sexta-feira, 18 de março de 2011

A Persistência da Visão

Sentado frente ao ecrã, com o frio da noite lá fora, longe deste ambiente vivo e agradável graças a um aquecedor a gás, recordo os lugares de ler da minha infância e juventude. Eram sítios e espaços maravilhosos, de regras claras e distintas, com um imperativo maravilhoso: fruir o livro. Eram lugares onde eu podia largar tudo e mergulhar num livro.

No meu caso, identifico-os bem. A livraria e a tabacaria do meu bairro e, como é natural, a casa de meus pais. Em casa havia livros de todos os tipos, temas e feitios. Não eram muitos mas supriam todas as minhas necessidades e prazeres. Quando descobri que não me chegavam e que lá fora havia um mundo imenso de livros, livrarias e bibliotecas, fiquei maravilhado. Iniciei então uma viagem sem regresso, do tipo que todos reconhecemos (mesmo os que não lêem).

O encontro com o livro e a leitura é por vezes o simples resultado da disponibilidade. De livros e de tempo. É espantosa a quantidade de tempo que existe quando somos mais novos. Todavia, acredito que o mais determinante nesse encontro não é nem o espaço, nem o tempo, nem sequer uma forte presença física de livros.

Por isso, ao desfiar a memória dos lugares onde li livros, reparo subitamente que o importante foram as pessoas que neles estavam.

As pessoas que faziam parte da minha paisagem em qualquer lado que eu estivesse ou fosse eram naturalmente os meus pais e os meus avós. Pessoas que para mim foram e são como lugares num sentido latino. Presenças fulcrais, centrípetas e aconchegantes. Pessoas que me deixaram sonhar e que me mostraram como fazê-lo. Vejo o meu avô sentado no sofá da sala embrenhado num jornal ou num romance. Sinto a minha avó perto de mim, ajudando-me a ler os livros de juventude da minha mãe. Aqueço-me nos serões de leitura dos Lusíadas à beira da cama de minha mãe. Descanso, mesmo nas noites em que acordei estremunhado com algo e dei com o meu pai lendo, sentado na cama.

Mais tarde, saía de casa para ir a lugares com pessoas. Com as senhoras simpáticas da livraria do bairro que não só me aturavam as perguntas, como o hábito de ler sentado no chão ou encostado aos escaparates. A da tabacaria que me deixava manusear dicionários ilustrados e Júlio Verne sem ter de os comprar. O alfarrabista que macambúzio não comentava se eu pegasse num volume de Spengler, noutro de Durrell e num Argonauta. Posso dizer que a primeira coisa que comprei para mim em toda a minha vida, foi um livro e que não me esqueço dos nervos que senti ou do sorriso de lábios cuidadosamente irreflectidos da empregada ao dar-me o troco.

Os livros, apesar de maravilhosos, nada são sem as gentes que o suportam, amam e acarinham, nada sem os que os lêem, que os promovem, que os ensinam e que os tornam, como se costuma dizer hoje, virais. Os livros possuem o péssimo hábito de não serem auto-suficientes. Precisam de pessoas como nós para terem vida, para serem vida.

E quantos mais formos, mais persistiremos contra o apagar da luz.


Nuno Fonseca

Orgia Literária / Fundador do Encontro Livreiro

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