segunda-feira, 26 de março de 2012

«Os tempos vão difíceis para o livro tradicional. Há contudo para aí muita malta resistente que adora a Internet mantendo-se entretanto fiel ao velho livro.»

Caros:

Como o nosso amigo Manuel Medeiros já fez o favor de me enviar de véspera o texto que vos leu (vai ler?), já sei que motivação psicológica e incentivo não vos falta neste momento, porque estimular e espicaçar as pessoas à acção e à cooperação é cá com o "nosso Manel", como os amigos lhe chamam.

Sugeri-lhe que talvez os presentes esperem da sua liderança algumas sugestões de pontos concretos para discussão - pequenos, médios ou mais largos gestos de cooperação para melhoria do statu quo. Não significa que seja ele a determinar a agenda, mas que seria bom sugerir possíveis pontos de discussão para que o encontro não redunde apenas num convívio, porém que dele surjam passos concretos, ainda que pequenos, rumo a uma melhoria do estado de coisas.

Estou a meter a foice em seara alheia. Tenho uma pequena editora aqui no meu Departamento, que fundei e dirijo, destinada a divulgar em inglês obras da literatura e cultura portuguesas, todavia não tenho nenhum jeito para livreiro, se bem que essa seja uma profissão que admiro imenso e bem gostaria mesmo de a ter se não fosse professor. No entanto, sou deveras desastrado nesse domínio. Quando era estudante e vivia em Setúbal, um dia foi-me pedido que fosse para aí (a livraria então chamava-se Culdex) substituir um colega meu que adoecera e aí trabalhava em part-time. Fui. O gerente tentou orientar-me porém, a dada altura, testemunhou uma cena fatal para a minha curtíssima vida de livreiro: um cliente entrara a perguntar por um livro. Verifiquei que a livraria não tinha, mas sabia onde se encontrava à venda e sugeri-lhe que fosse lá adquiri-lo.

Foi o meu fim. Nunca mais tive hipóteses de vender livros. Só sirvo para consumidor. E em que consumidor deles me tornei! Já escrevi uma crónica sobre livro como o meu último fetichismo e aos poucos a minha casa vai-se parecendo mais e mais com uma livraria. Todavia não vendo, só compro.

Os tempos vão difíceis para o livro tradicional. Há contudo para aí muita malta resistente que adora a Internet mantendo-se entretanto fiel ao velho livro.

O Luís Guerra pediu-me que teclasse esta mensagem e ela aí vai com a minha pena de não ser eu a lê-la em pessoa, sinal de que estaria aí com vocês num convívio rodeado de cheiro a papel antigo, que nunca o há a mais, pese embora o que o Manuel apregoa em título de um deles.

O meu abraço deste outro lado do rio Atlântico, com votos de uma grande jornada de trabalho profícuo e solidário.

Onésimo
Westerly, Rhode Island, 24 de Março de 2012


[Mensagem de quem, não podendo ir a Setúbal, também quis participar no III Encontro Livreiro]

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