segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

«Não culpem os livreiros que os ignorantes são os outros»


«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»

(2)


«Não culpem os livreiros que os ignorantes são os outros»

Chegámos ao tempo dos exageros, potenciado pelas redes sociais e novas tecnologias. Os amantes dos livros têm o pêlo eriçado por tudo o que ameaça o livro na sua forma tradicional. As piores ameaças apontadas são os e-books e a morte das chamadas livrarias tradicionais ou de bairro, sendo que esta última é claramente mais trágica do que a primeira. Esta vem muitas vezes acompanhada pela equiparada morte do “livreiro”, essa profissão tantas vezes menosprezada. Associa-se com facilidade o bom livreiro à livraria tradicional e o mau livreiro às livrarias de grupo.
O meu primeiro emprego assim à séria foi como livreira na fnac. Tinha estudado literatura e achava que sabia tudo. Mas afinal sabia um canto ínfimo daquilo que tinha para aprender. Na entrevista perguntaram-me se tinha força nos braços e energia. Um dia nosso era passado a carregar caixas com muitos quilos de livros, a desmanchar paletes em armazéns, a arrumar os livros na loja. A pensar a loja, a ver qual era a melhor forma de vender. A escolher os melhores livros e a pô-los mais à frente às escondidas “deles”. A falar com pessoas, a esconder o pó das mãos, a pôr a melhor cara possível. Nos primeiros 15 dias cheguei a casa a achar que não ia conseguir voltar, angustiada e com dores no corpo. Mas depois conheci as melhores pessoas e penso nelas muitas vezes. Conheci também as pessoas piores, mais arrogantes, antipáticas, agressivas. Chamaram-me ignorante, disseram-me para ir estudar, ao mesmo tempo que outras pessoas liam cegamente o que eu lhes dizia para ler e voltavam para conversar. Caíram-me pilhas de livros em cima (literalmente), ao mesmo tempo que morri de amor por outros livros. Li como nunca, comprei livros como nunca, conheci um mundo de coisas. Demorei mais ou menos dois anos a começar a perceber daquilo. Demorou algum tempo. Demora sempre ao contrário do que se pensa ou do que parece a olho nu. Depois comecei a ajudar a escolher livros para a minha secção, comecei a comprar livros, a conhecer os distribuidores, a falar com eles. E depois quando consegui finalmente ter uma secção para mim fui-me embora. Porque tinha um trabalho “melhor”. Que me deixava viver aos fins-de-semana. Que me pagava o dobro (nunca quis na vida que o dinheiro fosse um argumento e aqui teve mesmo de ser). Onde eu tinha uma secretária, um computador.
E depois comecei a conhecer pessoas dos livros, não livreiros, e conheci pessoas fantásticas. Que sabem muito e que percebem muito. Mas nunca mais conheci pessoas como os meus colegas da fnac. Ainda hoje é só nelas que eu confio para me ajudar a escolher livros. Não são snobs porque um colete verde, um ordenado mínimo e nódoas negras não dão espaço para isso. Mas estão ali as melhores cabeças, mais inteligentes, mais cultas, mais loucas, claro, de todas. A um nível que não dá para explicar, só mesmo estando lá todos os dias.
Meus caros, o problema não está nos livreiros. Claro que são miúdos, mas hão-de ser grandes. Hão-de ser os nossos Livreiros Velhos (não como o querido Manel Medeiros, mas nessa linha). Todos os dias me esforço aqui por não perder esse contacto com os livros que tinha na fnac, mas não é fácil. A fnac empresa não interessa nada. Nunca aparecem, não percebem de livros, nem querem saber. E são burros, é isso que eles são. Porque não percebem que seria melhor pagar um bocadinho mais, valorizar o livreiro, dar-lhe vontade de ficar, dar-lhe responsabilidades, valorizar as suas vontades e escolhas. Que investir na qualidade é investir financeiramente num negócio como o dos livros. Na fnac vivíamos revoltados com o ordenado miserável e as condições miseráveis de trabalho. Vivíamos revoltados com o termos a livraria a nosso cargo e um lápis azul do lado de lá. Estávamos sempre contra a corrente. E depois tínhamos a convenção social também contra nós que nos via como miúdos acabados de sair da faculdade (que a fnac dava-se a este luxo, tudo licenciado ou mais, ah pois!). E a família ligeiramente desapontada. E os amigos.
Só posso sugerir que peguemos nestas pessoas, nesta sabedoria toda, meia dúzia de tostões para abrir uma livraria, e eu prometo-vos um negócio de sucesso. Mas como não há tostões por enquanto eu fico aqui no meu belo computador e na minha bela secretária que não me servem para nada a relembrar as primeiras manhãs da fnac, antes de a loja abrir, que eram hi-la-ri-an-tes. Eu ia a correr para o comboio, antes das 8h da manhã. Durou pouco que o corpo não perdoa. Mas não tem preço. 

Rosa Azevedo
[publicado originalmente em Estórias com Livros]

Sem comentários:

Enviar um comentário