quarta-feira, 21 de março de 2012

Sou filho da Mãe Terra e da Leitura / e enquanto passa a vida que me resta / agasalho quem sou / nesta manta que são os livros...

           
[No dia 21 de Março - Dia Mundial da Poesia] 

 

                                           Pedro Vieira


A LEITURA


                                                                       Poema escrito no último sábado
                                                                         da vida de meu irmão Aristides

I
A vida não se ganha. Perde-se.
Gostaria de saber
se construir um barco
ou desenvolver um novo raciocínio matemático
é mais difícil
do que escrever este poema.
Se eu fosse inteligente
compreenderia muito melhor
que a vida não se ganha, perde-se.
Estava escrito e diante dos olhos.
Revejo o meu avô cortando, quase junto à terra, 
a figueira doente.
Tempos depois, 
o velho tronco era em rebentos
a vida renovada.

II
Se eu fosse inteligente
não precisaria de escrever este poema dedicado
a saber que a vida não se ganha, perde-se.
Leria o mundo, os poetas, os sábios.
Em silêncio, ouviria música.
Se chegasse alguém,
partiríamos o pão como quem sente a vida
muito mais verdadeira entre nós
do que em cada um.
Se eu fosse inteligente
compreenderia a vida muito melhor,
seria simples
e um grande silêncio talvez fosse 
o meu poema necessário.

III
Vivo no meio dos livros. Alto preço 
paguei por esta escolha.
Ele há vidas assim. Há tantos modos
de se passar pelos destinos
em que está embarcada a vida humana.
Contas-me o teu? Ou preferes passar
em senhor de ti, mais um que crê na ilusão
do seu ontem, hoje e amanhã?
Por mim, preciso
de uma certa distância para ver 
que o tempo não me esconde, em quem sou, 
isto que sou tão simplesmente.
Por isso leio.
Quero ler e reler:
«Quando voltou a despertar,
interrogou-me sem descanso,
mas adiei as respostas
até ao dia seguinte»*.

IV
Não me interrogues mais, pois forçarias
que te citasse o sonho da noite anterior.
Dir-me-ias que também o leste e que é só literatura?
Em resposta não te esconderia
já ter passado muitas vezes
por essa confusão entre vida viva
e literatura oca.
Foi por isso que voltei
a ler peças de teatro.
Que bom terem-se escrito
peças de teatro!
Compões a cena e basta
uma palavra, ao gesto que se exige,
para ser dita a vida como a viste.
És tu, pois, que fazes o teatro.

V
Não posso ler apenas as palavras,
teria de saber todas as línguas.
Oh! quanto eu veria mundos novos
se ao menos de línguas eu soubesse!
Mas talvez nem assim me conformasse
com ler apenas as palavras.
Compreendo que leio
porque não sou inteligente. Pois se o fosse
não precisava de ler como preciso
para ver se não sou inteligente.
Se as palavras abrem
os meus olhos para ver o que sou e este mundo,
é arte ou fogo o que contêm?
É água, é ar ou luz?
Eu quero crer
que é pura inteligência.

VI
Como é que foi, em nossas mãos
de simples animais que a Terra fez,
este poder de escrita, este criar,
para o poder de ler, 
a fórmula perfeita de entender
que para ser inteligentes
nem a beleza do mundo nos bastava
ou a verdade dita de uma só vez?
Sou filho da Mãe Terra e da Leitura
e enquanto passa a vida que me resta
agasalho quem sou
nesta manta que são os livros dando
a luz e o calor da inteligência
com que vou em perder minha existência.

Resendes Ventura, Papel a Mais - Papéis de um livreiro com inéditos de escritores, Lisboa, Esfera do Caos, 2009.

* [H. Rider Haggard, She, trad. de Emanuel Lourenço Godinho, Estampa]

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