quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Tenho cada vez mais a sensação de que o mundo se vai progressivamente esvaziando


«Tenho cada vez mais a sensação de que o mundo se vai progressivamente esvaziando, apesar do bulício dos carros e da azáfama da multidão. É tão difícil nos dias que correm encontrar uma pessoa! Na rua não nos cruzamos senão com silhuetas, figuras, símbolos. Um taxista, por exemplo, não é um indivíduo, mas um modelo social: rezingão, desabrido, insolente, antes de entrarmos no seu táxi já sabemos do que vai falar, que manhas vai usar para tornar a corrida mais sinuosa e lucrativa. Uma vendedora de centro comercial confunde-se com todas as vendedoras de centros comerciais: indiferente, desdenhosa, mal-educada, com ares de nobre senhora que ali foi parar por engano. E a adolescente de calças de ganga que nos aborda na rua não é o anjo pessoal com quem sonhávamos desde a nossa infância, mas uma cópia de entre milhares de exemplares da pedinchona que, tanto aqui como em Londres, São Francisco ou Hamburgo, detém o transeunte e lhe pede uma moeda destinada ao arquétipo barbudo que a espera, ao dobrar da esquina, a enrolar um charro. Compreendo as causas desta degradação da personalidade nas urbes demenciais, apenas me limito a comprovar os seus efeitos. Mas é penoso que tenhamos de viver entre fantasmas, procurando inutilmente um sorriso, um convite, uma familiaridade, um gesto de generosidade ou de desinteresse, e que, em suma, nos vejamos forçados a caminhar, cercados pela multidão, no deserto.»

Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas, AHAB

{leitura de Inês Espada / CELivrarias - Oeiras / hoje pedi que o tempo parasse}

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