sábado, 4 de fevereiro de 2012

«Ebookação»

E começam a chegar as
 «ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»
(1)


Está um pouco na moda dar pancada nos livros electrónicos. É compreensível, embora não seja muito racional. A verdade é que somos uma sociedade habituada ao livro como objecto físico, e para muitos de nós, principalmente no meio literário, a relação que com ele estabelecemos tem uma componente muito sensorial, senão mesmo sensual. Para além disso, os hábitos são coisas terríveis, pequenos arames que teimam em ter pouca maleabilidade.

Mas devíamos questionar isto. Os e-books existem e vieram para ficar. Mesmo que em Portugal ainda se teime em não o produzir ou consumir em larga escala, o certo é mais tarde ou mais cedo ele vir cá assentar arraiais. Por isso, talvez fosse melhor "saltar da caixa", "sair da zona de conforto", e começarmos a pensar em formas de usar a via digital para valorizar o livro físico, ao invés de a recearmos.


É que ao contrário do que queremos ou nos habituamos a pensar, não há uma relação assim tão directa entre a existência (e o sucesso) do e-book e a propalada (até à náusea) morte do livro. A história diz-nos algo sobre isto. O cinema não matou o teatro, a televisão não matou o cinema, a internet não matou nenhum deles. O televisor não matou o ecrã. Assim como os sintetizadores não mataram o piano ou as esferográficas os lápis.


E se queremos verdadeiramente valorizar o livro enquanto objecto cultural imprescindível e essencial, temos de nos adaptar e começar a incorporar o meio digital, todas as suas ferramentas e processos e meios, de modo a consegui-lo. Algo já se vai fazendo, é certo, como vemos diariamente: a actividade bloguística aumentou de forma entusiástica e barata o interesse geral pelos livros. É só um exemplo. O e-book é apenas uma das suas expressões e mesmo ele tem potencialidades úteis não só para a criação literária, como para a comercialização, o estudo, a investigação, a fruição, etc.


Por exemplo, o livro em formato digital possibilita, antes do mais, a formação de novos leitores e o reforço da actividade dos existentes (quer na leitura ou no simples consumo). Possibilita também um precioso auxílio à memória, pois deixa de ser inevitável que as obras desapareçam com o tempo, por acção das erosões naturais ou dos interesses comerciais. Que melhor forma, por exemplo de fazer reviver obras esquecidas? Meros exemplos.


Abraçar o e-book e o meio digital na área do livro é inevitável e, apesar dos riscos, uma incrível oportunidade para todos os intervenientes do mundo literário. Mas ignorá-los ou menosprezá-los não me parece, sinceramente, uma opção. Criatividade, isso sim, é que é necessário.

Nuno Fonseca*
Escritor

* O Nuno Fonseca, um dos fundadores do Encontro Livreiro, faz hoje anos. Parabéns, Nuno! Pelo texto. Pela vida.

2 comentários:

  1. E-books e afins, só quando forem obrigatórios. Até lá, continuo a deliciar-me com o papel, com o seu toque e o seu cheirinho...E-books? Arre! Que coisa de fria! :)
    E parabéns ao autor!

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  2. Olá Ana. Note que eu em altura alguma digo que se deve prescindir do livro, muito pelo contrário! Sou um feroz e seu incondicionável defensor. Nada substitui o prazer que um livro proporciona ou a utilidade que ele representa. O e-book é apenas um bicho diferente, que proporciona outro tipo de experiência em torno do mesmo conteúdo. Nesse sentido é útil e prazentoso à sua própria maneira. Mas que penso devermos começar a pensar como factor de revalorização do livro e não como ameaça. A mim também ninguém me tira o prazer dos livros, mas cedo aprendi a tê-lo também, e de forma diferente, com os electrónicos. Porém, se não queremos que o livro desapareça às mãos do pseudo-racionalismo economicista vigente, temos de capitalizar a sua existência e rápido.
    Obrigado pelos parabéns e pela leitura :)

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