terça-feira, 20 de março de 2012

E eu, ainda aqui, quero acreditar que a senhora não se mudou, e pergunto-me: o que será feito da Dona Esperança?!...

                                         Fotografia de Joaquim Gonçalves


A casa da Dona Esperança

Tinha ido à papelaria comprar o JL cujo tema de capa era “Livrarias. Um mundo em mudança”.

Perto da ponte de onde se vê o porto de pesca, a anteceder o lençol azul do mar, reparei no local onde, ainda não há muito tempo, havia uma casa baixinha, daquelas antigas e modestas como as que saem dos primeiros desenhos da nossa infância: Por baixo do telhado apenas uma porta e duas janelas simétricas. Em frente e ligeiramente ao lado da casa, uma nespereira que ciclicamente se pintava de amarelo nêspera, como era de esperar. No chão, frente à porta, uns quantos recipientes – latas, caixas, objectos domésticos que perderam a utilização própria – adivinhavam-se por baixo de verdes, vermelhos, laranjas, rosas, de flores e plantas diversas - salsa, hortelã… - delimitando um pequeno terreiro. Era o quintal da casa. Ao quadro juntava-se, curiosamente quase sempre quando por ali passava, uma senhora de idade, literariamente uma velhinha, que estendia ou apanhava roupa de uma pessoa só, pendurada num arame
que, bamboleante, se tentava esticar entre a parede da casa e uma pernada da nespereira.

Passava por ali, não todos os dias, mas muitas vezes. O cenário mantinha-se. Fazia parte da paisagem aquele oásis encravado no meio dos prédios da cidade. Um dia passei e senti que qualquer coisa não estava bem no circuito rotineiro. Era o espaço. Havia espaço a mais. Via-se o bocado de campo baldio, lá atrás, até à avenida principal. Havia espaço a mais. E a casa que eu tinha como certa, porque fazia parte da paisagem; E o quintalinho, a nespereira, as flores, as plantas, que eu tinha como perenes, porque faziam parte da velhinha; E a velhinha que eu tinha como eterna, porque fazia parte da casa, nada lá estava. Nem vestígios. Tudo liso, terra lisa restolhada de uma ou outra pedra ou caliça mais teimosa que poderia ser resto de qualquer coisa.

Antes, quando ali passava, pensava na velhinha e no que seria a sua rotina: Tirar a remela dos olhos antes de dar água às plantas; dar água às plantas antes de comer uma côdea; comer uma côdea antes de se sentar num banquinho a cismar no que tinha sido e no que não iria ser; cismar no que poderia ter sido e não foi e repetir as atitudes e os gestos numa tentativa ingénua de enganar o tempo que é e o futuro que não é e o fim que é certo.

Nunca soube o nome da senhora mas, sei lá eu porquê, achei que só podia chamar-se Esperança.

Agora que aqui passo e vejo o que não é – o vazio, penso eu no descanso em que estará a velhinha. Finalmente sem ter de repetir a rotina dos enganos. Finalmente sem a sensibilidade que obriga. Finalmente, finalmente.

Passou-me tudo isto pela cabeça quando vinha da papelaria onde fora comprar o JL cujo tema de capa era “Livrarias. Um mundo em mudança”.

E eu, ainda aqui, quero acreditar que a senhora não se mudou, e pergunto-me: o que será feito da Dona Esperança?!...

Sines, 20 de Março de 2012  

Joaquim Gonçalves

1 comentário:

  1. Lindo, lindo o texto do meu Amigo Joaquim Livreiro. Uma pintura, uma ternura!
    Já viu Dona Esperança? Alguém reparou em si e nas suas coisinhas...
    Esteja a senhora onde estiver aqui lhe deixo eu também a minha saudação: Boa tarde e até amanhã Dona Esperança!

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