sábado, 22 de maio de 2010

«FEIRA DO LIVRO: ESTICAR, ESTICAR»

Com a permissão da autora, a quem agradecemos, deixamos aqui, para leitura e comentários, o texto que publicou no «Cadeirão Voltaire» acerca do prolongamento da Feira do Livro de Lisboa.

Com a semana extra da Feira do Livro a chegar ao fim, começa a ser tempo de balanço. O das contas, há-de fazê-lo quem percebe de contas. Já o das opiniões que se manifestaram contra, e que pouco eco parecem ter tido na decisão da APEL, pode começar a ser feito. Sobre as razões que levaram a APEL a prolongar a Feira, não pode este blog dizer mais do que aquilo que foi divulgado nos comunicados e na comunicação social: a chuva de um certo fim de semana, a visita do Papa (que teria afastado gente da Feira, apesar de eu própria a ter visto cheia como poucas vezes durante a semana no dia em que o papamóvel cortava o trânsito em várias ruas da capital), o Benfica campeão… Quanto ao processo de decisão e à participação e sentido de voto dos associados da APEL, ainda espero resposta a um mail enviado ontem. Do ponto de vista dos frequentadores da Feira, não haverá muito a dizer. É lógico que quem gosta de subir e descer o Parque por entre as bancas de livros não se importa de poder fazê-lo durante mais uma semana, e por mim falo. Mas como dizia um editor, numa das noites da Feira, é preciso perceber que onde os livros se vendem é nas livrarias. Ou seja, aquilo que começou por ser um modo de escoar fundos e que entretanto se transformou numa livraria de novidades ao ar livre e com descontos acima do imaginável é um momento alto do ano editorial, mas não pode ser o ano editorial. Se a Feira esgotar a venda de livros durante muito tempo (afastando os leitores das livrarias durante o tempo que a antecede, durante o tempo que dura e durante o tempo que se segue, que é o que, naturalmente, costuma acontecer), o esforço de recuperação das livrarias pode não conseguir suportar a queda das vendas. Resultados: muitas livrarias não farão encomendas durante os meses que se seguem à Feira, outras não terão capacidade imediata para repor stocks, e algumas correrão, mesmo, o risco de fechar portas (e isto não é um exagero, ainda por cima em tempos de crise). E aquilo que pode ter sido muito vantajoso para as editoras, que venderam livros com descontos acima da média, ainda por cima durante mais uma semana relativamente ao que era habitual para este período (e aqui impõe-se a pergunta: a Lei do Preço Fixo permite vendas com descontos desta ordem durante tantos dias seguidos?), pode deixar de o ser quando quiserem colocar as novidades de Junho e Julho nas livrarias e só conseguirem fazê-lo nas grandes superfícies livreiras. Talvez isso não incomode a maioria das editoras, sobretudo as de grande dimensão. Certo é que muitas editoras se manifestaram contrárias ao prolongamento da Feira durante mais uma semana (entre elas a Assírio & Alvim e a Antígona, que eu tenha conhecimento directo), e que alguns livreiros (sócios da APEL? consultados perante a proposta de prolongamento?) o fizeram igualmente. Aqui ficam os links para os textos que fui apanhando sobre o tema (e onde importa ler igualmente os comentários), e que bem podiam ser, juntamente com mais opiniões, favoráveis ou contrárias, matéria para reflexão sobre o ‘mercado do livro’ que estamos a alimentar: Pó dos Livros, Culsete e Trama. É possível que outros se acrescentem entretanto.

(E já se acrescentam: o editor da Frenesi tem uma opinião diferente e publica-a aqui).

Sara Figueiredo Costa

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