sexta-feira, 30 de março de 2012

«... os livros e as livrarias têm futuro: então, os leitores deixaram de existir?»


É verdade que trabalho numa grande loja onde há um espaço bem grande onde os livros se acotovelam uns aos outros na tentativa inglória de mais depressa seduzirem o incauto cliente do que o livro vizinho. E o stress é muito, os clientes são muitos mas nunca demasiados, as tarefas são muitas: descarregar paletes, atender, distribuir caixas por cada secção, atender, arrumar os excessos, voltar a atender, devolver livros parados há sabe-lá-o-diabo, destacar o que há para destacar e até aquilo que não devia ter saído de uma gaveta.

Sim, é verdade que há pessoas que trabalham em livrarias um pouco por todo o país - ou em sítios onde se vendem livros, que agora já os há em qualquer bomba - que arrumam livros como quem arruma croissants, que lê livros como quem lê marias e lux, porque a realidade, para estas pessoas, é bem mais necessária, impõe-se, acarreta peso e responsabilidade, é socialmente correcta. para estas pessoas, ler nunca equivale a viajar, nunca pode significar uma aprendizagem, nunca será o mesmo que sonhar. ler ficção - seja ela literatura ou bd, escrita na vertical ou na horizontal e em technicolor - pode constituir um escape, é verdade, mas é muito mais que isso: é quase sempre uma possibilidade de auto-descoberta ou até de epifania.

Às vezes penso que será disso que as pessoas que não lêem ou preferem não ler têm medo: de perceber quem são e o seu potencial e de ver a realidade como ela é, mutável pela nossa capacidade de agir com base no que ambicionamos e sonhamos e queremos fazer.
Ora, era eu cachopa e sonhava muito! Lia muito, conversava com os gatos e as galinhas e as personagens dos livros que tanto lia, eram os meus melhores amigos. Quando um professor me dizia para ler um livro da colecção Viagens no Tempo, eu lia vários. Quando uma professora me encorajou, aos 6 anos, a aprender inglês sozinha (na altura, só se tinha aulas de inglês a partir do 5º ano no ensino público), comprei a Essential Grammar in Use de Raymond Murphy da Cambridge e depois das férias do verão, já tinha feito todos os exercícios. A minha determinação e optimismo provinham do encorajamento que a leitura me dava, para além do prazer simples da história a desenhar-se diante dos meus dedos: se ao ler, eu aprendia coisas que me tornavam mais conhecedora do mundo e se revelavam úteis no meu dia-a-dia num bairro social quase ghetto dos anos 80, onde alcoolismo, drogas, abusos e violência eram diários, a solução era continuar a ler, ler muito e ainda mais.

Se, por um lado, cresci na cidade, foi no campo que aprendi mais sobre a delicadeza das relações humanas e a fragilidade do coração.
Lembro-me de um estio deslumbrante, tinha eu uns 8 anos, estava em casa dos meus avós a passar as férias grandes e tanto insisti com o meu avô que ele, finalmente, acedeu a dar-me um dos livros da sua biblioteca para ler. Empurrei lentamente a porta envidraçada, a porta do lado esquerdo a fingir que escondia uma teia de aranha, a luz a entrar pela janela a oeste e a esbarrar nela.
Tirei um livro ao acaso: Eurico, o presbítero. Alexandre Herculano era difícil com aquela idade. A minha mãe ensinara-me a ler aos 4 anos e era uma habilidade de cariz circense, quase, porque não conhecia ninguém que não convidasse moscas com seu espanto ao observar-me a ler em voz alta (algo que ainda hoje me dá gozo), mas Herculano era mesmo difícil. Infelizmente, o meu avô era muito perspicaz e se notasse em mim a mínima hesitação ou o esfriar do meu entusiasmo, certamente teria sido banida da biblioteca por algum tempo. A minha mãe chamava-me teimosa com frequência, e não larguei aquele livro o verão inteiro.

Com certeza que os livros e as livrarias têm futuro: então, os leitores deixaram de existir? Claro que não. A internet é um bicho? Não é nada, eu estou sempre a pesquisar milhares de livros aqui e depois compro-os onde? Na Fnac, no senhor André da Livraria Lácio (aprendi tanto com esse grande livreiro, desde 1994 a formar a livreira Sandra), na Antiga do Carmo onde ia com o meu avô quando ele vinha a Lisboa. Nada substitui essa experiência, quanto a mim, onde se inclui a conversa lúcida com o livreiro ou, quem sabe, com outros leitores.

É essa experiência que eu tento reproduzir há 12 anos, desde que trabalho com público e com livros, e é esse caminho que quero continuar a trilhar, bem-disposta e apaixonada. E um dia, quando tiver a minha livraria - onde o tempo não vai correr como corre numa fnac - também eu vou formar livreiros. Por enquanto, vou dar o meu melhor e estar consciente de que ainda não chega.


Sandra Oliveira
Livreira, Fnac Chiado (Lisboa)

Sem comentários:

Enviar um comentário