terça-feira, 30 de agosto de 2011

Só o cheirá-los lhe dava engulhos

De muitos dos actuais neo-editores pode-se dizer o que um dia Aquilino Ribeiro disse de um responsável da Bertrand:

«Em matéria de livros sentia o mesmo fastio que o pasteleiro pelos pastéis. Só o cheirá-los lhe dava engulhos. Lê-los, jamais.»

Livraria Letra Livre
www.letralivre.com

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O livro e a leitura

"Os meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história."

BILL GATES
{através da ARQUIVO}

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

E a vida não vive em linha recta


DEUS ESCREVE DIREITO


Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento


SOPHIA, O BÚZIO DE CÓS - 1997 ]



{Leitura de Vanda Viveiros, Livreira / Encontro Livreiro}

"Tenho só / este corpo / para ser"

RV

{Leitura de um Anónimo do século XXI}

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

É o outro lado da magia

Chamo
a cada ramo
de árvore
uma asa.

E as árvores voam.

Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.

É o outro lado
da magia.


Carlos de Oliveira [10-VIII-1921 / 1-VII-1981), Trabalho Poético.

[Leitura de Luís Guerra]

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Até há pouco tempo, a FNAC era a minha livraria de bairro e o Pão de Açúcar, a minha mercearia.

Tinha 5 anos em 1989. Lembro-me de ver, na televisão, o fumo erguer-se sobre o Chiado. Anos depois, ouvi a expressão «amostras é no Grandela» e perguntei o que era o Grandela. «Era onde estão agora os Armazéns do Chiado». «Ah, na FNAC!», respondi.

Em 1998, pouco antes de completar 14 anos, fiz a minha primeira visita à FNAC. Na altura, não me passava pela cabeça comprar um livro que fosse, já que estava convicta de que a última coisa de que a minha casa precisava era de mais uma tontinha e carregar sacos de livros diariamente para dentro da fortaleza de papel em que vivíamos, eu e os meus pais.

Isto teria pouco que ver com o encontro livreiro, não fosse o meu caso, o meu perfil, o de muitos, tantos da minha geração. Até há pouco tempo, a FNAC era a minha livraria de bairro e o Pão de Açúcar, a minha mercearia. O meu livreiro era o meu pai. O meu livreiro ainda é o meu pai. Às vezes também é o meu guarda-livros e bibliotecário, mas isso é outra história (não estava a exagerar quando falei na fortaleza de papel).

Embora os conceitos de «livraria de bairro» e de «livreiro» me sejam por demais caros, sou obrigada a confessar que em situação alguma me vi, alguma vez, na necessidade de um ou de outro, tão pouco lhes senti a falta. Sempre soube o que eram livrarias de bairro e livreiros, mas saber em teoria é tão bonito e trágico quanto viajar através dos livros – não se conhece sem se experimentar; não se viaja sem se sair do sofá.

Foi apenas quando comecei a trabalhar – em edição – que me apercebi do «vasto mundo» paralelo à ou soterrado pelas grandes cadeias de livrarias. Apesar da mortificação exigida por qualquer emprego digno dessa designação a quem a ele se submete, não deixa de ser uma excelente oportunidade para levantarmos os olhos dos nossos distintos umbigos e olhar em volta, ver o que perdemos, lembrarmo-nos de perguntar de onde vieram todos os livros lá de casa.

Isto não é um manifesto contra as grandes cadeias que todos conhecemos. Isto não é, de resto, um manifesto, sequer. Lamento, no entanto, que o progresso seja isto: comprar um livro como quem compra um bife, ser consumidora e não leitora numa espaço comercial e não numa livraria e adquirir um produto e não um livro. Não é um manifesto contra nada, mas podia ser. Porque tenho saudades, no verdadeiro sentido do termo - desejar de volta algo que nunca vivi, que nunca vi, pela simples ideia de isso, esse passado, me agradar enquanto projecção no futuro. Sim, tenho saudades de sair de casa, dobrar a esquina, passar pela minha livraria, dar com uma curiosidade qualquer no escaparate e ter a sorte de estar ali alguém que conhece o livro e sabe dizer-me o que tenho nas mãos.

Sei que ainda existem livrarias independentes, que ainda há livreiros assim e que não estão assim tão longe de mim, mas os descontos e as promoções e o espaço disponível oferecidos selvaticamente pelas grandes cadeias obrigam a uma luta desigual que apenas com uma consciencialização colectiva pode ser ganha. O Encontro Livreiro assumiu essa tarefa, sim, mas o Encontro Livreiro são eles e somos nós. Nós que lemos, fazemos e compramos livros. E, convenhamos, 10% pelo nosso número de contribuinte, BI, rendimento anual, historial de crédito e morada fiscal é um preço demasiado alto a pagar a quem não sabe sequer o nosso nome.

eurídice e oliveira, Quintais Lda.

Deixe proliferar o exemplo de uma «liberdade livre» por toda uma vida

«Quem sabe o que está a caminho, embora com menos fragor? Só o pensar nos prepara, e agora tem de ser feito no interior do torvelinho que nos arrasta. Ora, só se pensa radicalmente fora da utilidade e da profissão, e isso é, nos nossos dias, o mais difícil. Pequena heroicidade, imperceptível, mas de que qualquer um medirá o alcance se experimentar deixar o utilitário, a negociação, por pouco tempo que seja. Deixe proliferar o exemplo de uma «liberdade livre» por toda uma vida, e perceberá o que quero dizer. De imediato o pensar radicalmente se torna um assunto político.»

J. A. Bragança de Miranda, Traços - Ensaios de Crítica da cultura, Vega, colecção «Paisagens» n.º 30.

{Leitura de Manuel Medeiros}

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A boa consciência

«Existiu no centro da Selva, há muito tempo, uma extravagante família de plantas carnívoras que, com o passar do tempo, tomaram consciência do seu estranho costume, principalmente devido aos constantes rumores que o bom Zéfiro lhes trazia de todos os cantos da cidade.
Sensíveis à crítica, pouco a pouco foram ganhando repugnância à carne, até que chegou o momento em que não só a repudiaram em sentido figurado, ou seja, sexual, como por último se negaram a comê-la, a tal ponto enjoadas que a sua simples visão lhes causava náuseas.
Então decidiram tornar-se vegetarianas.
A partir desse dia comem-se unicamente umas às outras e vivem tranquilas, esquecidas do seu passado infame.»

Augusto Monterroso, A ovelha negra e outras fábulas

{Leitura de Marta Peixoto}

O editor

«O editor recusou a publicação de uma obra que um autor desconhecido lhe apresentou, argumentando que um romance de mil páginas teria poucos leitores. O autor reduziu o volume para uma novela de cem páginas mas o editor aconselhou-o a cortar um pouco mais porque isso beneficiaria as vendas. O autor abreviou o trabalho para um conto de dez páginas e o editor elogiou-lhe o raro talento para síntese, mas informou-o de que a edição do livro teria de ser adiada para uma data mais propícia à procura do mercado. O autor condensou o texto numa única frase e escreveu-a na lápide da campa onde enterrou o editor.»

Contos Efémeros, de Rui Sousa Basto, Edição Opera Omnia, Julho 2011

{Bruno Malheiro & Marta Peixoto / Capítulos Soltos}

Escrevi com o meu sangue


«Escrevi com o meu sangue; nunca molhei a pena na pia de água benta, nem nos lavabos perfumados das viscondessas.»

Aquilino Ribeiro

{Livraria Letra Livre}

Ler é errar

«Há no acto de ler uma expectativa que não procura a consumação. Ler é errar. A leitura é a errância.

[...]

A felicidade crescia. Lia. A felicidade devorava-me. Li todo o Verão. A felicidade devorou-me todo o Verão.
»

Pascal Quignard, As Sombras Errantes - Último reino, Lisboa, Gótica, 2003.

{leitura de Luís Guerra - com um abraço reconhecido ao Ricardo Ribeiro que lhe ofereceu este livro}

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

As pessoas más e as pessoas boas

«As pessoas más gostam das coisas e servem-se das pessoas, e as pessoas boas gostam das pessoas e servem-se das coisas.»

José R. dos Santos, Anjo Branco.

{leitura de Leopoldino Flores}

O livro é


«O livro é o salva-vidas da solidão.»

Ramón Gómez de la Serna, Greguerías, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998.

{leitura de João Reis Ribeiro /nesta hora}

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Não podemos viver eternamente rodeados de morte e de mortos.


«Não podemos viver eternamente rodeados de morte e de mortos. E se ainda restam preconceitos há que destruí-los. "O dever", digo bem, "O DEVER" do escritor, do poeta não é encerrar-se cobardemente num texto, num livro, numa revista, donde não mais se libertará, mas pelo contrário sair para fora para sacudir, para atacar o espírito público. Senão para que serve? Para que nasceu?»

Antonin Artaud

{leitura de Rosa Azevedo /estórias com livros}

Tenho cada vez mais a sensação de que o mundo se vai progressivamente esvaziando


«Tenho cada vez mais a sensação de que o mundo se vai progressivamente esvaziando, apesar do bulício dos carros e da azáfama da multidão. É tão difícil nos dias que correm encontrar uma pessoa! Na rua não nos cruzamos senão com silhuetas, figuras, símbolos. Um taxista, por exemplo, não é um indivíduo, mas um modelo social: rezingão, desabrido, insolente, antes de entrarmos no seu táxi já sabemos do que vai falar, que manhas vai usar para tornar a corrida mais sinuosa e lucrativa. Uma vendedora de centro comercial confunde-se com todas as vendedoras de centros comerciais: indiferente, desdenhosa, mal-educada, com ares de nobre senhora que ali foi parar por engano. E a adolescente de calças de ganga que nos aborda na rua não é o anjo pessoal com quem sonhávamos desde a nossa infância, mas uma cópia de entre milhares de exemplares da pedinchona que, tanto aqui como em Londres, São Francisco ou Hamburgo, detém o transeunte e lhe pede uma moeda destinada ao arquétipo barbudo que a espera, ao dobrar da esquina, a enrolar um charro. Compreendo as causas desta degradação da personalidade nas urbes demenciais, apenas me limito a comprovar os seus efeitos. Mas é penoso que tenhamos de viver entre fantasmas, procurando inutilmente um sorriso, um convite, uma familiaridade, um gesto de generosidade ou de desinteresse, e que, em suma, nos vejamos forçados a caminhar, cercados pela multidão, no deserto.»

Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas, AHAB

{leitura de Inês Espada / CELivrarias - Oeiras / hoje pedi que o tempo parasse}

O futuro transformava-se numa sala iluminada


«O futuro transformava-se numa sala iluminada que pretendíamos tomar de assalto, mesmo que viéssemos a ter de deixar parte do corpo entalado nas portas por onde passássemos»

Lídia Jorge, A noite das mulheres cantoras, D. Quixote, p. 80.

{Leitura de Joaquim Gonçalves / A das Artes}

Apreço enorme

[rabisco de pedro vieira]

«Outra condição da concórdia e da convivência é a redução da agressividade ao mínimo. Há pessoas que não podem falar sem agredir, insultar, caluniar. Provocam profundas feridas pessoais, que costumam acirrar-se e dificultar a convivência. Costuma-se responder a essas palavras com outras igualmente exasperadas e agressivas, sendo esse justamente o princípio da discórdia.
Sinto enorme apreço e admiração pelas pessoas que unem a integridade à serenidade, à cortesia, que não entram no jogo quando se trata de um jogo sujo».

Julián Marías, Tratado sobre a Convivência - Concórdia sem Acordo, Martins Fontes, 2003, p. 204.

{leitura de Manuel Pereira Medeiros}

O valor intrínseco de um livro

«O valor intrínseco de um livro não depende da importância do tema (caso contrário, caberia aos teólogos a vitória), mas da maneira de abordar o acidental e o insignificante, de dominar o ínfimo. O essencial nunca exigiu o mínimo talento.»

E. Cioran, Do Inconveniente de ter Nascido, Letra Livre, Lisboa, 2010.

{leitura de Letra Livre}

Leitura e cidadania mais livre e mais crítica

[Fotografia de ALFREDO JIMÉNEZ]

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Cavacos das Caldas


«Antes de viajar, abasteça-se na livraria»

«As férias chegaram e há que pôr na mala os bens essenciais. Não a feche antes de passar na livraria mais próxima e escolher com os miúdos uns quantos livros. Para ler, desenhar e pintar. Deixe o hipermercado para os outros alimentos.
(...)
Boas leituras e boas férias»

Assim começa o artigo de Rita Pimenta, «Pública» / Público de 31-VII-2011, que em breve contamos reproduzir aqui na íntegra.