sexta-feira, 22 de julho de 2011

A livreira emociona-se, chora e ri como qualquer humano, mas tem a certeza convicta que o seu coração é feito de papel.

Ser Livreira

Vender livros é algo tido como banal. Em todo o lado se vendem livros. Qualquer um está (aparentemente) creditado para o fazer.
Quando abri a livraria alguém me perguntou: "És livreira! O que é ser livreira?" Sem pensar muito respondi: bem... a livreira é aquela que ama os livros. Gosta do cheiro do papel, gosta de acariciar as capas, sentir as folhas a passar pelos dedos. Tem uma paixão doentia pela leitura, fica inclusive indignado quando alguém diz que nunca leu.
A livreira vive num caos organizado de autores, tradutores, ilustradores, títulos, editoras, distribuidoras.
A livreira leva sempre o trabalho para casa. Por vezes pensa que a sua casa é apenas uma extensão da livraria.
A livreira deixou tudo para trás, (estudos, carreira, uma vida confortável), porque acredita que os livros alimentam a alma.
A livreira ouve todos os dias a mesma história de uma família que acha que os livros não se comem. E que assim não se pode viver.
A livreira tem constantemente palavras, frases, páginas de livros dentro da cabeça, coisas que não consegue esquecer.
A livreira dentro da mala não consegue encontrar um comprimido para a dor de cabeça, uma caneta para tirar apontamentos, as chaves de casa... todo o espaço é ocupado por livros que a acompanham por todo o lado, que são para ela mais preciosos que qualquer outra coisa.
A livreira emociona-se, chora e ri como qualquer humano, mas tem a certeza convicta que o seu coração é feito de papel.

E agora, será mesmo que qualquer um pode ser livreiro? Será que os livros se vendem sozinhos ou existe necessidade de alguém que ame os livros para os vender?


Marta Peixoto, Capítulos Soltos (Braga)

[texto publicado originalmente no blogue Os Livros Tristes]

3 comentários:

  1. <3 QUERO conhecer a Marta!!!!!!!! Luís! Onde escondeste a Marta?! :P

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  2. Esteve para participar no II Encontro, mas não pôde por imprevistos de última hora. Sugiro uma saltada a Braga e uma visita à Capítulos Soltos. Há muito livreiro "desconhecido" por este país fora!

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  3. Sinto o mesmo... E o hábito de ter sempre livros por perto não é mito nem exagero. De facto as nossas mentes mais parecem uma estante. Sim, é bom saber que há mais pessoas que se sentem assim :)

    Abraço, Carlos Neves.

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