terça-feira, 9 de agosto de 2011

Até há pouco tempo, a FNAC era a minha livraria de bairro e o Pão de Açúcar, a minha mercearia.

Tinha 5 anos em 1989. Lembro-me de ver, na televisão, o fumo erguer-se sobre o Chiado. Anos depois, ouvi a expressão «amostras é no Grandela» e perguntei o que era o Grandela. «Era onde estão agora os Armazéns do Chiado». «Ah, na FNAC!», respondi.

Em 1998, pouco antes de completar 14 anos, fiz a minha primeira visita à FNAC. Na altura, não me passava pela cabeça comprar um livro que fosse, já que estava convicta de que a última coisa de que a minha casa precisava era de mais uma tontinha e carregar sacos de livros diariamente para dentro da fortaleza de papel em que vivíamos, eu e os meus pais.

Isto teria pouco que ver com o encontro livreiro, não fosse o meu caso, o meu perfil, o de muitos, tantos da minha geração. Até há pouco tempo, a FNAC era a minha livraria de bairro e o Pão de Açúcar, a minha mercearia. O meu livreiro era o meu pai. O meu livreiro ainda é o meu pai. Às vezes também é o meu guarda-livros e bibliotecário, mas isso é outra história (não estava a exagerar quando falei na fortaleza de papel).

Embora os conceitos de «livraria de bairro» e de «livreiro» me sejam por demais caros, sou obrigada a confessar que em situação alguma me vi, alguma vez, na necessidade de um ou de outro, tão pouco lhes senti a falta. Sempre soube o que eram livrarias de bairro e livreiros, mas saber em teoria é tão bonito e trágico quanto viajar através dos livros – não se conhece sem se experimentar; não se viaja sem se sair do sofá.

Foi apenas quando comecei a trabalhar – em edição – que me apercebi do «vasto mundo» paralelo à ou soterrado pelas grandes cadeias de livrarias. Apesar da mortificação exigida por qualquer emprego digno dessa designação a quem a ele se submete, não deixa de ser uma excelente oportunidade para levantarmos os olhos dos nossos distintos umbigos e olhar em volta, ver o que perdemos, lembrarmo-nos de perguntar de onde vieram todos os livros lá de casa.

Isto não é um manifesto contra as grandes cadeias que todos conhecemos. Isto não é, de resto, um manifesto, sequer. Lamento, no entanto, que o progresso seja isto: comprar um livro como quem compra um bife, ser consumidora e não leitora numa espaço comercial e não numa livraria e adquirir um produto e não um livro. Não é um manifesto contra nada, mas podia ser. Porque tenho saudades, no verdadeiro sentido do termo - desejar de volta algo que nunca vivi, que nunca vi, pela simples ideia de isso, esse passado, me agradar enquanto projecção no futuro. Sim, tenho saudades de sair de casa, dobrar a esquina, passar pela minha livraria, dar com uma curiosidade qualquer no escaparate e ter a sorte de estar ali alguém que conhece o livro e sabe dizer-me o que tenho nas mãos.

Sei que ainda existem livrarias independentes, que ainda há livreiros assim e que não estão assim tão longe de mim, mas os descontos e as promoções e o espaço disponível oferecidos selvaticamente pelas grandes cadeias obrigam a uma luta desigual que apenas com uma consciencialização colectiva pode ser ganha. O Encontro Livreiro assumiu essa tarefa, sim, mas o Encontro Livreiro são eles e somos nós. Nós que lemos, fazemos e compramos livros. E, convenhamos, 10% pelo nosso número de contribuinte, BI, rendimento anual, historial de crédito e morada fiscal é um preço demasiado alto a pagar a quem não sabe sequer o nosso nome.

eurídice e oliveira, Quintais Lda.

2 comentários: