terça-feira, 15 de junho de 2010

ESCREVER NÃO É PARA MARIQUINHAS

Nós, os portugueses, somos todos divas. Do café da esquina ao estádio de futebol ao hemiciclo de S. Bento, todos nos devem e ninguém nos paga. Nos outros sítios também será assim. Que o digam os de lá (às vezes dizem-no e é bom sabê-lo). Mas por aqui, algo que parece sempre omnipresente é a noção de que todos temos razão, só os outros é que não, nunca!
Este texto nasceu do verificar que não podemos olhar constantemente para o nosso umbigo. De ver imensos jovens e outros a protestar inanemente: Não sei ler? Não sei escrever? Mas quem é que me ensina? Dou erros? Mas não é natural que os dê? Já ninguém fala do meu livro? Não ganhei um concurso? Não me andarão a prejudicar? E não deviam ter feito isto e aquilo por mim? Não deverão? Não gostaram do meu conto? Do meu livro? Mas quem são vocês? Etc. Etc.
Qualquer editor, ou mesmo qualquer pessoa ligada ao mundo das letras, está habituado a ver e ouvir disto. O fenómeno é mais típico em novos escritores, (o que não é o mesmo que dizer de jovens pessoas: pode-se ser um jovem escritor, profissional e maduro, ou um novato com qualquer idade) mas não lhes é exclusivo. Normalmente enferma de se pensar que uma crítica ou uma rejeição é sempre algo de negativo ou mesmo soez. Não é. Mas o fenómeno da intemperada reacção negativa à crítica e ao não reconhecimento que se pensa devido, isso já é algo de chato e recorrente. Principalmente porque improdutivo e não leva a lado algum. A mais das vezes leva a quezílias idiotas que mais valeria não terem existido. Recordo um professor de jornalismo na escola que nos obrigava a apresentar trabalhos e a elaborar textos, que depois eram criticados e avaliados por todos, sem que nós os autores pudéssemos emitir um pio de resposta ou defesa – foi uma grande lição. Muitas vezes é o que nos acontece pela vida fora. Quando nos candidatamos a um emprego ou a um prémio; quando preenchemos um formulário ou respondemos a uma pergunta para a televisão; até mesmo em literatura, que é o que nos interessa por aqui. Portanto, é disso que falarei.
Desde pelo menos o sumérios que há malta a morrer que nem tordos por causa da escrita. Ou porque são pré-personagens das suas próprias histórias, porque penam durante anos infindos até conseguir escrever decentemente no seu idioma, porque se pensa haver excesso de ideias ou falta delas, ou porque se esbarra nesse grande nivelador que é o ter de aguentar a vidinha de todos os dias. Mas Gilgamesh, do alto das muralhas de Uruk, viu como era horrível os homens morrerem no olvido, a vacuidade de toda a vidinha, até da sua, e fez uma jura: lançar-se na maior das aventuras, na busca pela imortalidade. Para que no fim, essa história e o seu nome fossem inscritos numa estela, para todo o sempre. Gilgamesh fez-se à estrada, passou por várias dificuldades, conheceu o segredo da imortalidade, perdeu-o e voltou a Uruk de braços vazios. Mas há outra forma de vencer a morte, uma que é tipicamente humana, e que nunca dependeu dos deuses, e essa alcançou-a.
Ser escritor é e será sempre assim: não é fácil. Não é suposto sê-lo. Se fosse, não teríamos literatura: teríamos cadernetas e cromos. Isso sim é fácil: é só ter uns trocos no bolso e ir à loja; mas para se…
…ser escritor, não é nada fácil. Primeira das primeiríssimas coisas, é preciso saber decentemente sobre o próprio idioma, falado e escrito, de forma a que nos façamos entender, a que percebamos o que queremos dizer, a que ninguém possa apontar erros grosseiros, ninguém possa ter vontade de dizer “Para que vou eu continuar a ler isto se há tanta gente que sabe escrever e esta pessoa não?”. Esse ninguém, não são primordialmente os críticos, nem sequer os bem-pensantes: são os leitores. Porque os leitores não são os nossos pais, os nossos amigos, os nossos inimigos ou sequer os coitados a quem escolhemos mostrar as nossas obras; os leitores são os alienígenas a quem temos de estender a mão e convencer que somos amigos – mesmo que no fim nos queiram apedrejar. Os leitores são toda a gente, desde a que gosta de nós à que nos odeia, a que nos é indiferente e nós para eles; são a empregada a dias e o presidente da nação, o crítico e o editor, o transeunte e o caga-postas, o gajo do café e a miúda do lado, a mãe do facínora e o bêbado que é filho dela, a arquitecta e o enfermeiro. É para ser lido que um escritor existe e se não sabemos escrever com um mínimo de agradabilidade ou de indefinível qualia, não há leitor que connosco persista ou que connosco insista. Para um leitor, o bom escritor acaba por ser aquele para quem…
…ser escritor não é fácil. E também é competitivo como o caraças. Para cada aprendiz de escritor que dá um erro, há vários escritores que não o dão e interessantes livros aos milhares nas livrarias. Porque quererá um leitor perder tempo? E um editor então? Fará isso sentido? Escrever bem parece fácil? Só parecer mesmo. Aprender um idioma decentemente, leva anos e muita bordoada. É desagradável. Faz-nos perder a paciência e a tramontana. A vida vai-se metendo no meio. E pior, a partir de certa altura, quanto mais aprendemos mais nos parece que nada sabemos, coisa que nos exaspera…até que aprendemos um pouco mais e percebemos ser esse o seu encanto. E sim, porque…
…ser escritor não é fácil. Principalmente, não é fácil perceber que dá muito trabalho. Que não é questão de “ter imaginação” (que por aí abunda aos pontapés), de fazer umas “história fixes” (quem quer ser medíocre?), ou de “ter jeitinho para a escrita” (o que não falta é gente com jeitinho; com jeito é que começa a ser difícil; e que sejam escritores sérios então pffff, não são muitos, não senhora, não em comparação com o que fica estirado no chão das fatalidades literárias). Nada disso basta ou é sequer fundamental. O essencial é dado pelo tempo e pela perseverança, é o sangue, suor e lágrimas. É obter experiência e saber usá-la. Batalhar muito com o texto e o uso que dele se quer fazer, o uso que se lhe quer dar. Porque…
…ser escritor não é nada fácil. A história está cheia de escritores que se suicidam, que enlouquecem, que morrem pobres, que morrem odiados e pior, que acabam desconhecidos. Mesmo os que conhecem o sucesso, a maioria acaba mal. Porque será? Porque…
…ser escritor não é nada fácil. É passar a vida a ter editores que não editam, revisores que não revêem, tradutores que traem, leitores que não lêem e críticos que têm as suas próprias agendas. É ir às livrarias e encontrar a sua obra ausente ou metida num canto escuso ou com o mesmo número de exemplares durante meses a fio retrocedendo nas estantes até ao armazém ou à guilhotinagem final. É ficar à espera das boas críticas que não virão, das resenhas que só com sorte, das entrevistas que não aparecem e da publicidade inexistente. Perante tudo isto, é mais do que óbvio que…
…ser escritor não é fácil.
Ser escritor não é para mariquinhas.
Se querem fácil, desistam. Dediquem-se a outras pescas. Poupam trabalhos e chatices, árvores ao ambiente, e provavelmente serão bem mais felizes e realizados. Não terão de se levantar a meio da noite para ir escrever 3 a 5 horas ganhas ao sono, pé ante pé, de modo a não acordar os filhos que sonham como os justos na cama do quarto ao lado. Não terão de se preocupar em trabalhar o dia inteiro em algo que não gostam, para que possam ter meia-hora de escrita no café, antes de terem de correr a ir ajudar na lida da casa. Não terão de aguentar os humores dos maridos e das esposas que não vos compreendem, ou que quando sim, às vezes também têm os seus problemas. Não terão de se perguntar quando é que virá o cheque de tostões prometido meses e meses atrás. Não terão de aturar as personalidades de todos os que não escrevem, ou dos que julgam que o fazem (ou pior ainda, dos que julgam que sabem), e de ainda ter de lhes sorrir, ter de sorrir até ao nosso espelho perante a nossa imagem em farrapos. Não terão de escrever se estiverem doentes, infelizes, maltratados, sorumbáticos, nostálgicos, tristes ou depressivos. Não terão de olhar para o que escrevem e constantemente achar que é uma porcaria, e pior, saber que haverá sempre quem o achará. Não terão de aturar que as pessoas vos digam o que pensam, mesmo que não saibam quem são ou o que fazem, que digam coisas que vocês não gostam de ouvir mesmo que sejam verdade ou pior mesmo que sejam mentira. Não terão de viver sem palmadinhas nas costas, ou com elas e à espera de quando vão levar no toutiço pumbapumbapumba pela frente ou por trás. Não terão de ser confrontados com o que fazem mal, errado ou incorrecto, nem que vos ponham a dizer aquilo que não disseram, a escrever o que não escreveram, a inferir o que não quiseram significar. Não terão de ser avaliados pelos vossos pares, pelos editores, pelos críticos, pelos leitores, e até pelo Zé do boné e pelo canário da Dona Francisca.
Porque ser escritor é escrever sozinho e ser-se avaliado por toda a gente pelo modo como o fazemos. E aguentar. O que se publica não tem bilhete de ida e volta. A opinião dos outros não depende da nossa. É livre, terrível e maravilhosa. Se custa? Custa. É agradável? Poucas vezes. É fácil? Muito raro. É preciso ter força de vontade? É. Muitas vezes parece impossível de continuar? Garantidamente. Portanto, para quê armarem-se em divas? Protesta-se do quê? dos outros darem a opinião que não queremos? Para quê? Mais importante, porquê?
A quem se perguntar como é então possível que alguém queira ser escritor, será tudo mau? Nem pensar nisso! É a melhor coisa do mundo. A vocação perfeita.
Mas não é disso que estou a falar. As partes boas terão de ficar para outro dia. É que, desculpem qualquer coisinha, mas para chegar aí é difícil. Lá isso é. Compõe a maior parte do caminho. E não há volta a dar-lhe. Nem pedindo mãozinhas, cunhas, bolinhos, compreensõezinhas, palavras amigas, explicações, apontamentos, palmadinhas ou subornos. Nem fazendo clubes ou blogues ou fóruns selectos, fechados e cegos. Nem nos fazendo de mais nem de menos do que somos. Nem exibindo arrogâncias deslocadas ou esgrimindo inanidades indefensáveis. Nem fabricando ou fomentando ou gozando questões e problemas e quezílias. Nem reduzindo os problemas a questões geracionais ou paranormais. Há por aí uns quantos milénios de gente que enfrentou as feras da vida, as contrariedades, as dificuldades. Muitos deles foram escritores. Todos perceberam que não é fácil. Ora isso é algo a respeitar sempre. Todos tiveram de aprender a escrever, a esmagadora maioria sem enciclopédias, wikipédias, e mãozinhas de outrem na caneta. Todos com menos bons exemplos que no presente. Todos tiveram de se dar com os seus pares, todos tiveram de conviver e aprender. E para todos não foi fácil.
Que fazer então? Ora, escrever parece-me bem. E se não o fizerem, pois bem, LEIAM.

n.fonseca