

2 - O traje de luces que ofusca e, bastas vezes, engana; 

3 - Os seus peões de brega – normalmente entregues a esta função para retardar o momento do fim; 

4 - os moços de forcado, armados da sua independência, agrupados, enfrentando o animal; 

5 - finalmente, o animal, a besta cornuda que uns espicaçam com farpas, de forma desigual, de cima dos seus cavalos amestrados e, outros, têm de pegar pelos cornos, solidariamente, para que tenham sucesso. 

Ah! Nunca esquecer, nunca, aquela figura sinistra, que é o Director da corrida – é que é ele quem manda tocar a corneta! 


Joaquim Gonçalves | A das Artes (Sines)

(Foto da escultura: Joaquim Gonçalves | Santarém, frente ao tribunal).


quarta-feira, 2 de Abril de 2014

Livrarias: presente e futuro


O movimento Encontro Livreiro convidou para apresentar o chamado texto oficial do V Encontro o sociólogo Nuno Medeiros que se tem dedicado à análise e reflexão de questões relacionadas com o livro, as livrarias e a edição, tendo publicado vários estudos sobre estas temáticas, entre eles o livro Edição e Editores: o mundo do livro em Portugal, 1940-1970. O texto produzido por Nuno Medeiros abordou e introduziu o tema proposto para reflexão durante o V Encontro Livreiro.


Como lançar o tema “Livrarias: presente e futuro” para o espaço de discussão e reflexão do encontro livreiro, designação que suscita apenas aparentemente uma homologia de sentidos conferida à palavra livreiro, que se deseja antes de mais uma noção alargada em torno do livro e dos seus praticantes: leitores, editores, tradutores, gráficos, distribuidores, capistas, ilustradores, revisores, autores, agentes de representação, formadores, bibliotecários, críticos e, claro, livreiros? 

O desafio que me foi proposto para trazer à fase inicial da discussão do V Encontro Livreiro obriga-me ao confronto com várias armadilhas. Devo evitá-las? E como? Sendo eu filho de livreiros e, durante muitos anos, colaborador de ocasião e de permanência no espaço livreiro, o da Culsete, que nos acolhe, sou também filho de dois promotores iniciais desta ideia: Fátima Ribeiro de Medeiros e Manuel Medeiros. E tenho vindo a ser, na última década e meia, um estudioso de espaços e campos confluentes, da edição de livros à leitura. É uma declaração de interesses longa e heterogénea, que espero não me tolher o convite que farei para o debate a partir de algumas, poucas, ideias que procurarei delinear. 

Antes de mais, convém abordar a própria categoria, para começar a pensar nela. O que é uma livraria? Como a definir? Quais os parâmetros e critérios da sua delimitação? Entramos em terreno que é mais escorregadio e rugoso do que parece, cujos ângulos se multiplicam a cada passo que damos. De que falamos, então, quando falamos de livrarias? A porta franqueia-se à complicação, diria antes complexificação. Sendo um espaço onde se vende livros, será um espaço onde apenas se vendem livros? Atiremos para a relação os espaços de papelaria onde se apresentam livros, ou de livraria onde surgem artigos de papelaria (assim como esta casa, a Culsete, mesmo que os livros ocupem espaço esmagador na proporção), ou ainda a livraria em que encontramos discos, e máquinas, e jogos, e livros. Juntemos espaços com configurações várias, como a livraria de pequena dimensão, a rede de livrarias culturais e com projecto comercial (veja-se exemplo de Óbidos, com o desígnio da obtenção do selo de Vila Literária através de iniciativas como a da rede de livrarias em elaboração), a livraria independente de maior dimensão (ou em rede), a livraria em rede, a livraria na rede. 

Haverá aqui lugar para os espaços híbridos? Pergunta especiosa, pois como é fácil perceber, o carácter sincrético, misturado, impuro (palavra muito perigosa e que procuro evitar, dada a sua ressonância eugénico-cultural), da livraria, ou melhor, do espaço livreiro, é uma realidade em si mesmo. Como se desenha a linha do que é essencialmente uma livraria, do que não é? E constitui uma ordem física ou não? Visitem-se sítios electrónicos de venda de livros usados e raros e perceba-se que haverá nos seus colaboradores mais livreiros que espaços de livraria. A livraria em casa. De onde, através de cliques e idas aos correios se vai fazendo um negócio e mantendo vivo o sistema de circulação da palavra escrita, impressa e virtual. 

A abordagem, portanto, não se encerra facilmente em gavetas operáveis. O que não quer dizer que se enverede por cair deliberadamente no dédalo da hiper-crítica, em que tudo é questionado até ao limite da inviabilidade de ser operacionalizado e de nos ajudar a pensar, decidir, praticar. Podia ainda ir pegar em aspectos como o da classificação em torno da existência ou não de atributos que legalmente definiriam a livraria, isto é, se um espaço de livraria entendido como espaço livreiro o é à luz de critérios de nomenclatura jurídica e administrativa. Uma parte da dificuldade de pensarmos a livraria de modo automático, logo redutor, virá certamente das transformações pretéritas sofridas pela palavra e pela polissemia que a parece ter caracterizado desde que o livreiro era também editor, distribuidor, vendedor, produtor. Outra parte da dificuldade reside seguramente na perspectiva de quem pensa a livraria, dependendo esta concepção dos seus gostos, hábitos, interesses, preferências. 

Avancemos, pois corro o risco de me perder na velha rábula de Sócrates, que proponha como método certeiro para derrotar alguém pedir-lhe uma definição. As livrarias, na sua pluralidade, enfrentam hoje desafios e obstáculos insofismáveis. Não é possível iludir o encerramento sucessivo de livrarias históricas um pouco por todo o país. E outras, menos históricas, por idade ou estatuto atribuído, também têm perecido. O estado de coisas não é apenas nacional. Mesmo as livrarias de nicho, em Portugal normalmente viradas para a literatura de recepção infantil, enfrentam problemas. O panorama livreiro nacional é um panorama em muito caracterizado pela morte livreira, pelo padecimento, pelo estiolamento de espaços que muitos aprenderam a chamar seu – mesmo que eventualmente nunca lá tivessem ido ou lá fossem arribando apenas a espaços. A luta é constante e de desfecho frequentemente avassalador. 

Por outro lado, como negar a resistência de projectos de criação ou recuperação, ressurreição até, de lugares devotados à venda e animação do livro? Não tenho presente essa contabilidade, a má e a boa, nem sei se está feita de modo sistemático e actual, mas sou confrontado com notícias paradoxais. Há, nesse sentido, um dinamismo, visível em encontros como este, ou como o de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde já decorreram três encontros livreiros. Há aventuras auspiciosas, em locais surpreendentes. 

O ciclo é um ciclo em aceleração, pautado pela velocidade de mudança, em que a morte é contrariada pelo nascimento de novos projectos. O universo corporativo, entenda-se, dos maiores jogadores deste diversificado tabuleiro, também tem demonstrado ritmo de transfiguração. E de onde a morte, o nascimento e a compra e venda não têm estado igualmente ausentes. E o processo continua. Mesmo aqui em Setúbal se prevê a vinda de um espaço de venda de livros para o novo centro comercial em construção. 

O cenário não é, por isso, de apreciação simples nem imediata. Mas está em transformação acelerada nestes últimos anos pela conjugação de factores de todos conhecidos, nos quais a inserção em movimentações igualmente sentidas internacionalmente não desempenha certamente um papel menor. Refiro apenas quatro, provavelmente os factores mais decisivos, se exceptuarmos o contexto geral de contracção económica, com evidentes e duradouras repercussões em tudo quanto tenha que ver com o livro: a) a concentração editorial e, em escala e com contornos diferentes, o seu émulo livreiro; b) a transfiguração tecnológica e a adopção de novos produtos, vias de acesso e práticas de fruição; c) o crescimento dos espaços virtuais de venda, edição e criação autoral (e aqui também a explosão dos serviços de auto-edição e comercialização, mesmo quando maquilhados com chancela); d) o fim provavelmente definitivo do modelo de distribuição assente em empresas de maior ou menor dimensão sustentado num acompanhamento de venda por comissão através da proximidade e de modos de venda não assentes em ritmos vertiginosos de rotatividade editorial nem em compra de espaço de montra e de exposição. 

A livraria tem de encontrar o seu caminho por entre um número alargado e volúvel de indicadores, tanto de entropia como de oportunidade, tanto de impedimento como de possibilidade. É verdade que o alinhamento do universo não é neste momento o melhor, mas o campo mudou inapelavelmente. E continua a mudar. Que fazer, então? 

Não tenho nem quero oferecer um receituário. Não creio que existam panaceias, nem mesmo que cheguem a ser desejáveis. Mas ocorre-me um conjunto de perguntas. Onde tem estado a lógica colectiva, de debate e acção? Multipliquem-se espaços como estes, diversifiquem-se momentos como o que nos levou até à Culsete numa tarde como a do último domingo de Março. Expanda-se o recurso aos jornais e restantes meios de comunicação, até à televisão. Haja uma atenção aos blogues que por aí vão aparecendo. Não resisto a mencionar o da Edição Exclusiva (http://edicaoexclusiva.blogspot.pt/), gerido pelo Nuno Seabra Lopes, perdoem-me a referência interessada, já que sou membro – muito preguiçoso – do mesmo. Mas há muitos outros, onde se procura discutir e pensar o universo do livro e que vale a pena espreitar e usar como recurso. 

E a componente associativa? Seja para defender os interesses de representação de uma classe que nunca foi só uma, seja para dinamizar e forçar a associação existente, APEL, a abraçar novos rumos de intervenção no que concerne à questão – ou questões – livreira. Seja ainda para pensar em formas de ultrapassar condicionamentos antigos, como o reduzido poder negocial de compra e encomenda de entidades o mais das vezes fragmentadas, de tamanho reduzido e actuando isoladamente. 

A capacidade de acção colectiva pode encontrar barreiras difíceis de ultrapassar em termos de uma agenda comum e de âmbito alargado, pois as prioridades e os interesses nem sempre são possíveis de harmonizar institucionalizadamente, através de uma nova associação, por exemplo, ou até da transformação da APEL numa federação de associações ou centros de representação distintos entre editores, distribuidores e livreiros. Mas a prática já demonstrou que é possível agitar as águas, pelo menos a julgar por casos recentes como a da intervenção de um conjunto de livreiros independentes (à falta de outro termo) junto das autoridades para obrigar ao respeito da Lei do Preço Fixo por outras entidades de venda do livro, algumas das quais assumidamente livrarias. Neste caso não foi necessária uma acção organizada em torno de um elemento de associação, mas apenas de mobilização concertada em torno de um desiderato específico. 

Mas, por outro lado, o exemplo que aduzi acaba – e reconheço-o provocatoriamente – por contribuir para um reforço da heterogeneização do campo livreiro (não que isso seja mau ou indesejável), já se trata de uma espécie de luta intestina, livrarias contra livrarias, habitando embora lugares muito diferentes, como diferente e hierárquico é o seu posicionamento geoestratégico no circuito de comercialização do livro. 

O tempo é pouco e as ideias muitas e em atropelo mútuo. Termino por aqui, nem sem antes fazer breve alusão ao terceiro termo, não formulado, da equação inicial: o passado das livrarias. O fecho de muitos destes espaços também encerra a potencial perda ou dissipação de material imprescindível ao conhecimento da cultura impressa e da circulação do livro em Portugal nos últimos cem anos. Essa potencial perda ou dissipação têm sido, aliás, a regra. Tal como para o património editorial, documental e não documental, fará muita falta continuar a alimentar um esforço de discussão e mobilização para a salvaguarda e estudo desse património livreiro, que engrossa, afinal, o património geral do que se convencionou chamar de História Contemporânea de Portugal. Sugiro uma incursão no sítio electrónico, pioneiro, sobre o arquivo histórico da editora e livraria Romano Torres (http://fcsh.unl.pt/chc/romanotorres/).

Nuno Medeiros, professor e investigador em Ciências Sociais

terça-feira, 1 de Abril de 2014

Entrega do diploma «Livreiros da Esperança» ao livreiro Antero Braga

Depois das palavras de boas-vindas da nossa querida amiga e anfitriã, a Livreira da Esperança Fátima Ribeiro de Medeiros, quero dizer que é também para mim um enorme prazer encontrar-me convosco na Culsete, a casa onde foi concebido, nasceu e continua a crescer o Encontro Livreiro, o lugar onde se concretiza o sonho — que começou por ser de um pequeno grupo de pessoas — de pôr as gentes do livro a conviver e a encontrar-se para melhor se conhecerem, para trocarem ideias e projectos, para viverem o presente e construírem o futuro. No fundo, para fazerem deste movimento um verdadeiro manifesto contra o fatalismo que pretende acabar, a pouco e pouco, com o tradicional derrotismo e com a lamúria. 

Como sabem, o diploma «Livreiros da Esperança» — uma homenagem das gentes do livro aos livreiros portugueses que reconhece o papel central que esta classe profissional desempenha na «publicação» da leitura — é uma iniciativa do movimento Encontro Livreiro e foi instituído e atribuído pela primeira vez em 2012. 

Este ano, o Encontro Livreiro homenageia o livreiro Antero Braga, da Livraria Lello, uma livraria da cidade do Porto, mas também do país e do mundo. 

Pede-me a amiga Fátima que seja eu a entregar este diploma, mas quero convidá-la, bem como à Caroline Tyssen ­—­ ambas Livreiras da Esperança ­— para o fazermos em conjunto e para me acompanharem neste momento. 

Sobre o novo diplomado, e resumidamente, quero dar-vos apenas algumas notas, parte delas já publicadas no Isto Não Fica Assim!, o blogue do Encontro Livreiro. 

Antero Braga é natural da freguesia do Bonfim, no Porto, onde nasceu no dia 17 de Agosto de 1950. 

Desde 1968 (faz 46 anos no próximo dia 16 de Julho), ano em que começou a trabalhar na Bertrand da 31 de Janeiro, na sua cidade natal, desempenhou diversas funções naquela empresa editorial, distribuidora e livreira (no Porto, em Aveiro e em Lisboa, assumindo responsabilidades tanto a nível local e regional como a nível nacional), tendo sido gerente de loja, chefe do departamento de lojas e agências, director-geral e administrador. 

Importa referir que Antero Braga entrou no mundo dos livros e para sempre se apaixonou por eles, pela leitura e pela profissão de livreiro um pouco por acaso, pois tudo parecia indicar que seria um homem dos números. Preparou-se para isso mesmo ao fazer o Curso Geral do Comércio e ao frequentar o Instituto Comercial do Porto. 

Perdemos um contabilista ou um profissional de seguros, outro dos seus destinos prováveis, mas ganhámos um livreiro de referência que tem como lemas considerar que é preciso aprender, aprender, aprender sempre, ir ao encontro dos leitores e não ficar simplesmente à sua espera com a barriga encostada ao balcão e, sobretudo nos últimos anos, resistir à pressão destruidora do poder económico, em defesa de um modelo de livraria que dê ao leitor o máximo de liberdade de escolha, não o submetendo à ditadura da moda, do descartável, do efémero, do que busca apenas o lucro imediato. No fundo, um modelo de livraria que crie, não apenas clientes, mas leitores, um modelo que nós aqui, no Encontro Livreiro, muito admiramos. 

Entre uma saída e um regresso à Bertrand, trabalhou ainda na distribuidora Jardim (grupo brasileiro Abril Cultural), como responsável do departamento de promoções e publicidade, tendo neste âmbito colaborado no programa televisivo «O Passeio dos Alegres», de Júlio Isidro. 

Mas a grande aposta de vida de Antero Braga — contra a opinião de muitos, mesmo dos mais próximos — foi a criação da Prólogo Livreiros e a renovação e dinamização da Livraria Lello, a emblemática livraria do Porto. Mais uma data a festejar este ano, no próximo mês de Maio: os 20 anos da Prólogo Livreiros e da renovada Livraria Lello. 

Não será por acaso que a Lello tem sido, desde 2008 e todos os anos, galardoada com vários prémios e eleita a loja tradicional com mais qualidade do país e a livraria melhor e mais bela do mundo. Recebeu também, em 2011, a medalha de mérito de grau ouro da cidade do Porto e, em 2013, a Secretaria de Estado da Cultura classificou-a como monumento de interesse público. Acrescentamos nós agora, em 2014, um diploma que reconhece o homem por detrás da obra. 

Trocando, a nível profissional, o certo pelo incerto, mas dando asas aos seus sonhos e transformando-os quotidianamente em realidade, Antero Braga fez e continua a fazer de uma livraria que encontrou decadente e em grandes dificuldades uma referência incontornável no conjunto das livrarias portuguesas. 

Antero Braga é, para nós, um exemplo de persistência e um sinal de esperança para o futuro. E é mais do que merecedor desta singela homenagem das gentes do livro e do Encontro Livreiro. Por isso queremos dizer-lhe, agora publicamente e na presença das gentes do livro que hoje quiseram e puderam estar neste Encontro: OBRIGADO, ANTERO BRAGA! 

Peço a Antero Braga que nos conte um pouco do seu percurso e da sua experiência e nos dirija algumas palavras de esperança, mas antes quero referir os nomes dos anteriores homenageados, os para sempre merecedores da nossa gratidão Jorge Figueira de Sousa, da Livraria Esperança (Funchal), Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira, da Livraria Galileu (Cascais) e Fátima Ribeiro de Medeiros e Manuel Medeiros, da Livraria Culsete (Setúbal). 

Peço uma salva de palmas, em jeito de renovada homenagem aos nossos Livreiros da Esperança e termino dizendo, certo de estar a representar cada um dos presentes e também os ausentes que gostariam de ter vindo e não puderam: OBRIGADO, LIVREIROS DA ESPERANÇA! 


Luís Guerra 
V Encontro Livreiro | Setúbal, 30 de Março de 2014

segunda-feira, 31 de Março de 2014

O V Encontro Livreiro em imagens e algumas palavras




No domingo, 30, tivemos na Culsete o anunciado Encontro Livreiro, em quinta edição. Alguns participantes chegaram ainda de manhã, ajudando a dar os retoques finais na sala. Os restantes começaram a chegar pelas 15:00 h, conforme programado. Estiveram representados livreiros, editores, trabalhadores do livro em diversas áreas, investigadores, autores, bloggers, jornalistas, leitores.

Depois das boas vindas e apresentação do programa, passou-se à entrega do diploma Livreiros da Esperança, atribuído a Antero Braga, da Livraria Lello, no Porto, sempre um momento alto do Encontro. De seguida, Nuno Medeiros leu o chamado texto oficial do V Encontro, reflectindo sobre as livrarias no presente e no futuro, dando assim o mote para a discussão posterior, que foi viva e muito participada, mostrando diferentes perspectivas e olhares.

O Encontro começou ao som da voz e da guitarra de Henrique Silva e decorreu entre cálices de Moscatel de Setúbal. Foi positivo, deixou no ar muita coisa para reflectir, para amadurecer, para procurar fazer. O relato oficial será redigido, como sempre desde o terceiro Encontro, por Rosa Azevedo. Ficam aqui apenas as primeiras impressões.



Luís Guerra, um dos “pais” do EL, chega antes das 15:00 h e calmamente aguarda a chegada dos restantes participantes.


Com ele veio o Manuel Guerra, preparado para tirar as melhores fotos do Encontro, deixando estas com vontade de desaparecerem para sempre.


Os livreiros do norte chegaram por volta do meio dia e aproveitaram para almoçar um belo peixe assado. Vieram a Virgínia do Carmo (na foto) e a Alice Pires, da Poética, em Macedo de Cavaleiros, e o António Alves, da Traga-Mundos, em Vila Real.


Pouco depois chegava a delegação de Lisboa, a Andreia Azevedo Moreira, o Francisco Belard e o Nuno Fonseca.


O Joaquim da A das Artes, em Sines, ao chegar encontrou logo o José Francisco.


Francisco Belard aproveita para o último cigarro junto a uma das montras da Culsete.


Henrique Silva prepara-se para nos encantar com…


… os acordes da sua guitarra e a sua voz.


Ainda há tempo para espreitar as estantes.


Baptista Lopes, da Âncora, participa pela primeira vez no EL.


Os sorrisos e olhares brilhantes de Maria Clementina, Rosa Azevedo e António Alves fazem adivinhar um bom Encontro.


Por toda a livraria surgem conversas…


… conversas…


… e mais conversas.


E leituras atentas. A leitora é Marisa Cordeiro Rodrigues, da Livraria Espaço, em Algés, que saudamos especialmente por ser uma estreia no Encontro Livreiro e também pelo 50.º aniversário da sua livraria, um espaço de leitura aberto por seu pai e que Marisa continua a desenvolver com as irmãs.




Há ainda espaço para esperar serenamente, de sorriso nos lábios…


… ou rindo abertamente, como Caroline Tyssen após o encontro com Antero Braga.


Finalmente, o EL vai começar e todos procuram um lugar.


Depois das boas vindas dadas pela anfitriã, Fátima Ribeiro de Medeiros, é a vez de Rosa Azevedo introduzir o programa deste EL…


… passando a palavra a Luís Guerra, que apresenta o primeiro momento alto da tarde…


… a entrega do diploma Livreiros da Esperança 2014 a Antero Braga, da Livraria Lello, no Porto.


O homenageado agradece o Diploma e produz um discurso em que refere algumas questões pertinentes para o debate que se seguirá, ideias que Antero Braga retomará ao longo da tarde.



Rosa Azevedo volta a pegar na palavra para introduzir o segundo momento alto do EL, a leitura do considerado texto oficial do V Encontro, pedido a Nuno Medeiros.


Nuno Medeiros lê o seu texto, uma brilhante reflexão sobre o presente das livrarias e como se pode perspectivar o seu futuro, passando por uma referência ao passado. Depois desse momento a discussão abriu-se a todos os presentes que quiseram intervir.



Joaquim Gonçalves lê a sua divertida e irreverente paródia, uma metáfora inteligente sobre o momento presente.


Toma depois a palavra Virgínia do Carmo, da Poética, em Macedo de Cavaleiros, para falar sobre os Encontros Livreiros de Trás-os-Montes e Alto Douro…


… para voltar a Antero Braga…


… que entrega o microfone a Fernando Alagoa, sob o olhar atento de Caroline Tyssen.


Depois de Rosa Azevedo ter lido mensagens de Dina Ferreira, da Poetria, no Porto, de Maria de Lurdes Santos, da Esperança, no Funchal, de Eduardo de Sousa, da Letra Livre, em Lisboa, e de Francisco Madruga, da Calendário de Letras, em V. N. de Gaia, é a vez de Maria Clementina ler a mensagem enviada por Daniel Melo.


Francisco Belard dá também o seu contributo…


… passando a palavra a José Soares Neves, uma estreia no EL.


Outros foram falando, repetindo intervenções e reafirmando opiniões, até que Caroline Tyssen teve de despedir-se, dizendo breves palavras e encenando um passe de dança com Antero Braga que acabou em abraço.


Ainda houve tempo para ouvirmos José Gonçalves…


… Jónatas Rodrigues…


… e António Manuel Venda.



Demos então por concluído mais um Encontro Livreiro, o quinto. No final ainda houve tempo para as últimas conversas. Depois alguns de nós partiram ao encontro do óptimo choco frito, o que também já é uma tradição, mas disso não temos reportagem.

Até 2015, no último domingo de Março, para o VI Encontro Livreiro.


FRM, Papel a Mais (blogue da Livraria Culsete).