terça-feira, 29 de março de 2011

A leitura como desígnio nacional e como elemento agregador das gentes do livro?

No nosso I Encontro Livreiro começámos por inventariar problemas. Assim, verificámos que:

1) – As várias profissões do sector livreiro têm vivido permanentemente de costas voltadas e há que pô-las a «viajar no mesmo barco para o país da leitura»;

2) - Os índices de leitura, em Portugal, são baixíssimos e é neste âmbito que há mais trabalho a fazer, até por ser fundamental em toda a cadeia do livro, seja este em que suporte for. Não valerá muito a pena discutirmos a questão dos suportes se não resolvermos o problema da leitura;

3) - A profissão dos tradutores nem sempre tem sido respeitada, assistindo-se a um “salve-se quem puder” e à recorrente utilização do mais barato em vez da qualidade;

4) - O papel dos professores e das escolas, com honrosas excepções, nem sempre tem sido o melhor e não existe verdadeiramente uma política, na educação, de promoção da leitura.

E como alterar isto? Encontrámos, na nossa conversa do ano passado, algumas pistas:

- Reunindo em vez de dividir;

- Ouvindo em vez de impor;

- Convivendo em vez de continuar de costas voltadas;

- Metendo as mãos na massa em vez de esperar que outros resolvam os nossos problemas;

- Tomando consciência de que todos somos poucos para a árdua tarefa de fazer da leitura um desígnio nacional crucial para o progresso e para a nossa identidade e maioridade cultural;

- Contrariando a opinião acrítica e a formatação de um gosto dominante que prima pelo fugaz, pelo efémero e pelo superficial;

Sobre a questão do ENCONTRO e do CONVÍVIO refira-se que foi clara, desde o início, a intenção de manter esta dupla característica, associada ao carácter informal, livre e aberto, transformando o ENCONTRO LIVREIRO num espaço de reunião, de reflexão e de partilha em que não há distinções, em que nos tratamos pelo nome próprio e não por títulos, em que não há «estrelas» nem oradores convidados com uma assistência ou espectadores, mesmo que com direito a uma ou duas questões, em que inventariando e falando dos nossos problemas comuns possamos, com isso, estar já a contribuir para o encontrar de soluções e de caminhos.

Encontro e convívio, dois termos que queremos de mãos dadas para cumprir a vontade de Manuel Medeiros, o Livreiro Velho, que um dia sonhou este espaço das “gentes do livro” e se empenhou com todas as sua forças na sua concretização.

O convívio, melhorando e aprofundando o conhecimento mútuo, melhora e aprofunda o encontro, mas se não nos encontrássemos, como daríamos ao convívio o tão necessário calor humano que a proximidade física proporciona?

Queremos um encontro e um convívio que, em cada ano, seja sempre uma novidade, uma surpresa, um espaço aberto à participação e à criatividade. Onde, para além do abraço, da palavra, do moscatel, possa também acontecer a alegria e a festa.

Como temos afirmado no nosso blogue ISTO NÃO FICA ASSIM!:

O ENCONTRO LIVREIRO SERÁ O QUE TODOS NÓS, OS QUE AQUI ESTIVERMOS EM CADA ANO, QUISERMOS QUE SEJA.

E cá estamos nós no II Encontro Livreiro, na cidade de Setúbal (nem muito a Norte, nem muito a Sul, esperando que aqui acorram gentes do livro de todos os cantos do país) e numa livraria, a Culsete, que desde há muitos anos tem tido um papel relevante na “edição da leitura” e na intervenção cultural.

No livro Papel a Mais, que assina como Resendes Ventura em homenagem a seus avós paterno e materno, diz-nos Manuel Medeiros:

«A escrita, o livro, a leitura: um mundo! Vasto e complexo mundo! Quem encontrarei disponível para me acompanhar num breve olhar sobre ele?

Mundo habitado. O olhar encontra imediatamente os escritores e os leitores. Depois, entre a escrita e o livro, está o editor com o seu trabalho emérito. Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro “publica” a leitura.

Para publicar a escrita e o livro basta um escritor e um editor. Para publicar a leitura nem só o livreiro, muito menos um livreiro. (…) sou apenas um livreiro entre muitos, um livreiro em fim de carreira, que não consegue fugir à consciência do modo concreto como a sua vida foi marcada pelo mundo da escrita, do livro e da leitura.»

Isto deve fazer-nos reflectir sobre o papel central que, neste mundo do livro, ocupam as livrarias e os livreiros.

Resultou esta iniciativa de algumas conversas que fomos tendo, ao longo do tempo, sobre a necessidade de ultrapassar o lamento, a lamúria mesmo, as visões catastrofistas sobre o fim do livro – agora adensadas pelas alterações muito rápidas que se estão a dar sobretudo a nível dos seus suportes materiais – e, acima de tudo, a urgência de deixarmos de alijar responsabilidades sobre as malfeitorias que se vão fazendo neste sector. Um sector que, estranhamente (ou não), tem vindo a despertar apetites a quem vê aí grandes possibilidades de multiplicar rapidamente os seus investimentos. Estranho, não é? Ainda por cima num momento em que se ouvem, vindos de muitos quadrantes, os ecos da Declaração (talvez exageradamente apressada) do Fim do Livro.

Apelo, se me permitem, a todos os presentes para que nos digam de onde vêm, ao que vêm e o que pensam da necessidade de encontro e de convívio das gentes do livro, no fundo o que pensam desta iniciativa e do seu futuro. E que aqui lancem outras pistas para a reflexão e o debate.

E se, para garantir um melhor futuro ao livro, começássemos por dar uma melhor atenção ao problema da LEITURA?

E não acham que para isso há que defender as LIVRARIAS, o lugar privilegiado para o seu saudável desenvolvimento e crescimento?

E para quando os EDITORES a preocuparem-se mais com o que verdadeiramente faz falta na promoção da leitura, a única que pode garantir a sua própria sobrevivência como editores, e menos com a visão estreita de resultados apenas para o agora?

E as BIBLIOTECAS?

E as ESCOLAS?

E…?

E…?

O que é que já fazemos o que é que poderemos fazer mais para que LEITURA seja o desígnio nacional que pode e deve unir as gentes do livro?

Está lançado o debate e a reflexão.

(…)


Permitam-me uma palavra final sobre o blogue ISTO NÃO FICA ASSIM! pela contribuição que pode dar para que o ENCONTRO LIVREIRO, como espaço de reflexão, se mantenha permanentemente aberto. Peço a todos que o promovam, por todos os meios ao vosso alcance, e que aí façam chegar as vossas reflexões escritas, opiniões e propostas.

Conseguimos, este ano, uma maior visibilidade. Aproveito para agradecer publicamente a todos os que colaboraram na divulgação deste nosso Encontro Livreiro que, a partir de agora, não é mais possível ignorar. Ficam, desde já, todos convocados para o III Encontro Livreiro, a realizar aqui em Setúbal no dia 25 de Março de 2012.

Luís Guerra

Texto lido na abertura do II Encontro Livreiro, em Setúbal, Livraria Culsete, no dia 27 de Março de 2011.

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