terça-feira, 25 de maio de 2010

DEBATE LIVREIRO . 1 - BILHETE DE ENTRADA

«Bem sabes que o teu lugar já não é no campo. Se ainda queres participar no jogo, bate palmas ou então assobia. O teu lugar agora é na bancada.»
Entra-se com este bilhete. Gratuitamente.
Começado o jogo, na distracção do entusiasmo e do vício, o livreiro velho dá por si entre os jogadores. -E agora? -Vai de jogar!

I
Ao pretendermos chegar a qualquer coisa de prático, não podemos começar ab ovo. Por outro lado, ao não partirmos das origens dos fenómenos, a ignorância saltará imediatamente para o estatuto de variável a ter sempre em grande conta. Mas não temos remédio, há é que saber ser ignorante. Até porque os jogadores que aparecerem vestidos de «sabe-tudo» atrapalharão mais do que aqueles que tiverem consciência das nossas ignorâncias individuais e colectivas.
Em todo o caso, só uma transigência inadmissível nos levaria a prescindir, para o percurso, de umas bússolas, magneticamente a guiar-nos no bom rumo.

II
Os cérebros formatados pela cultura ocidental são de um transcendentalismo medonho! Progredir não devia ser respeitar a natureza das coisas, compreendendo as suas leis e em conformidade desenvolvendo o presente e criando um melhor futuro? Ora! Preferimos impor-lhe as nossas cerebralíssimas ideias, corrigindo e dominando a Natureza, com as nossas leis e os nossos poderes (-E os supostos interesses? -Acrescente-se, p.f.!). A admirável Natureza, para nós, no fundo, está toda errada. Se fossemos nós a criá-la, nada seria como é. Imagine-se a perfeição que seria!
Por exemplo: talvez ainda haja quem lance livros no mercado para serem lidos. Quem conhecer alguém que ainda faça isso, deve anunciá-lo, para que preservemos alguma lucidez ao querermos abordar os problemas do comércio livreiro.
A questão não tem que ver só com o mundo dos livros, é civilizacional. E já dissemos que não é possível começar ab ovo. Apesar de tudo, se o livro não é para ler, então para que é? Antigamente ainda era… (Bom, continuemos no sério!).

III
Alguém tem dúvidas de que o comércio livreiro português é responsável, numa percentagem elevadíssima, pelos baixos níveis de leitura do país?
É quase impossível avançar no debate antes que neste ponto concordem todos os que de algum modo nele quiserem participar, quer por estarem no comércio do livro por dentro, quer pelas suas responsabilidades culturais, sociais ou políticas, quer por simples curiosidade ou amor à causa da leitura. Porquê?
É tão verdade que sem leitores o comércio livreiro não se poderia ter desenvolvido, como que, sem desenvolver o comércio livreiro, a leitura não poderia de modo algum desenvolver-se.

IV
Editores e livreiros, mas também toda a gente que se considere «gente dos livros», por favor!... De diante da já partida cabeça de um velho profissional que nela está cansado de bater, tirem esta parede:
«Onde esteve e está o erro no sistema de comercialização do produto livro? Porque foi que o comércio livreiro não progrediu ao ritmo da alfabetização do país?»
Não lhe falem mais - Oh! Não! - nem do salazarismo, nem da pobreza das gentes. A percentagem inegável desses factores sempre a tomou em consideração, pois os conheceu por experiência própria desde a infância. Tem de haver outras razões. E ele também sabe há quantos anos Abril aconteceu. E viveu intensamente o que há para contar do comércio livreiro destes trinta e seis anos. Tem de haver razões e… responsáveis. «Únicos»? Isso é que era bom!

M. Medeiros

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