segunda-feira, 12 de abril de 2010

«FALAR DO HERMÍNIO», um editor que veio da rua...

Luís Guerra, a quem telefonei logo após a sessão em que leu o seu «Texto sobre Hermínio Monteiro», teve a simpatia de mo enviar. Li-o e comoveu-me. É um documento, precioso a vários títulos. Sinto-me feliz por Luís Guerra aceder ao meu pedido de divulgação no ISTO NÃO FICA ASSIM! do Encontro Livreiro. Estou certo de que lhe ficarão gratos todos os que aqui lerem este precioso texto. E quantos comentários ele suscita!

Manuel Medeiros



Quero em primeiro lugar agradecer o convite do André Godinho para participar no seu filme sobre o Manuel Hermínio Monteiro e à Midas o amável convite para colaborar nesta iniciativa de lançamento. Não podia recusar porque se trata do Hermínio, uma pessoa que estará para sempre ligada à minha vida e ao rumo que ela tomou tinha eu vinte e poucos anos. Esta iniciativa, além do mais, realiza-se numa livraria e no Dia Mundial da Poesia e, portanto, num local e num dia especialmente bem escolhidos para falarmos do Hermínio, um amigo das livrarias e da poesia, por vezes tão maltratadas e desrespeitadas.

O Hermínio dizia repetidamente, referindo-se aos livros que então iam construindo o catálogo da Assírio & Alvim, que o importante era que falassem deles e os dessem a conhecer, mesmo que nem sempre de forma elogiosa. Preocupante era e é, penso eu também, o silêncio ou o barulho ensurdecedor que, anunciando a fugaz «banha da cobra», relega para o esquecimento o que de mais perene se vai fazendo.

Falar do Hermínio, mais do que pôr a nu as especificidades e múltiplas facetas de uma personalidade forte, como homem que era (como me custa ainda, passados quase dez anos, conjugar o verbo desta forma), daria para muita conversa e tem dado, felizmente, para muita conversa junto dos muitos amigos que deixou e também daqueles, mais jovens, com quem me tenho cruzado e me pedem muitas vezes informações sobre alguém de quem ouvem falar com tanto entusiasmo.

Falar do Hermínio é falar de um tempo em que a produção editorial em Portugal era mais escassa, em que os livros tinham uma permanência mais prolongada nas livrarias e em que a nossa alegria de ver chegar novos livros (uma festa sempre renovada) era tão grande como a alegria de ver partir, ao longo de anos, os livros do nosso fundo editorial. Esse fundo e as novidades que o passam a integrar e que ultrapassam a voracidade do primeiro impulso, continuo convencido disso, é que fazem verdadeiramente o catálogo de uma editora.

Falar do Hermínio é falar de um editor que veio da rua, do contacto directo com os livreiros e, através destes, com os leitores, reflectindo nas suas escolhas e atitudes o que aprendera enquanto vendedor de livros, uma actividade que muitos, erradamente, ainda hoje confundem com a de meros «anotadores» de pedidos ou, como agora se diz, «repositores de produto». Quero aqui recordar as visitas que comigo fez às livrarias, na passagem de testemunho, e a forma como os livreiros me receberam, sabendo eu que isso se devia muito ao caminho desbravado pelo Hermínio.

Falar do Hermínio é falar de um homem que, vindo do campo, trouxe para a cidade as vivências e os aromas de um espaço e de um tempo prenhe de um imaginário maravilhoso mas em acentuado processo de extinção. De um homem que nunca renegou as suas origens e afirmava «gosto de pensar que edito livros como quem trata de uma vinha», demonstrando uma sageza própria de camponês que sabe dar tempo ao tempo e está sempre sujeito às agruras e à imprevisibilidade do tempo.

Falar do Hermínio é falar de um líder natural que, com o seu entusiasmo, contagiava todos quantos com ele punham a mão na massa da edição e de outros projectos que abraçou.

Falar do Hermínio é falar de um dos pilares, com o Manuel Rosa (actual editor da Assírio & Alvim e já então o grande responsável pela sua imagem), de uma editora que, criada em 1972, se afirmava nos anos oitenta como uma editora de culto com projecção num futuro que continuamos a construir. Com o Hermínio a Assírio passou a ter um rosto.

Falar do Hermínio é falar de alguém que, acima de tudo, tinha um grande amor à vida e às coisas boas e belas que ela nos oferece e que, partindo embora prematuramente, continua presente na obra que nos legou, pelo que o continuo a encontrar diariamente nos vários espaços da Assírio & Alvim, desde o departamento editorial, às livrarias, ao armazém onde ele tanto gostava de descer para se inteirar do andamento das vendas e sentir o movimento dos livros para as livrarias e vice-versa, num repetido vaivém que vai levando os livros aos leitores.

Falar do Hermínio é falar de um editor que sempre viu na Assírio & Alvim, não apenas uma empresa (que foi limitada, cooperativa, novamente limitada e hoje sociedade anónima), mas sobretudo um projecto cultural mais vasto. É falar também de todos os que, no passado e no presente e sem nenhuma excepção, ajudaram a construir e consolidar um projecto editorial que assenta numa permanente escolha de rigor e exigência.

Falar do Hermínio é falar de Cesariny, Herberto, Pascoaes, Ruben A., Fernando Pessoa, Miguel Esteves Cardoso, Agostinho da Silva, João dos Santos, José Agostinho Baptista (que também participa neste filme e tão bem nos fala do lugar dos afectos na vida do Hermínio) e muitos, muitos outros autores cuja obra a Assírio & Alvim «aprendeu a amar e a tratar com rigor e dedicação». O catálogo que deixou e que continuamos a construir está aí e julgo que fala por si. Como diz Manuel António Pina, num belíssimo texto publicado em «Uma rosa para o Hermínio» (uma homenagem da APEL realizada no dia 3 de Junho de 2002), «(…) os livros que o Hermínio editou ao longo da vida desenham (vemo-lo agora nitidamente) o perfil do seu rosto intelectual e afectivo.»

Falar do Hermínio é falar de alguns projectos que muito acarinhou e marcam o seu legado: o Anuário de Poesia de autores não publicados (com um júri que foi sendo integrado, em anos diferentes e entre outros, por José Bento, Fiama Hasse Pais Brandão, José Agostinho Baptista, Fernando Luís Sampaio e Miguel Serras Pereira) que acolheu milhares de poemas e revelou alguns autores que ganharam posteriormente espaço próprio. Veja-se, por exemplo, o caso de Adília Lopes, que publicou nos anuários de 1984 e 1985 e de quem acabámos de lançar, em 2009, Dobra – poesia reunida; A Phala, sucessora de uma efémera publicação chamada Folha, publicação que no primeiro número se propunha ser «uma forma de expressão da Assírio & Alvim» e um «complemento do nosso trabalho cultural» e fechava a sua «Apresentação» desta forma: «(…) projectamos a Assírio & Alvim como espaço de qualidade e diversidade, de quem escolhe e edita livros à revelia dos códigos dominantes de comércio e lucro. Queremos dizer: não fazemos livros para cambiar por patacos. Editamos porque os livros nos dão prazer, e pretendemos colocar à disposição dos nossos leitores o que nos parece ser o melhor: autores, traduções e concepção gráfica.»; A Phala especial, Um Século de Poesia, que em 1988, envolvendo muitos colaboradores e tendo aos comandos o Hermínio, o José Bento, o Gil de Carvalho e o Fernando Pinto do Amaral e no design gráfico Manuel Rosa e Luís Miguel Castro, assinalou o centenário do nascimento de Fernando Pessoa, homenageando a poesia portuguesa como a mais alta expressão cultural desse século; e a última grande aventura, Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro.

Falar do Hermínio é falar de um editor que não se fechou no seu gabinete, antes se empenhou em movimentos cívicos, associativos e culturais, tendo ainda variada participação escrita em catálogos, jornais e revistas como a Ler, a Epicur, o JL, a K, O Independente, entre outros.

Falar do Hermínio é falar da inovação que, nos anos oitenta, se introduziu nos lançamentos de livros e de que são exemplo: pedir à Rodoviária Nacional um autocarro e enchê-lo de jornalistas, escritores e amigos para ir a Amarante, à casa de Teixeira de Pascoaes, fazer o lançamento de Os Poetas Lusíadas que contou com a leitura integral, na casa, de «Senhora da Noite» por Maria Barroso e pelo poeta Eugénio de Andrade; fazer o lançamento do primeiro volume das obras de Ruben A. no Monte dos Pensamentos, em Estremoz, com muitos amigos do Ruben A. e uma exposição sobre o escritor no museu da cidade (exposição que depois esteve no Porto e em Lisboa); fazer o lançamento d' O Livro de Bem Comer, de José Quitério, com um enorme repasto na quinta de D. Pipas, no Ribatejo; o lançamento de Cartas Portuguesas em Beja, com a exposição das pinturas de Ilda David' que fazem parte do livro, no castelo de Beja, e o lançamento do livro no convento de Mariana Alcoforado, com leitura das cartas pela actriz Inês Medeiros (o livro teve também um lançamento no Porto, com uma peça musical inédita de Paula Sousa, com a cantora Ana Deus e a actriz Ana Bustorf); a «Marcia de Poesia», que durante um mês inteiro levou à livraria da Assírio conversas sobre a poesia portuguesa do século XX, onde participaram dezenas de escritores e críticos, actores e músicos, muitos a despontar, como a Alexandra Lencastre, a Margarida Marinho, a Filipa Pais, outros já a consolidar a carreira, como o Pedro Aires Magalhães, ou os consagrados, como a Fernanda Alves (que leu «Poliptika de Maria Koplas», poema de Mário Cesariny, com banda sonora, que este executou ao piano) a Isabel de Castro, o Luís Miguel Cintra, etc.; ou as iniciativas por todo o país, com exposições, leituras, lançamentos, nos 25 anos da Assírio, numa enorme descentralização bem demonstrativa do quanto o Hermínio amava o país inteiro e tinha amigos de norte a sul; o projecto «Os Poetas» e muitas outras iniciativas que o tempo não nos permite continuar a enumerar.

Falar do Hermínio é falar de um editor que também experimentou o ensino, tendo deixado marcas pela forma como transmitia o seu amor pela História, em cujo imaginário invariavelmente buscava ensinamentos para a edição.

Falar do Hermínio é falar das colecções que ele via como divisões de uma casa feita de livros. Lembremos a colecção «Rei Lagarto» pela importância que teve, num tempo anterior à Internet, para a divulgação de biografias e de letras de cantores e de grupos que, cá e lá fora (e este lá fora era bem mais longínquo), marcavam a cena musical dos anos oitenta. Lembro, e há por aí ainda muita gente que me acompanha nesta recordação, os lançamentos noite fora em bares do Cais do Sodré resgatados ao lado mais obscuro da noite (o Tókyo, do senhor António, e o Shangri-lá, do senhor Martins, são disso exemplo), mas também no Porto, no Aniki Bóbó do amigo Becas. Lembremos também a «Gato Maltês», a colecção de livros de bolso da Assírio & Alvim que fará trinta anos em Janeiro do próximo ano.

Voltando atrás: conheci o Hermínio no início dos anos oitenta, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde estudámos, Filosofia eu, História ele. Conheci o Hermínio por causa do Sérgio Godinho e o Sérgio Godinho por causa do Hermínio. São ambos grandes culpados de ser quem sou hoje.
Sendo eu, por parte da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras, um dos responsáveis (com, entre outros, o António Costa que também participa no filme) pela organização de um espectáculo do Sérgio na Aula Magna, quem é que me apareceu a representá-lo? O Hermínio, o «Meu amigo Manuel» da canção que todos devem recordar. Conversámos, negociámos, e ao fim de demoradas negociações baixámos vinte contos ao cachet inicial (guardo o contrato que ambos assinámos, eu pela AEFLL, o Hermínio pelo Sérgio Godinho) e no dia 10 de Dezembro de 1981, como rezam os recortes de jornais da época «O cantor Sérgio Godinho provocou (…) uma das maiores enchentes de sempre da Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa (…) “Maré Alta” (…), (um dos temas do seu primeiro LP) foi executado “ao vivo” pela primeira vez, merecendo prolongados aplausos da assistência.» (Expresso, 12-XII-1981) e «Sérgio Godinho encheu a Aula Magna (…) uma lição com um brilhozinho nos olhos.» (…) «num show onde o risco se cruzou com o prazer, onde a festa colectiva se misturou com um silêncio comovido» (Se7e, 16-XII-1981).
Numa entrevista ao Letra – Jornal da AEFLL, com a presença e participação do Hermínio (que a certa altura interrompe e chama a atenção para a existência de dois tipos de público distintos, na cidade e no campo), o cantor afirmava: «Gosto do palco. A partir de certa altura senti necessidade, eu e muitos outros, de melhorar um bocado a apresentação das nossas canções. A interpretação pode ganhar com a espontaneidade, com a vivacidade, com o contacto com o público. (…) O palco é, muitas vezes, a finalidade da canção, porque a renova permanentemente».
Alonguei-me um pouco neste aspecto por duas razões: primeiro, porque daqui nasce a minha relação com o Hermínio; segundo, porque este espectáculo marca o início de um tempo em que os chamados «cantores de intervenção» começaram a tomar consciência, depois de um tempo em que imperava o voluntarismo, de que deveriam começar a ter uma exigência mais profissional.

Passa o tempo e um dia recebo um telefonema do Hermínio (que já tinha deixado vários recados nos sítios por onde eu andava. Lembremo-nos que ainda não havia telemóveis. O fax chegou já eu estava na Assírio) a perguntar-me se queria ir trabalhar para a Assírio. Disse-lhe que ia passar o mês de Agosto em Paris, onde residia a Maria de Lurdes, namorada recente e minha mulher de então para cá, mas que estava interessado sim senhor. E diz o Hermínio: «Vai lá de férias descansado e, quando regressares, aparece». E eu disse que sim! Sem perguntar o que ia fazer e quanto ia ganhar, feliz pela aventura de poder trabalhar numa editora, eu que já fora há muito tocado pelo vírus do livro e da leitura. E aqui estou, depois de muitas, muitas voltas, nossas e da vida.

Perceberão agora melhor a razão pela qual não podia recusar o convite do André Godinho (estes Godinho perseguem-me) para lhe falar do Hermínio. Gravámos a conversa na livraria da Assírio & Alvim, num domingo à tarde, tendo o António Costa viajado propositadamente do Porto, onde reside e trabalha. As coisas que o Hermínio nos obriga a fazer!

Obrigado André por nos falares do Hermínio e por me teres concedido o privilégio de falar sobre alguém que marcou para sempre o meu percurso pessoal e profissional, em suma a minha vida.

Obrigado a todos pela paciência de me ouvirem dizer pobremente algumas palavras sobre um homem acerca do qual nunca conseguiremos expressar cabalmente o quão importante foi no mundo da edição e do livro em Portugal, mas também o quão importante foi para os amigos que tão cedo se viram privados do seu entusiástico, afectuoso e contagiante convívio.

O essencial da obra do Hermínio, os livros que editou e estão vivos no catálogo da Assírio & Alvim, bem como o seu exemplo, continuam hoje na luta diária que mantemos para honrar uma chancela editorial que se soube impor ao respeito de muitos e que continua a ser acarinhada pelos seus leitores, apesar das dificuldades, das tormentas e das «crises» que ciclicamente apoquentam a nossa economia e o mundo do livro.

Espalhem a notícia e continuem a falar do Hermínio.

Luís Guerra
Lisboa, 21 de Março de 2010
[Texto lido na apresentação do dvd MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO -MHM, de André Godinho, no auditório da Fnac Chiado]

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