domingo, 8 de agosto de 2010

«Atabernar as livrarias»

«Quem faz com que uma livraria seja uma verdadeira livraria e não uma simples mercearia de livros, uma mercearia onde é natural que os livros se vendam "com a mesma pseudo-eficiência" com que se devem vender "detergentes ou margarinas"? O livreiro? O seu público? Se calhar os dois… Ou não?»

Quem pergunta é o Livreiro Velho. Pode ler o texto completo no «Chapéu e Bengala».

sábado, 7 de agosto de 2010

«De se tirar o chapéu»

Sines, nesta época do ano, é ponto de passagem de alguns e de destino de outros. O mar, praia, sol e outras coisas que os forasteiros cá descobrem. A livraria fica perto do parque de campismo que, por razões que desconheço, este verão apenas esteve aberto durante o Festival Músicas do Mundo. De qualquer forma, sendo uma zona comercial, as pessoas passeiam-se, principalmente durante a manhã, com carrinhos de bebé, sem carrinhos de bebé, em pequenos grupos, aos pares, solitários, mãos atrás das costas, desviando-se dos montes que os cães deixam nos passeios e das paredes mijadas até à altura do alçar da perna, vendo as montras ou, mesmo, não vendo nada. É de manhã também que, de vez em quando, vou até à porta e espreito o mar, à esquerda, lá ao fundo, um ou outro navio a chegar conduzido pelos potentes rebocadores; imaginando os corpos ao sol estendidos na areia. Cumprimento com um aceno pessoas que me cumprimentam de dentro de carros que passam. Normalmente não consigo vislumbrar quem lá vai mas a educação nunca fez mal a ninguém e eu até gosto de ser cumprimentado. Bons dias de um ou outro idoso que só conheço do seu passeio matinal, saído do lar ao virar da esquina e para onde regressa depois da volta ao quarteirão. Também retribuo o aceno de alguns pescadores que, do Bairro Marítimo, ali à direita, balde de plástico pendurado no braço, se dirigem para o porto de pesca ou de lá regressam depois de várias horas no mar. O interior da livraria está fresco. Para quem gosta de livros, as luzes apagadas ajudam ao ambiente propício para alguns momentos de descontracção. Há quem entre, dê a voltinha e saia. Há quem entre e fique mais um bocado, vendo as novidades nas mesas ou procurando surpresas nas prateleiras. Por vezes sou eu que tenho surpresas. Por vezes aparecem pessoas que gostam de falar de livros. Por vezes inicia-se um namoro sem consequências mas que é bom enquanto dura. Falamos de títulos e de autores, de histórias, contamo-las e ouvimo-las. Não tão raramente quanto isso, há quem pergunte como é vender livros em Sines. E dá? Vai dando, com dificuldades, os encargos são muito grandes… o costume. Mas estamos cá! Há pouco estava eu à porta a olhar para nada – apenas a descansar do teclado e das facturas. Da esquerda vêm surgindo pessoas. Um casal, calções e chinelos; uma senhora com saco da loja de roupas; três raparigas, uma delas com filmes de vídeo numa mão e o telemóvel na outra, digitando freneticamente. Um pouco atrás um homem alto, mais de setenta anos, roupa desportiva mas clássica, clara, óculos escuros acastanhados, boné bege na cabeça. Traje de passeio e passo de passeio. Detém-se na montra da livraria, observa os livros expostos. Para não incomodar afasto-me um pouco da porta. O senhor também se afasta da montra e dirige-se à entrada. Observo-o pelo canto do olho. Entra. Fico-lhe agradecido. Não só pelo facto de entrar. Entrar muita gente entra e é claro que é gratificante que isso aconteça. Mas, é que, no momento de entrar na livraria, este senhor tirou o chapéu!

Joaquim Gonçalves

Este texto, de se lhe tirar o chapéu, foi surripiado - sem qualquer autorização, mas com a certeza da compreensão de seu autor - do blogue da A das Artes, uma livraria, em Sines, que espera uma visita sua. Os sublinhados são nossos.