quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O PÃO E O LIVRO


«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»
(4)

Faço uma breve analogia, aparentemente disparatada, entre o padeiro e o livreiro. Ofícios que se anunciam cada vez mais difíceis de conservar.
Em termos de matérias prontas para degustação, entenda-se consumo, o pão e o livro assemelham-se no intuito de alimentar, embora com naturezas diferentes.
O pão fresco do padeiro, acabado de sair do forno, tem um cheiro que em tudo me faz lembrar o odor das páginas de um livro. Acho delicioso. Devorar uma fatia de pão, alentejano por exemplo, besuntada de manteiga, soja para mim, se fizerem o favor, é como ler um livro inalando os cheiros agridoce ou bafiento de um clássico ou de um contemporâneo. Saboreio a massa muito ou mal cozida com a manteiga derretida.
O fazer fácil e a qualquer hora do dia ou da noite, sem sair de casa, tem arredado o padeiro do seu ofício madrugador ou de fim de tarde. As bimbys e outros tantos mini fornos elétricos domésticos que amassam e cozem o pão, acessíveis a preços cada vez mais baixos, trouxeram facilitismo ao consumidor que já não sai de casa para ir à padaria. Um gesto perdido do quotidiano que lembra a minha meninice.
Agora um simples bip avisa o iniciar do robótico padeiro, para que, um par de horas mais tarde, um bip contínuo indique que o pão já fumega. A farinha takeaway vem com todos os ingredientes, do sal ao fermento. Sem ciência nem engenho, basta acrescentar água, seja o pão tipo caseiro, de mistura, branco ou brioche.
Até pode cheirar bem, mas o sabor, e que ninguém me convença do contrário, não é a mesma coisa. E o padeiro? Vai dando menos utilidade às mãos enfarinhadas e ágeis no amasso, com cada vez menos pão no forno (de lenha) e com menos fregueses à porta.
Como apreciadora de um fumegante pão com manteiga, (e quem não o é?), preocupa-me que ser padeiro seja uma profissão em vias de extinção. Sendo o pão um bem essencial na nossa alimentação provavelmente o padeiro será um sobrevivente. E agora algumas linhas para uma breve conjetura sobre o livreiro. Tal pão saído do forno a lenha, preterido pela máquina elétrica doméstica, também as palavras saltam das folhas de celulose impressas para entrar numa galáxia que há muito deixou Guttenberg de lado. A digital, a era Steve Jobs, que, em jeito de morte anunciada, tem minado aqui e ali a profissão do livreiro. E é vê-las a fechar, as livrarias, como tem acontecido com as padarias. A facilidade com que tudo o que se escreve é publicado e lido na ‘e-esfera’ tem usurpado as particularidades do livro lido com todos os sentidos. O som do voltar a página, o cheiro bom do papel, o sabor de cada palavra, o desenho de cada letra, o toque na ponta dos dedos e a última passagem da palma da mão na capa quando se chega ao fim…
Sou apenas uma leitora que faz uso da palavra escrita um modo de vida e de estar. Resistam padeiros e as padarias, os livreiros e as livrarias deste país. Continuem a fazer o pão que nos alimenta o intelecto. Adaptem-se, porque é o ganha-pão de muitos profissionais, mas não abusem dos ‘e-’ para isto e ‘e-‘ para aquilo!
Enquanto houver pão e livros para consumo, padarias e livrarias de porta abertas, estou certa de que os apreciadores, sejamos um ou um milhão, se manterão fiéis.
E já agora, quando anunciaram o fecho da gigante Kodak por momentos o meu ínfimo mundo parou. A adaptação à tal era do digital não foi conseguida. Acabam-se as películas, os cheiros do revelador e fixador. As reflex analógicas passam a objetos decorativos e jovens casais não sabem o que são álbuns fotográficos monstruosos. Agora os retratos de uma vida, pixelizada, amontoam-se numa única moldura, com entrada USB. É isto fotografia?

Susana Manteigas
Técnica Superior de Comunicação Social

Sem comentários:

Enviar um comentário