sábado, 7 de janeiro de 2012

«Dobrado sobre o computador, com a cabeça / entre as mãos, como dobrado antes / sobre a máquina de escrever, com a cabeça / entre as mãos.»

[Foto Culsete: HMP numa sessão na livraria, em 2004]

Dobrado sobre o computador, com a cabeça
entre as mãos, como dobrado antes 
sobre a máquina de escrever, com a cabeça
entre as mãos. Pôr isto numa moldura,
pintar isto, apanhar de toda uma vida
uma fixação neutra, um corpo, não 
se lhe vêem os olhos, nem é preciso, animal
que fala nos seus sons de pressentimento
mortal, doido, agitado, borrando-se 
de medo, como se alguém o fosse degolar,
a cabeça à volta, cheia de um êxtase
modesto e popular, pobre velhinho,
magrinho, triste pau entesado. São coisas
transportadas em ilusão (espuma há, 
a sair da boca?), canções batidas com ferros, 
boa companhia o colchão dorido, manchado
de nicotina e esperma, outro mundo verias
nas estrelas, nos vermes, nas veias
a rebentar em sono solto. Se alguém
compreendesse e assobiasse para o lado,
deixando aquele homem à deriva, aquela
cara, ali enterrada nas teclas do computador,
adquiriria de repente uma beleza extraordinária.


 Helder Moura Pereira
{nasceu em Setúbal no dia 7 de Janeiro de 1949}

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