segunda-feira, 29 de março de 2010

O TEXTO QUE DÁ O PONTAPÉ DE SAÍDA

Em busca do maravilhoso país da leitura, aportou hoje a Setúbal o «Encontro Livreiro», dando assim cumprimento ao sonho de um velho livreiro, que sempre desejou ver os profissionais do livro «viajar num mesmo barco para o país da leitura».

A bordo, e sob a hospitaleira recepção do livreiro Manuel Medeiros, o também escritor Resendes Ventura, viajam todos quantos puderam e quiseram corresponder ao seu apelo para que com ele passassem a tarde deste último domingo de Março, conversando, convivendo, entre livros e saboreando um moscatel da região, com o seguinte traje obrigatório, segundo reza o convite: «interesse em participar e boa disposição!»

Desejamos que a este porto acorram editores, tradutores, livreiros, vendedores, distribuidores, bibliotecários, professores, blogues, comunicação social, mas também leitores que queiram conviver, conhecer e trocar ideias com aqueles que fazem do livro a sua actividade diária, alguns a actividade e paixão de uma vida inteira.

Do autor ao leitor, muitas são as mentes e as mãos que fazem do livro uma das mais extraordinárias criações humanas e transformam cada livro editado num renovado acontecimento.

É ambição de quem deu os primeiros passos deste empreendimento, pôr todas estas pessoas, comummente vistas como individualistas e sempre à procura de alijar responsabilidades e «sacudir a água do capote», a conversar sobre as formas de se darem ao respeito e, desse modo, dignificarem as suas profissões e o livro.

Essencial ao desenvolvimento cultural do país e ao progresso, o livro, no formato actual ou em quaisquer outros que o futuro nos ofereça, exige de nós uma atitude mais responsável e mais interventiva. Não nos podemos quedar pela crítica destrutiva e lamurienta.

A situação actual do livro, das livrarias, da edição, da distribuição, das bibliotecas, das escolas, da leitura, merece a reflexão atenta de todos e a adopção de medidas e sobretudo de atitudes que contrariem a opinião acrítica e a formatação de um gosto dominante que prima pelo efémero, pelo fugaz e pelo superficial.

Não se pretende encontrar, e muito menos crucificar, «culpados» dos males que atormentam o mundo do livro e da leitura. Se os há somos todos nós, quando não somos profissionais competentes na actividade que desenvolvemos. E uma actividade que visa, em última instância, a leitura, mais exigente se torna com os seus profissionais. Choca, por exemplo, ver profissionais do livro que fogem da leitura como o diabo da cruz!

Há que mudar atitudes e procedimentos e é já com um novo espírito que este Encontro Livreiro deve acontecer: reunindo em vez de dividir; ouvindo em vez de impor; convivendo em vez de continuar de costas voltadas; metendo as mãos na massa em vez de estar à espera que outros resolvam o que a nós cabe resolver; tomando consciência de que todos somos poucos para a árdua tarefa de fazer da leitura um desígnio nacional crucial para o progresso e para a nossa identidade e maioridade cultural.

O país futuro que ambicionamos e que queremos ajudar a construir assenta o seu progresso no desenvolvimento cultural, na leitura e numa verdadeira articulação entre política cultural e educação.

Os participantes no I Encontro Livreiro, constituindo-se como fundadores e impulsionadores destes Encontros, estabelecem a sua realização anual, fixando que o II Encontro Livreiro terá lugar, no mesmo local, no dia 27 de Março de 2011, mantendo o seu carácter aberto.

Será criado um blogue, com a designação de «Encontro Livreiro», onde, para além da publicação, entre encontros, de notícias e textos relevantes relacionados com o Livro em Portugal, se divulgarão textos, propostas e outros documentos que surjam durante a realização de cada Encontro. Em cada sessão anual será designado um grupo de três elementos que se responsabilizará, no ano seguinte, pela manutenção do blogue.


Luís Guerra
Setúbal, Livraria Culsete, 28 de Março de 2010

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