sábado, 29 de maio de 2010

CRÓNICA RESUMIDA DE UMA CONFISSÃO

Eu, livro impresso em papel, a exemplo do velho Galileu, venho reconhecer os meus erros em final de vida e pedir perdão por todos os crimes de que sou acusado.
É verdade que, durante séculos, contribuí para a destruição de muitas florestas à força de querer ensinar o mundo a ler.
Em muitas latitudes, paguei caro por isso, ao ser perseguido, censurado, queimado e odiado por quem me temia.
Descobri, então, que a ignorância, além de ser estúpida, quer-se resistente.
Também é verdade que, à minha sombra, muitos abusaram da passividade a que me sujeitei, gastando toneladas de folhas em branco sem nada para dizer.
Acontece ser o desperdício um erro da democracia.
Sei, também, de sobra que neste planeta a deitar por fora, já se encara o espaço como um problema.
Quer nos armazéns das grandes editoras, quer nas lojas, reais ou virtuais, quer ainda nos lares de milhões de leitores, cresce a insinuação de que estou a mais.
Não é segredo para ninguém que o papel acumula-se, atrai os bichinhos, esgota prateleiras, ganha uma cor térrea e o cheiro a bafio de uma longa idade.
Há, também, quem diga que tremi e tremo com a chegada das novas tecnologias. Mais limpas e rápidas na comunicação, encurtam as distâncias entre os pólos da Terra, prometem robôs que venham a falar como seres humanos.
Verdade ou mentira, só de pensar que o livro digital já vem a caminho, quebra-me a vontade de ser D. Quixote, velha personagem a que tanta vez dei corpo.
Meter vinte livros numa pequena caixa é uma tentação mesmo para aqueles que não gostam de ler.
Mas sendo o progresso a arte de ir em frente, com os pés no chão, ainda há quem veja com olhos de gente que a minha permanência vai continuar, mesmo reduzida, no mercado da cultura e da comunicação.
Hábitos de leitura, estilo e tradição, a recordação de boas leituras, o toque do papel são muitas as razões de quem julga haver lugar para todos.
Assim aconteceu com a fotografia, o cinema e o teatro quando da chegada da madre televisão e, mais recentemente, com a Internet.
E, depois, quem sabe, ao fim de tantas voltas ao redor do sol, quantas vezes nós olhamos em frente e damos connosco a olhar para trás.
O vento, o mar e o sol, já por cá andavam antes do carvão, do petróleo, da electricidade e do nuclear entrarem ao serviço.
Agora lhes chamam energias renováveis e revelam-se úteis para a humanidade .
Assim sendo, eu, o livro em papel, embora admita que a minha viagem já esteja a entrar na última estação, ainda circulo à velocidade dos milhares de edições.
- Então que fazer? – perguntam os elementos da tribo do deitar abaixo como sempre fizeram em todas as situações.
Ora bem, senhores, mesmo que o vulcão da Islândia e outros parecidos cubram o céu de cinzas, é de boa prática que autores, editores, livreiros e leitores atentem na mudança com esta certeza.
Em papel ou em suporte digital o livro continuará a existir e a ser procurado por quem não desiste de viver com ele.
Com este argumento, talvez os juízes me reduzam a pena, a morte do livro não é para já.
Tenho a meu favor o muito que aprendi, enquanto esperava dias a fio, que alguém me tirasse de uma prateleiras.
É, pois, sobre a loja que passo a falar.
A loja, esse elo visível do circuito comercial que é o ponto de encontro entre o livro e o leitor, não deve nem pode ficar para trás.
Alguém afirmou que o caminho se faz, começando a andar.
Na expectativa de uma morte lenta, entre lapiseiras baratas made in China e cromos de futebolistas, é bom que os livreiros não baixem os braços e vejam os recursos com que podem contar na venda do livro, ainda em papel.
Caramba, olhem como os putos brincam com a informática, sobre o teclado do computador.
Organizar ficheiros de clientes certos é tratar de forma directa a comunicação.
Animar as lojas, enfeitar as montras, seguir na esteira das campanhas de publicidade dos mais poderosos, criar a notícia feita boca a boca, dar mais vida ao livro no ponto de venda, preparar a tempo os dias festivos, contactar autores, conhecer o produto que vos chega às mãos, falar sobre ele a quem lhe está perto, procurar parceiros… ufff… que cansaço, dá muito trabalho.
Mas também se sabe que ninguém faz milagres por mais forte que seja e cada tentativa é um sinal de vida.
Para morrer de joelhos, morra-se de pé.
Por estranho que pareça, eu, o livro em papel, acredito nisto e para os meus pecados peço a vossa absolvição.

Fernando Bento Gomes

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