segunda-feira, 23 de abril de 2012

«Dia Mundial do Livro, a Festa do Livro que os livreiros promovem como sua?»


1.
Entre 2012 e 1996, escolhemos o ano 2006 para documentar a afirmação de que é verdade que alguma coisa se tem feito [ver fotos em Chapéu e Bengala]. Os vivos e os mortos são testemunhas, para além de cúmplices. Mas há mais uma razão para evocar 2006. Aquela palavra do cartaz, Primavera de Livros, evoca um célebre acontecimento. Vale a pena lembrar o importantíssimo acontecimento dessa Primavera de 2006? Aqui se evoca hoje o lançamento do Plano Nacional de Leitura, sintomaticamente desviado de festa em 23 de Abril para festa na inauguração da Feira do Livro de Lisboa: (http://alcameh.blogspot.pt/2006/06/o-pnl-na-feira-do-livro-de-lisboa.html#!/2006/06/o-pnl-na-feira-do-livro-de-lisboa.html).
Saudou-se o lançamento do Plano Nacional de Leitura. Criticou-se a exclusão das livrarias na nomeação explícita de parceiros. De qualquer forma foi uma grande esperança e nem tudo foi perda de meios e entusiasmos. Mas não vale a pena perguntar se toda a gente que acompanhou o desenvolvimento do PNL está satisfeita. Alguns dos seus críticos bem que podiam dizer e fazer mais qualquer coisa.

2.
O modelo de celebração do Dia Mundial do Livro continua a ser a Catalunha e especialmente Barcelona, com a sua bela tradição de uma rosa e um livro. Copiá-la ou adaptá-la?
No primeiro ano, de colaboração com a APEL, os catalães fizeram chegar as rosas às livrarias portuguesas para implementar o Dia Mundial do Livro, cuja proclamação pela UNESCO era a consagração do seu festivo 23 de Abril. Cópia sem continuidade. A tradição da rosa é local, muito anterior a 1926, quando se lhe junta o livro. Não deixa de ser linda, mas implantá-la… E a adaptação? Ao longo destes anos todos como se afirmou em Portugal a comemoração do Dia Mundial do Livro?

3.
Repetir, antes de responder, que alguma coisa se tem feito. Mas…
Não parece contestável a afirmação de que em Portugal tem pouca expressão a comemoração do Dia Mundial do Livro. É pena. Um país que, finalmente e já há algum tempo, se apercebeu do seu atraso quanto a níveis de leitura, só sabe fazer alguma coisinha por contabilidade e sem visão de rentabilidade. Editores? Festa do Livro, para os editores portugueses, são as suas anacrónicas Feiras do Livro. Pintadas de fresco embora, continuam anacrónicas. Nenhum livreiro pode aceitar o modo de ver que consagra um tal anacronismo. O que é de pasmar é que, salvo raríssimas excepções, dele não se tenham apercebido os nossos intelectuais. Pelo contrário, é vê-los em sessões de autógrafos a fazer o jogo das aparências, umas vezes com real promoção de vendas, mas em grande parte apenas com promoção de moscas.

4.
Respirar em vício de Portugal das Lamentações não é o mais saudável. Há que fazer mais e queixar menos. Mas não é por isso que se deixará de acusar quem tem culpa. Acusemo-nos a nós mesmos, os livreiros que desejam de há muito um outro modo de estarmos com os livros na sociedade portuguesa. Há muito que devíamos ter-nos reunido e unido para conseguirmos fazer do 23 de Abril de cada ano o dia da nossa festa. Adaptarmos a celebração do Dia Mundial do Livro ao nosso ambiente deve talvez ser assumido como um dos temas fortes do Encontro Livreiro. Sem excluir, de modo algum, a promoção de vendas, mas acreditando que ela é promovida automaticamente pela festa. Dia Mundial do Livro, a Festa do Livro que os livreiros promovem como sua? E se…? Mas que é possível, isso é.

L. V.
[texto originalmente publicado no Chapéu e Bengala]

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