segunda-feira, 5 de março de 2012

«E os amontoados de livros em supermercados e feiras não são livrarias, não tendo um elemento essencial - o livreiro.»


«Não tenho a obsessão das livrarias; também não gosto de ver desaparecer uma mercearia oitocentista, uma barbearia antiga, uma alfaiataria prestigiosa, um elegante salão de chá, uma loja de brinquedos por cuja montra passei em criança, um edifício que foi um grande e belo cinema. [...] Diz-se em geral que a evolução do mundo, da cidade e dos hábitos elimina formas de comércio inadequadas ao público actual e às necessidades "culturais" em sentido amplo. Mas, se o mundo e as vontades mudam, por que é que não desaparecem tantas coisas cuja eliminação tornaria melhor a vida diária?
A Livraria Portugal era diferente; livrarias "de fundo", como ela, são as que me interessam, com livros de todos os géneros e secções especializadas, em que tenho surpresas por encontrar obras que não vejo nas outras ou nem sabia que existiam. As livrarias correntes parecem-se demasiado entre si; vivem de novidades que envelhecem depressa e ali ficam umas semanas. E os amontoados de livros em supermercados e feiras não são livrarias, não tendo um elemento essencial - o livreiro.
[...]
Quando morre um café histórico, a sensação é parecida. Como muitos notaram (lembro George Steiner), cafés e livrarias são sinais desta civilização hoje declinante.
[...]»

Francisco Belard, «Portugal, livraria», LER, nº 111 - Março de 2012, onde este texto poderá (deverá) ser lido na íntegra.

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