segunda-feira, 31 de maio de 2010

DEBATE LIVREIRO . 2 - «PROPORÇÃO INVERSA»

Mercadorias entradas e mercadorias saídas. É evidente ou não? Se o valor das mercadorias saídas é inferior ao das entradas e se se trata de uma situação recorrente e persistente, o caldo está derramado: é um ramo de comércio inviável. Tem mesmo que ser: ou acaba a «proporção inversa» ou é melhor, efectivamente, suspender o debate. É inútil discutir o inviável. Tornar viável o comércio livreiro, quando era fácil, não se quis nem se soube e não se fez. Foi-se aguentando. Claro que isto em referência às «LI» - Livrarias Independentes. Agora que é difícil, não há mais que aguentar: ou se faz ou já não faz falta. Ficarão, naturalmente, dois ou três «reliquianos» para contar as histórias ao Terramarique (Lisboa no ano 3.000, Cândido de Figueiredo, Frenesi), mas mais do que isso não é expectável. Isto é, ou os livreiros se respeitam e são respeitados por serem indispensáveis à dignificação do livro e aos bons níveis de leitura do país ou os editores e os leitores têm o oceano das grandes superfícies, das cadeias de livrarias de grupo (grupos económico-financeiros) e tudo o que é canto onde se possam expor livros. E… acabou-se!

I
Duas vezes por ano o comércio do livro é assunto: por ocasião da Feira do Livro de Lisboa (do Porto também, mas nem tanto assim) e na abertura do Ano Lectivo das Escolas Básicas e Secundários. Mas com que nível? Com que conhecimento de causa? Com que motivações? Barulhinhos!
A Feira do Livro de Lisboa de 2010, a prolongada, deu para protesto, mas já passou. Para o ano, mais do mesmo e só então voltar a levantar a questão das Livrarias Independentes?
Sempre achei uma graça a esta incapacidade que temos de discutir em terra as condições da navegação. Com a Feira ou a Época Escolar a decorrerem pode-se aproveitar para atirar uns foguetes, mas mais nada. É nos entretantos que se podem estudar, analisar, discutir e projectar novos modos e meios de navegar.
Houve cerca de cinquenta anos para preparar a sociedade para o fim do emprego anunciado por Anna Arendt (A Condição Humana). O Plano Nacional de Leitura de 2006 era, em 1986, a iniciativa evidente a lançar. - E o Programa de Bibliotecas? -Teria sido um seu excelente apêndice. Etc.

II
A última oportunidade que teve a APEL de orientar o comércio livreiro como podia, devia e era desejável, de modo a manter a representatividade das Livrarias Independentes que tinha, foi nos anos oitenta. Na altura do aparecimento dos hipermercados e do seu interesse no produto livro. A história do assunto pode fazer-se. A APEL e a Secretaria de Estado da Cultura, depois Ministério da Cultura, jogaram para perdermos.
Os sócios-livreiros eram maioria na associação, mas nunca conseguiram sê-lo nas orientações decididas e praticadas. Perderam sempre. Vitoriosas? A Secretaria de Estado do Comércio e as grandes superfícies comerciais. E os editores? Se quisermos ver isso bem, talvez se percebam algumas contradições.
Dir-se-á: «Mas então? Não foi uma vitória a publicação da Lei do Preço Fixo?».
Resposta: Estudem o assunto. Não se limitem a ter umas impressões e a dizer umas bocas.
Quantos sócios-livreiros houve na APEL? Quantos há actualmente?
E já não há retorno possível, crê-se.
O que é incrível é que nem os livreiros se queiram na APEL nem também se queiram numa sua autónoma associação. Olhem para o lado. Quantos sectores profissionais acreditam tão pouco na vantagem individual da força colectiva?

III
Faz sentido pensar que as Livrarias Independentes fazem falta ao bom futuro da leitura? Continuarão a ser viáveis? Desenvolvimento ou atrofiamento?
Que livrarias? E que novos livreiros se esperam?
Olhar para trás? Cuidado! Agora?
O que é bom é olhar para quem, felizmente, se levanta. Dá muito gosto aos velhos ver gente nova de pé!


M. Medeiros

sábado, 29 de maio de 2010

«A PROPÓSITO DE UMA FEIRA QUE DUROU QUASE UM MÊS...»

No Expresso de hoje, 29 de Maio de 2010, António Guerreiro escreve o artigo «Sobre o arraial das livrarias e a Feira do Livro» («Actual», p. 34), que aconselhamos a ler e a comentar aqui, de onde respigamos «A propósito de uma feira que durou quase um mês, ninguém parece interessado em perguntar se as barracas montadas por tanto tempo não afastam, mais do que seria desejável, as pessoas das livrarias (...)».

E o debate continua...

Isto não fica assim!

CRÓNICA RESUMIDA DE UMA CONFISSÃO

Eu, livro impresso em papel, a exemplo do velho Galileu, venho reconhecer os meus erros em final de vida e pedir perdão por todos os crimes de que sou acusado.
É verdade que, durante séculos, contribuí para a destruição de muitas florestas à força de querer ensinar o mundo a ler.
Em muitas latitudes, paguei caro por isso, ao ser perseguido, censurado, queimado e odiado por quem me temia.
Descobri, então, que a ignorância, além de ser estúpida, quer-se resistente.
Também é verdade que, à minha sombra, muitos abusaram da passividade a que me sujeitei, gastando toneladas de folhas em branco sem nada para dizer.
Acontece ser o desperdício um erro da democracia.
Sei, também, de sobra que neste planeta a deitar por fora, já se encara o espaço como um problema.
Quer nos armazéns das grandes editoras, quer nas lojas, reais ou virtuais, quer ainda nos lares de milhões de leitores, cresce a insinuação de que estou a mais.
Não é segredo para ninguém que o papel acumula-se, atrai os bichinhos, esgota prateleiras, ganha uma cor térrea e o cheiro a bafio de uma longa idade.
Há, também, quem diga que tremi e tremo com a chegada das novas tecnologias. Mais limpas e rápidas na comunicação, encurtam as distâncias entre os pólos da Terra, prometem robôs que venham a falar como seres humanos.
Verdade ou mentira, só de pensar que o livro digital já vem a caminho, quebra-me a vontade de ser D. Quixote, velha personagem a que tanta vez dei corpo.
Meter vinte livros numa pequena caixa é uma tentação mesmo para aqueles que não gostam de ler.
Mas sendo o progresso a arte de ir em frente, com os pés no chão, ainda há quem veja com olhos de gente que a minha permanência vai continuar, mesmo reduzida, no mercado da cultura e da comunicação.
Hábitos de leitura, estilo e tradição, a recordação de boas leituras, o toque do papel são muitas as razões de quem julga haver lugar para todos.
Assim aconteceu com a fotografia, o cinema e o teatro quando da chegada da madre televisão e, mais recentemente, com a Internet.
E, depois, quem sabe, ao fim de tantas voltas ao redor do sol, quantas vezes nós olhamos em frente e damos connosco a olhar para trás.
O vento, o mar e o sol, já por cá andavam antes do carvão, do petróleo, da electricidade e do nuclear entrarem ao serviço.
Agora lhes chamam energias renováveis e revelam-se úteis para a humanidade .
Assim sendo, eu, o livro em papel, embora admita que a minha viagem já esteja a entrar na última estação, ainda circulo à velocidade dos milhares de edições.
- Então que fazer? – perguntam os elementos da tribo do deitar abaixo como sempre fizeram em todas as situações.
Ora bem, senhores, mesmo que o vulcão da Islândia e outros parecidos cubram o céu de cinzas, é de boa prática que autores, editores, livreiros e leitores atentem na mudança com esta certeza.
Em papel ou em suporte digital o livro continuará a existir e a ser procurado por quem não desiste de viver com ele.
Com este argumento, talvez os juízes me reduzam a pena, a morte do livro não é para já.
Tenho a meu favor o muito que aprendi, enquanto esperava dias a fio, que alguém me tirasse de uma prateleiras.
É, pois, sobre a loja que passo a falar.
A loja, esse elo visível do circuito comercial que é o ponto de encontro entre o livro e o leitor, não deve nem pode ficar para trás.
Alguém afirmou que o caminho se faz, começando a andar.
Na expectativa de uma morte lenta, entre lapiseiras baratas made in China e cromos de futebolistas, é bom que os livreiros não baixem os braços e vejam os recursos com que podem contar na venda do livro, ainda em papel.
Caramba, olhem como os putos brincam com a informática, sobre o teclado do computador.
Organizar ficheiros de clientes certos é tratar de forma directa a comunicação.
Animar as lojas, enfeitar as montras, seguir na esteira das campanhas de publicidade dos mais poderosos, criar a notícia feita boca a boca, dar mais vida ao livro no ponto de venda, preparar a tempo os dias festivos, contactar autores, conhecer o produto que vos chega às mãos, falar sobre ele a quem lhe está perto, procurar parceiros… ufff… que cansaço, dá muito trabalho.
Mas também se sabe que ninguém faz milagres por mais forte que seja e cada tentativa é um sinal de vida.
Para morrer de joelhos, morra-se de pé.
Por estranho que pareça, eu, o livro em papel, acredito nisto e para os meus pecados peço a vossa absolvição.

Fernando Bento Gomes

terça-feira, 25 de maio de 2010

DEBATE LIVREIRO . 1 - BILHETE DE ENTRADA

«Bem sabes que o teu lugar já não é no campo. Se ainda queres participar no jogo, bate palmas ou então assobia. O teu lugar agora é na bancada.»
Entra-se com este bilhete. Gratuitamente.
Começado o jogo, na distracção do entusiasmo e do vício, o livreiro velho dá por si entre os jogadores. -E agora? -Vai de jogar!

I
Ao pretendermos chegar a qualquer coisa de prático, não podemos começar ab ovo. Por outro lado, ao não partirmos das origens dos fenómenos, a ignorância saltará imediatamente para o estatuto de variável a ter sempre em grande conta. Mas não temos remédio, há é que saber ser ignorante. Até porque os jogadores que aparecerem vestidos de «sabe-tudo» atrapalharão mais do que aqueles que tiverem consciência das nossas ignorâncias individuais e colectivas.
Em todo o caso, só uma transigência inadmissível nos levaria a prescindir, para o percurso, de umas bússolas, magneticamente a guiar-nos no bom rumo.

II
Os cérebros formatados pela cultura ocidental são de um transcendentalismo medonho! Progredir não devia ser respeitar a natureza das coisas, compreendendo as suas leis e em conformidade desenvolvendo o presente e criando um melhor futuro? Ora! Preferimos impor-lhe as nossas cerebralíssimas ideias, corrigindo e dominando a Natureza, com as nossas leis e os nossos poderes (-E os supostos interesses? -Acrescente-se, p.f.!). A admirável Natureza, para nós, no fundo, está toda errada. Se fossemos nós a criá-la, nada seria como é. Imagine-se a perfeição que seria!
Por exemplo: talvez ainda haja quem lance livros no mercado para serem lidos. Quem conhecer alguém que ainda faça isso, deve anunciá-lo, para que preservemos alguma lucidez ao querermos abordar os problemas do comércio livreiro.
A questão não tem que ver só com o mundo dos livros, é civilizacional. E já dissemos que não é possível começar ab ovo. Apesar de tudo, se o livro não é para ler, então para que é? Antigamente ainda era… (Bom, continuemos no sério!).

III
Alguém tem dúvidas de que o comércio livreiro português é responsável, numa percentagem elevadíssima, pelos baixos níveis de leitura do país?
É quase impossível avançar no debate antes que neste ponto concordem todos os que de algum modo nele quiserem participar, quer por estarem no comércio do livro por dentro, quer pelas suas responsabilidades culturais, sociais ou políticas, quer por simples curiosidade ou amor à causa da leitura. Porquê?
É tão verdade que sem leitores o comércio livreiro não se poderia ter desenvolvido, como que, sem desenvolver o comércio livreiro, a leitura não poderia de modo algum desenvolver-se.

IV
Editores e livreiros, mas também toda a gente que se considere «gente dos livros», por favor!... De diante da já partida cabeça de um velho profissional que nela está cansado de bater, tirem esta parede:
«Onde esteve e está o erro no sistema de comercialização do produto livro? Porque foi que o comércio livreiro não progrediu ao ritmo da alfabetização do país?»
Não lhe falem mais - Oh! Não! - nem do salazarismo, nem da pobreza das gentes. A percentagem inegável desses factores sempre a tomou em consideração, pois os conheceu por experiência própria desde a infância. Tem de haver outras razões. E ele também sabe há quantos anos Abril aconteceu. E viveu intensamente o que há para contar do comércio livreiro destes trinta e seis anos. Tem de haver razões e… responsáveis. «Únicos»? Isso é que era bom!

M. Medeiros

«CADA UM BALANÇA À SUA MANEIRA»

Ainda sobre a Feira do Livro de Lisboa (e não só), recomendamos a leitura de um texto de Joaquim Gonçalves publicado no blogue da livraria A das Artes, de Sines.

E quando passar por Sines, faça uma visita à livraria.
Caro Joaquim,

Não desistas. ISTO NÃO FICA ASSIM!

sábado, 22 de maio de 2010

PARABÉNS!

Fernando Bento Gomes, agora agraciado com a medalha de mérito da SPA, é um dos membros fundadores do Encontro Livreiro e estamos, por isso, muito felizes com esta merecida distinção.
Aqui fica o nosso abraço de parabéns ao escritor e amigo.

Encontro Livreiro

«FEIRA DO LIVRO: ESTICAR, ESTICAR»

Com a permissão da autora, a quem agradecemos, deixamos aqui, para leitura e comentários, o texto que publicou no «Cadeirão Voltaire» acerca do prolongamento da Feira do Livro de Lisboa.

Com a semana extra da Feira do Livro a chegar ao fim, começa a ser tempo de balanço. O das contas, há-de fazê-lo quem percebe de contas. Já o das opiniões que se manifestaram contra, e que pouco eco parecem ter tido na decisão da APEL, pode começar a ser feito. Sobre as razões que levaram a APEL a prolongar a Feira, não pode este blog dizer mais do que aquilo que foi divulgado nos comunicados e na comunicação social: a chuva de um certo fim de semana, a visita do Papa (que teria afastado gente da Feira, apesar de eu própria a ter visto cheia como poucas vezes durante a semana no dia em que o papamóvel cortava o trânsito em várias ruas da capital), o Benfica campeão… Quanto ao processo de decisão e à participação e sentido de voto dos associados da APEL, ainda espero resposta a um mail enviado ontem. Do ponto de vista dos frequentadores da Feira, não haverá muito a dizer. É lógico que quem gosta de subir e descer o Parque por entre as bancas de livros não se importa de poder fazê-lo durante mais uma semana, e por mim falo. Mas como dizia um editor, numa das noites da Feira, é preciso perceber que onde os livros se vendem é nas livrarias. Ou seja, aquilo que começou por ser um modo de escoar fundos e que entretanto se transformou numa livraria de novidades ao ar livre e com descontos acima do imaginável é um momento alto do ano editorial, mas não pode ser o ano editorial. Se a Feira esgotar a venda de livros durante muito tempo (afastando os leitores das livrarias durante o tempo que a antecede, durante o tempo que dura e durante o tempo que se segue, que é o que, naturalmente, costuma acontecer), o esforço de recuperação das livrarias pode não conseguir suportar a queda das vendas. Resultados: muitas livrarias não farão encomendas durante os meses que se seguem à Feira, outras não terão capacidade imediata para repor stocks, e algumas correrão, mesmo, o risco de fechar portas (e isto não é um exagero, ainda por cima em tempos de crise). E aquilo que pode ter sido muito vantajoso para as editoras, que venderam livros com descontos acima da média, ainda por cima durante mais uma semana relativamente ao que era habitual para este período (e aqui impõe-se a pergunta: a Lei do Preço Fixo permite vendas com descontos desta ordem durante tantos dias seguidos?), pode deixar de o ser quando quiserem colocar as novidades de Junho e Julho nas livrarias e só conseguirem fazê-lo nas grandes superfícies livreiras. Talvez isso não incomode a maioria das editoras, sobretudo as de grande dimensão. Certo é que muitas editoras se manifestaram contrárias ao prolongamento da Feira durante mais uma semana (entre elas a Assírio & Alvim e a Antígona, que eu tenha conhecimento directo), e que alguns livreiros (sócios da APEL? consultados perante a proposta de prolongamento?) o fizeram igualmente. Aqui ficam os links para os textos que fui apanhando sobre o tema (e onde importa ler igualmente os comentários), e que bem podiam ser, juntamente com mais opiniões, favoráveis ou contrárias, matéria para reflexão sobre o ‘mercado do livro’ que estamos a alimentar: Pó dos Livros, Culsete e Trama. É possível que outros se acrescentem entretanto.

(E já se acrescentam: o editor da Frenesi tem uma opinião diferente e publica-a aqui).

Sara Figueiredo Costa

O «PROTESTO LIVREIRO» GERADOR DE UM «DEBATE LIVREIRO»?

Tropeçar, só por si, não é cair. E talvez não seja preciso ir mais devagar para que o debate continue de pé. Basta que ninguém o queira ao nível da conhecida Escola de Debate Portuguesa, que ao longo da sua longa existência tanto ilustrou o país. Como se sabe! E não se sabe apenas pelo permanente tempo de antena que tem na actualidade essa nossa excelente Escola nas televisões. Uma cultura de debate típica muito antiga!
Há por aí quem queira ler as Farpas? Não aquela coisa, interessante em si, mas que enganou muita gente «culta». Os livreiros conhecem o caso.
Uma livraria que de há muito tempo tem, como «património próprio», os volumes da última edição, a da Clássica Editora, terá muito gosto em receber algum leitor interessado nessa valiosa herança que nos deixou Ramalho Ortigão. Se lhe parecer que se trata de um leitor a quem valha a pena chamar a atenção para outras edições «patrimoniais», o livreiro até lhe vai propor a leitura de Lisboa no ano 3.000. Honra ao editor que desencantou tal preciosidade!
Concluamos, pois, por agora.
Há debate aberto. Só por isso, para um livreiro que não quer sentir-se uma excepção, como é óbvio, terá valido a pena a Feira do Livro de Lisboa de 2010 ter sido prolongada, como tantas outras vezes já foi, com estas ou aquelas razões, ao longo dos seus oitenta anos.
Já não vale a pena discutir mais a feira deste ano, embora sejam muito diferentes as situações de quem ganhou e de quem perdeu. Mas o debate livreiro pode ser que sim, que possa prosseguir, com tempo, interrogações e interesse por abrir caminho. O comércio do livro é um caso de vergonha nacional muito grave e há muito tempo!...
«O debate aceso das ideias pode tropeçar», mas, por favor, não o deixem cair. Não queiram merecer a acusão de «únicos responsáveis pelo declínio» de um debate há tantos anos esperado!
«Únicos responsáveis»!... E ainda mais do que a ouvir custa a crer que se diga isto! «Únicos»? Há as histórias de um lado. E as do outro?
Mas não dá para tropeçar. Dá é para debater muito a fundo as responsabilidades de todos. Se for para debater bem longe dos níveis de discussão praticados na Escola!

M. Medeiros

sexta-feira, 21 de maio de 2010

LIVREIRO ENCALORADO

De Joaquim Gonçalves, da A das Artes de Sines e participante activo do Encontro Livreiro, recebemos um belísssimo texto que passa de imediato para o blogue e fica à disposição de mais leituras e comentários. Também pode ser lido no blogue da livraria.

Hoje está muito calor. Os vidros da montra e das portas estão cobertos de mosquitos irritantes. No muro ali em frente, do outro lado da rua, enfileiram-se milhares de minúsculas formigas.
O livreiro fecha as portas para não ser comido pelos mosquitos, decomposto pelas formigas, derretido pelo calor. Encosta as portas mas deixa a tabuleta «ABERTO». Olha para o computador e sente saudades do livro que deixou na página 384. Ali mesmo, onde Sophie e Hans se preparam para traduzir Bocage e Leopardi. O Viajante do Século. Que deleite!
Passam poucos minutos das três da tarde e já espreitou a Internet: As últimas da ópera bufa dos impostos; da Feira do Livro de Lisboa que, este ano, teima em não acabar; daa Feira do Livro do Porto que, este ano, arrecadou para si toda a polémica; espreitou, muito de mansinho, para ela não dar por isso, a conta no banco… Melhor dito: a “desconta”(!) do banco!
O livreiro não sai de trás do balcão e olha para O Último Leitor e Santa Maria do Circo que, numa das mesas em frente, o chamam. Lá perto, O Físico Prodigioso não consegue mezinhas para esticar o tempo. Tempo para ler o que é preciso. O que apetece.
Mais uma mirada à Internet, outra vez um saltinho aos blogues literários e salta a palavra “bibliodiversidade”. Sim, é o que oferecem as livrarias independentes. Mas independentes de quê? De quem? Se o livreiro fosse independente queria ser livro! Isso sim! Diria o que quisesse. Faria o que lhe desse na real gana… até que o queimassem… Ou guilhotinassem!
Mas o livreiro não é livro. É, apenas, livreiro. Aliás, talvez nem isso! Basta ir à Repartição de Finanças e procurar pela lista de profissões. Não há.
Na Argentina, chamou-nos para isso a atenção o blogue da revista Ler, foi fundada a primeira escola de livreiros do País. Na apresentação dizia o respectivo Secretário Estado da Cultura, Jorge Coscia: «La palabra "librero" adquirió un gran prestigio en la cultura argentina. Aparece en el paradigma primero como un hombre que ama y conoce los libros y está grabada a fuego en esta hermosa tradición de la actividad editorial».
Atrás do balcão o livreiro - português, de província, ainda por cima - dá uma espreitadela para lá da montra, para lá dos mosquitos – alguém mira os livros expostos enquanto dura um cigarro. O cigarro acaba-se e a beata vai para o chão. A senhora - é uma senhora - apaga-o com a ponta bicuda do sapato não vá incendiar as pedras da calçada. O livreiro baixa os braços do teclado e prepara-se para ir buscar a vassoura. Livreiro todo-o-terreno, como dizia a colega Lena ao queixar-se das limpezas, dos caixotes, das facturas, das prateleiras, de tanta coisa e da falta de tudo.
O calor não dá tréguas. Nada dá tréguas. Ninguém dá tréguas.
O tempo, principalmente, o tempo, o do relógio é que não dá tréguas mesmo. Na sua construção do passado, da história, da memória.

Da memória do que queríamos ter feito.

O livreiro livra-se, fecha a porta e vai bugiar.

Joaquim Gonçalves

quinta-feira, 20 de maio de 2010

«PROTESTO LIVREIRO»

Acabo de ler mais uma vez o «Protesto Livreiro» (Jaime Bulhosa, «livrariapodoslivros.blogspot.com», segunda-feira, Maio 17).
Diz muito e muito mais poderia ser dito pelo livreiro Jaime Bulhosa e por muitos outros.
Muitos outros? Se se deixassem de pequenices, era todos a uma só voz!
De qualquer modo, agora já tenho uma boa razão para suportar mais este abuso do prolongamento: fez aparecer este protesto livreiro.
Ainda bem, então, que os editores, para quem a sua feira não é um supermercado, mas um acontecimento cultural, se decidiram pelo prolongamento?
Até pode haver quem seja dessa opinião. Se nada há fazer, já tanto faz!
«Isto é que vai uma crise!»

M. Medeiros

sábado, 1 de maio de 2010

LIVRARIAS INDEPENDENTES: É URGENTE APOIÁ-LAS

A situação económica das livrarias independentes começa a dar nas vistas. E se há os que encolhem os ombros, os que fingem não ver, os que põem as mãos à cabeça, há também aqueles que, de forma criativa, procuram soluções para atenuar esse estado preocupante das coisas.
A editora francesa L'Autre Éditions, de Alfortville (Val-de-Marne), que reivindica práticas comerciais diferentes, apoiando as livrarias independentes (e não trabalhando de costas para elas, como acontece com a esmagadora maioria dos editores portugueses, mesmo os micro editores) lançou a operação «J'aime mon libraire», entre 1 de Maio e 15 de Setembro, actividade que reúne editora e livrarias numa mesma acção de promoção do livro e que inclui um concurso.
O cartaz promocional pede aos leitores: «Soutenez votre libraire indépendante de proximité», reforçando e dando visibilidade a um trinómio indispensável, editor, livreiro e leitor, trinómio esse que, conforme pode ler-se nos textos promocionais, permite ainda que a diversidade cultural exista.
Ao fazê-lo este editor está também a promover as suas edições. Estranho seria se o não fizesse. Mas não é bom que quando um ganha ganhem todos?
Passem pelo site da operação «J'aime mon libraire»
Talvez esta actividade sirva de inspiração a alguns de nós. Podem também consultar o sítio
(não conheço estudos semelhantes para o caso português), onde a situação das livrarias independentes está bastante em foco.
É preciso tomarmos uma atitude.
Não se esqueçam de que apenas uma livraria independente oferece uma verdadeira bibliodiversidade.
Este é um termo que começou a ser usado por editores independentes, mas que, num número crescente de países, está a entrar na esfera das livrarias independentes. Quem ainda não está familiarizado com ele pode informar-se em http://fr.wikipedia.org/wiki/Bibliodiversit%C3%A9
É tempo de agir.
Isto não pode ficar assim!
F.R.M.