domingo, 4 de dezembro de 2011

Os salvadores do livro?

Na primeira página do New York Times desta manhã um artigo sobre o backlash, espécie de contra-ataque reactivo das editoras a ver se conseguem deter o triunfo rompante e impante do e-book [‘Selling Old-Style books by Their Guilded Covers’]. Estão agora a esmerar-se no lado livro-objecto-de-estimação e as capas, bem como todo o aspecto estético, ganham importância fundamental, já que no conteúdo, mesmo sendo idêntico tanto na edição electrónica como na de papel, perdem para a competição, o cada vez mais apelativo e-book.

Infelizmente isso fará subir o preço porque as capas de alguns vão ser quase objets d'art, no entanto as editoras prometem, na maioria dos casos, não exagerar. É só mesmo fazer com que o comprador goste de ter um livro que dê consolo ao manuseio e para que se olha com afecto.

O artigo continua numa página interior, tomando-a quase toda. Termina com uma citação de Julian Barnes que, ao aceitar em Londres o Man Booker Prize pelo seu livro mais recente The Sense of an Ending, já em português, O Sentido do Fim, que ainda não comprei mas vou mesmo comprar porque o homem lê-se com gosto, disse: Aqueles de vocês que já viram o meu livro, provavelmente concordarão que é um belo objecto. E se o livro físico, como se lhe tem agora chamado, vai resistir ao desafio do e-book, terá de ter um aspecto digno de se comprar e de se guardar.

Pois é isso aí. Quer dizer: agora é que vai fazer sentido aquele aviso da cultura anglo-americana: Don’t judge a book by its cover.

Eu, que continuo a resistir ao e-book, leio e rejubilo com esta notícia. No meio de tantas más, para além da descida da taxa de desemprego nos States, esta não pode deixar de me afagar pelo menos tanto como o sol que me entra pela janela nesta outonal e plácida manhã de domingo, de evocar aquele belo poema de Roberto de Mesquita, um dos únicos alegres dessa melancólica alma cativa.

4 do Dezembro de 2011

Onésimo Teotónio Almeida


2 comentários:

  1. Duas pequenas considerações de um casmurro que não se vai render ao e-book:
    1) Não acho o livro do Barnes bonito e consigo pensar em dezenas de exemplos bem melhores.
    2) Fazer um livro bonito, agradável ao toque, agradável à vista, está longe de ser sinónimo de fazer um livro mais caro. As edições de bolso da Penguin e outras que lhe seguiram o rasto são disso exemplo. Por cá, temos a colecção de bolso da LeYa (que, infelizmente, está a afastar-se do belíssimo desenho das primeiras edições), temos a colecção da Biblioteca Editores Independentes (eu podia nadar em dinheiro que ia continuar a preferir a edição de bolso da Odisseia à de capa dura; e aguardo ansiosamente o Livro do Desassossego nesta colecção, que não sei se morreu) e os simpáticos Gatos Malteses, cujo único defeito é ter títulos mais de nicho.

    Tenho sérias dúvidas de que o caminho para combater o e-book seja o de se fazerem livros mais esmerados, apostando no conceito de objecto. Eu, que não me vejo a ler e-books, não comprei ontem a belíssima biografia do Luiz Pacheco, editada pela Tinta da China, porque não é para o meu bolso. Talvez a meta na carta ao Pai Natal, a ver se me calha em sorte. É um livro bonito, como quase todos os desta editora, mas eu prefiro as suas edições de bolso, mais baratinhas e mais catitas. Continuam a ser objectos belíssimos. Os cantos redondos, o tipo de papel usado nas capas, a paginação, tudo denota esmero. Para mim, são bem mais bonitas estas edições do que aquela colecção de humor que fizeram, sem lombada. São objectos, lá está. E quando se é demasiado objecto, é-se menos livro.

    Acho eu.

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  2. Óptimo, o texto do Onésimo! eu também sou acérrima defensora de livros que se folheiam, olham e sobretudo...cheiram! Os e-books não têm cheiro.
    Clara Saraiva

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