sexta-feira, 20 de maio de 2011

«Não. Não vale a pena correr tanto como correm por aí.»

No desassossego que é tentar ler o máximo possível dos livros novos que são publicados, e que nos interessam, vão ficando para trás projectos de leitura que se prolongam até ao insuportável.

Valeu, neste caso, a reedição, em boa hora, de alguns dos diários de Miguel Torga.

Não se lêem como um romance porque não são um romance. Mas há poesia pelo meio como seria de esperar.

Torga fala de poesia, da sociedade, da terra, das pessoas, de política e, claro, de literatura.

Vejamos o que ele nos lega, desde Coimbra a 20 de Novembro de 1965, acerca dos livros:

“Não. Não vale a pena correr tanto como correm por aí. Há obras essenciais, e há obras que nunca o serão, mesmo entrando em linha de conta com as variações dos gostos e de critérios de avaliação que o tempo motiva. Obras que nascem para viver, e obras que nascem para morrer. As que renovam a língua e a visão das coisas, que dão às palavras uma força nova, uma vibração original, e as que nada acrescentam ao que já estava. A gente mal concebe que as primeiras não existissem, e passava perfeitamente sem as segundas. Que falta fazem hoje as toneladas de versos do Cancioneiro Geral, e que mão seria capaz de riscar o do mapa literário português? Cada livro é um candidato à eternidade em perpétuo exame. A prova da sua excelência nunca termina. Dissecado à mesa anatómica de todas as gerações, por todas tem de ser aprovado, sem receber de nenhuma o diploma final. Alguns ficam reprovados sem apelo logo ao primeiro interrogatório. Outros prosseguem no concurso, até ver. Daí a inutilidade dos triunfos forjados, dos sucessos publicitários. Na maioria dos casos são derrotas irremediáveis, amanhã. Os cemitérios da glória abarrotam como os da obscuridade. Cada vez há mais cadáveres para enterrar. É impossível subornar júris sucessivos. Lá vem o momento em que tudo depende das forças vitais do próprio examinando. Por isso, quem se arrisca a lançar ao mundo um penitente desses, o melhor que tem a fazer é deixá-lo seguir discretamente o seu destino. A atenção que merece assim desamparado é a única consolação e a única fonte de esperança que o autor pode ter” (pp. 125-6).

Folheando o dia-a-dia daquele que é um dos grandes vultos da literatura portuguesa vamos convivendo com um homem bom, solidário, clarividente, honesto e correcto.

Se alguém duvidava que ler nos torna melhores pessoas, basta ler os diários de Miguel Torga para desfazer as dúvidas e, até, nos envergonharmos de algumas atitudes do nosso quotidiano.

Para terminar, aqui deixamos o poema Mágica, lançado no diário a 1 de Fevereiro de 1966, escrito em Coimbra, poema que nos oferece uma maravilhosa definição de poeta:


Lírica tarde, oculta
No trivial.
Um retalho de céu emoldurado
No caixilho dos olhos,
Um carro de ciganos, lento e majestoso,
Alheio ao frenesim do trânsito da rua,
Um verso recordado
À memória esquecida…
São assim os poetas.
Cobrem as horas de nudez da vida
Dum largo manto de emoções secretas.

Sines, 14 de Maio de 2011

Joaquim Gonçalves
livreiro

[publicado originalmente no blogue d'A DAS ARTES]

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