terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

«O problema não está nos LIVREIROS - "LIVREIRO", essa profissão tantas vezes menosprezada»

«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»
(3)


ESTA SUA EXPERIÊNCIA
QUE ROSA AZEVEDO NOS CONTA 
http://estoriascomlivros.blogspot.com/ [e aqui publicado ontem]

Quem o leu já sabe: no post que na segunda-feira passada Rosa Azevedo lançou no seu blogue «estórias com livros» o Livreiro Velho é referido de modo muito excessivo (isso sei eu muito bem, sem recurso a modéstias). Excessivo, sem dúvida, penhorante também. Devo agradecer. Mas isso podia eu fazer sem ser por aqui. Preferindo por aqui, tenho que exigir-me ir além do «muito obrigado».
1.
As coisas mudam e de repente damos por nós em novos paradigmas de significação e entendimento.
O que significava a palavra livreiro ontem e o que significa hoje? O mesmo para a palavra editor. Ainda significam o que significavam, mas também já têm outros significados. Como se lê no texto de Rosa Azevedo.
Que importância tem tomar isso como tema de reflexão? Não vejo que possa fazer esta pergunta em voz alta quem ainda não a fez no seu silêncio, começando aí a encontrar a resposta que colectivamente deve aparecer. Entender o que muda é bem mais produtivo para a inevitável adaptação do que um simples instinto de sobrevivência.
Julgo eu…
2.
Ser livreira(o), sem estatuto social nem dinheiro! Bela situação! E portanto e logo, pois, por conseguinte, por consequência...
Livrarias, bem entendido. Não falamos aqui dos antigos conceitos de livraria ou livreiro. O editor era o livreiro e a livraria era a editora. Houve uma altura em que o conceito de livreiro mudou, mas sem a reflexão que no ponto anterior se propõe para as mudanças actuais.
3.
Ao longo do meu tempo vi bem a diferença entre editores e livreiros, mas…
Quem quer vir até junto de nós e comparar com pormenores?:
- Estatuto e proventos possíveis do livreiro de livraria que fosse/seja só livraria;
- Estatuto e proventos possíveis do editor, mesmo que também fosse/seja livreiro, em livraria-editora.
Comecei a ver a diferença, mas foi só depois de muito tempo a bater com a cabeça na parede, como acontece em todos os casos de um ovo-de-colombo.
4.
No sistema em que ficou o comércio livreiro desde que começaram a lentamente demarcarem-se as profissões e as actividades de livraria e de editora, de editor e de livreiro, já no século XVIII e com aceleração no século XIX para definitiva consolidação no século XX, nunca foi possível desenvolvê-las como ao desenvolvimento da leitura e consequente rentabilidade comercial do produto-livro convinha.
O caso do lançamento da Crediverbo, com a célebre Cozinha Tradicional Portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, é arrasador de quaisquer contestação que eu próprio tente fazer ao que digo.
E, por favor, digam-me o que foi e o que continua a ser a situação de sempre nas contas correntes  entre editoras e livrarias... Comparemos de seguida com a generalidade dos outros ramos do comércio retalhista.
O que levou os livros por esse país dentro foi o comércio de papelaria. Não vale a pena fechar os olhos. Por esse país dentro, como sustentar-se com livros? Mesmo em zonas menos periféricas. A não ser excepções, com características muito particulares, com especial atenção para alguns ambientes das antigas colónias, fazer vida desafogada, como livreiro, quem a fez?
5.
Quando hoje me dizem que tudo piorou!!! É preciso dizer em quê, se não…
Há quarenta anos ainda era obrigatório inscrever-se no Grémio dos Editores e Livreiros para se fazer numa papelaria ou tabacaria alguma venda de livros… Era assim que se obtinham números elevados de ditos, mas não verdadeiros, sócios «livreiros». Como editores não eram, restava arrolá-los como livreiros… Meu país de «Os Ridículos» - um grande jornal de então!
O mesmo, a exigência de ser sócio para ter acesso a preços de revenda, ainda quiseram manter - e mantiveram por algum tempo - os editores quando se passou para a APEL, apesar da liberdade de associação instaurada por Abril. A APEL: até hoje foi incapaz de se libertar das suas contradições – que pena!
6.
Pensem só no caso mais à vista de ano para ano das Feiras do Livro de Lisboa e Porto: queixam-se inutilmente os livreiros.Vai dando ao menos para se perceber que os editores não se preocuparam com a saúde económico-financeira da rede de pontos de venda que está comercialmente ao serviço do seu produto? Alguma teoria já apareceu e também alguma prática. Até a APEL já tentou dar uma oportunidade de equilíbrio às livrarias independentes por altura das suas feiras. Disse que «tentou» e mais não disse porque a ideia é manter tudo na mesma, como é compreensível enquanto os atávicos sistemas de pensamento e acção se mantiverem.
7.
Antes da actual situação do Mundo do Livro - grupos financeiros e novas tecnologias – tinha sido muito mais fácil desenvolver o comércio livreiro, com grandes benefícios para o país atrasado que éramos e somos. E agora muito mais fáceis e proveitosa seriam as adaptações. 
Não era livre a profissão de editor no Estado Novo. Porquê?
Era livre a profissão de livreiro. Porquê?
Venham passar comigo quarenta e oito horas por conta da Pide em Setembro de 1971 e começarão a encontrar uma resposta. A começar, somente. Porque nem os editores nem nós, livreiros, podemos orgulhar-nos dos crónicos baixos níveis de leitura do país.
O pé descalço ter acabado acho que dá aos profissionais dos sapatos direito a orgulho. Se no meu tempo da primária, lá na aldeia, as crianças, todas, praticamente todas, iam para a escola descalças, não era por mais nada, era só por gosto de meter os pés nas poças e lameiros! Depois criaram-se as condições e contra esse prazer triunfou a produção e comercialização do calçado. Desenvolvimento para este  produto de mais casos se pode falar. As farmácias?
Progrediu-se. Há livrarias em muitas localidades onde nunca houve. Mas…
Que não compare outros ramos com o ramo livreiro – querem dizer-me? E não comparo mesmo, naquilo em que não é comparável, mas que sempre quiseram que fosse: o livro é um produto como os outros, foi-me dito mais do que uma vez, para justificar a fuga às exigências do que é específico do livro como produto comercial.
8.
Pano para mangas, esta conversa, se se quiser…
Não devia nem desejava ser longo. Só queria apontar para a necessidade de elevadas competências culturais para que continue viável a livraria. Mais dizendo, porém, que isso não é possível sem uma reforma inteligente das rentabilidades do comércio livreiro. Quem tem nível para ser livreiro não pode estar sujeito à remuneração que não se paga a ninguém a quem se exige essa cultura que o livro e o leitor nunca tiveram em Portugal, a não ser por excepção e em poucas terras.
9.
Repito: dá pano para mangas, esta conversa, se se quiser…
Culpados? Neste caso atrevo-me a dizer: pode haver incompetentes, ignorantes, aldrabões, caloteiros, exploradores e até estúpidos (tenho lido e ouvido gente bem pensante que não percebe nada disto a chamarem-nos tudo), mas inocentes não estou a ver.
Todos somos culpados. Porque, uns mais outros menos, todos podíamos, creio, ser um pouco mais responsáveis por aquilo em que andamos envolvidos. Ou ser ministro é um título honorífico? Com as poucas verbas atribuídas às juntas de freguesia, meu pai, quando foi presidente, ao menos isso fez: transformou numa boa rua a simples canada onde tinha a sua mercearia. Ainda hoje se chama Canada da Rebela. Foi lá que nasci, mas na altura era tão criança que não me lembro de com era dantes. Pude todavia imaginar pelo que o caso dava que falar ainda. Valeu a pena para toda a aldeia. Mudar para progredir vale bem a pena!

L. V.
[publicado originalmente em Chapéu e Bengala]

1 comentário:

  1. Caro Livreiro Velho, agradeço-lhe a sua resposta e sim, dá pano para mangas. Permita-me só completar / esclarecer o meu texto, não falo de estatuto social e sim da pressão emocional junto da família e amigos que nos julgam longe do que podemos ser inteiramente enquanto profissionais e pessoas. Para além disso falta completar a questão da remuneração. Quando não se ganha nem para viver pelo menos temos de ter alguma missão ou objectivo ou seja o que for. Ali não havia. Lá está, era viver contra a corrente. Não há romantismo que aguente. Um bem haja!

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