segunda-feira, 31 de maio de 2010

DEBATE LIVREIRO . 2 - «PROPORÇÃO INVERSA»

Mercadorias entradas e mercadorias saídas. É evidente ou não? Se o valor das mercadorias saídas é inferior ao das entradas e se se trata de uma situação recorrente e persistente, o caldo está derramado: é um ramo de comércio inviável. Tem mesmo que ser: ou acaba a «proporção inversa» ou é melhor, efectivamente, suspender o debate. É inútil discutir o inviável. Tornar viável o comércio livreiro, quando era fácil, não se quis nem se soube e não se fez. Foi-se aguentando. Claro que isto em referência às «LI» - Livrarias Independentes. Agora que é difícil, não há mais que aguentar: ou se faz ou já não faz falta. Ficarão, naturalmente, dois ou três «reliquianos» para contar as histórias ao Terramarique (Lisboa no ano 3.000, Cândido de Figueiredo, Frenesi), mas mais do que isso não é expectável. Isto é, ou os livreiros se respeitam e são respeitados por serem indispensáveis à dignificação do livro e aos bons níveis de leitura do país ou os editores e os leitores têm o oceano das grandes superfícies, das cadeias de livrarias de grupo (grupos económico-financeiros) e tudo o que é canto onde se possam expor livros. E… acabou-se!

I
Duas vezes por ano o comércio do livro é assunto: por ocasião da Feira do Livro de Lisboa (do Porto também, mas nem tanto assim) e na abertura do Ano Lectivo das Escolas Básicas e Secundários. Mas com que nível? Com que conhecimento de causa? Com que motivações? Barulhinhos!
A Feira do Livro de Lisboa de 2010, a prolongada, deu para protesto, mas já passou. Para o ano, mais do mesmo e só então voltar a levantar a questão das Livrarias Independentes?
Sempre achei uma graça a esta incapacidade que temos de discutir em terra as condições da navegação. Com a Feira ou a Época Escolar a decorrerem pode-se aproveitar para atirar uns foguetes, mas mais nada. É nos entretantos que se podem estudar, analisar, discutir e projectar novos modos e meios de navegar.
Houve cerca de cinquenta anos para preparar a sociedade para o fim do emprego anunciado por Anna Arendt (A Condição Humana). O Plano Nacional de Leitura de 2006 era, em 1986, a iniciativa evidente a lançar. - E o Programa de Bibliotecas? -Teria sido um seu excelente apêndice. Etc.

II
A última oportunidade que teve a APEL de orientar o comércio livreiro como podia, devia e era desejável, de modo a manter a representatividade das Livrarias Independentes que tinha, foi nos anos oitenta. Na altura do aparecimento dos hipermercados e do seu interesse no produto livro. A história do assunto pode fazer-se. A APEL e a Secretaria de Estado da Cultura, depois Ministério da Cultura, jogaram para perdermos.
Os sócios-livreiros eram maioria na associação, mas nunca conseguiram sê-lo nas orientações decididas e praticadas. Perderam sempre. Vitoriosas? A Secretaria de Estado do Comércio e as grandes superfícies comerciais. E os editores? Se quisermos ver isso bem, talvez se percebam algumas contradições.
Dir-se-á: «Mas então? Não foi uma vitória a publicação da Lei do Preço Fixo?».
Resposta: Estudem o assunto. Não se limitem a ter umas impressões e a dizer umas bocas.
Quantos sócios-livreiros houve na APEL? Quantos há actualmente?
E já não há retorno possível, crê-se.
O que é incrível é que nem os livreiros se queiram na APEL nem também se queiram numa sua autónoma associação. Olhem para o lado. Quantos sectores profissionais acreditam tão pouco na vantagem individual da força colectiva?

III
Faz sentido pensar que as Livrarias Independentes fazem falta ao bom futuro da leitura? Continuarão a ser viáveis? Desenvolvimento ou atrofiamento?
Que livrarias? E que novos livreiros se esperam?
Olhar para trás? Cuidado! Agora?
O que é bom é olhar para quem, felizmente, se levanta. Dá muito gosto aos velhos ver gente nova de pé!


M. Medeiros

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