domingo, 1 de abril de 2012

Texto do III Encontro Livreiro [Manuel Medeiros]

Nota prévia: 
Para cada um dos dois encontros anteriores Luís Guerra redigiu e leu um texto. No terceiro encontro não achou bem ser ele a redigir um novo texto, nem por isso admitindo a sua falta. Por isso pediu a outro de nós que dele se encarregasse. Fica assente, pois, mais este ponto: haverá em cada ano um novo «Texto do Encontro Livreiro».

Manuel Medeiros lendo o Texto do III Encontro Livreiro

Último domingo de Março de 2012 e o Encontro Livreiro de novo a acontecer. O que dele se espera é que se vá afirmando como um bom contributo para a criação de novas perspectivas e novos modos de estar no Mundo do Livro, o que implica um propósito de continuidade.

Acontecendo assim no último domingo de Março e aqui em Setúbal, já por três vezes e em três anos consecutivos, o Encontro Livreiro pode e deve considerar-se instituído ou implantado entre as Gentes do Livro, assim justamente designadas.
Gentes do Livro é uma designação adequada para abrir o Encontro Livreiro à participação de todos quantos se reconhecem, de um ou outro modo, no culto do livro.

Estabelecida a livraria como ponto de encontro para o Encontro Livreiro. Porquê? À pergunta a livraria não deve responder como espaço físico, muito menos na era em que a palavra se ouve dizer na bonita expressão «livraria on-line», bonita expressão pela conquista que se lhe subentende para a difusão do livro e desenvolvimento da leitura.
O Encontro Livreiro acontecendo na Culsete, até agora e até o espaço o permitir, mas isso foi e vai sendo assim por razões de prazer e praticabilidade. Na Culsete e não da Culsete, como se sua propriedade ou em sua dependência.
A livraria é o nosso ponto de encontro porque é isso mesmo que um bom leitor reconhece numa livraria, em relação aos livros e autores que encontra e lê, e, também, porque muito a livraria é um dos problemas de que as Gentes do Livro têm de aproximar-se e ocupar-se, como aliás se está a perceber que já vai acontecendo, ao menos pelo que tem vindo à pena de uns quantos jornalistas culturais, alguns muito próximos desta iniciativa do Encontro Livreiro.

As Gentes do Livro, por falta de respeito para com a função da livraria, são, também por isso e colectivamente, responsáveis por uma grande percentagem dos atrasos culturais, sociais, económicos e políticos do país que somos. E ninguém escapa. Colectivamente, bem entendido. Nem os próprios livreiros, na crónica incapacidade de darem solução à sua pedintice dependente. Nem também, de modo nenhum, além deles e dos políticos, escapam os escritores, os editores, os professores, os jornalistas e, em geral, as pessoas instruídas ou doutas, assim apresentadas por seu grau académico.

Deixar de acreditar pouco e sonhar pequenino! As livrarias não estão condenadas à simples luta pela sobrevivência, modo de luta talvez o mais inútil e provavelmente fatal. É possível acabar com lamentos sem eficácia se cada um dos referidos sectores assumir as suas responsabilidades e contribuir com a sua parte nas soluções desejáveis e evidentemente realizáveis, embora difíceis, como se é obrigado a dizer.
Felizmente que sempre houve e cada vez há mais outros modos e meios para se chegar aos livros. Temos de o dizer e assumir por mais que nos desagrade a nós livreiros. Dizemo-lo porque reconhecemos que, sem esses outros modos e meios, os nossos níveis de leitura ainda mais baixos seriam.
Quanta dificuldade! A dificuldade de acesso ao livro foi, tem sido sempre, muito grande e para muita, mesmo muita gente, neste maravilhoso Portugal. Se alguém intentar negá-lo que seja deixado a falar sozinho ou a ler, por exemplo, Raul Brandão. Desde o analfabetismo à impossibilidade de expansão do comércio livreiro, por este ser muito pouco atractivo financeiramente, é fácil encontrar as razões por que a livraria não se desenvolveu e o livro não se desenvolveu e a leitura não se desenvolveu: um atraso de vida!

O Encontro Livreiro pode considerar-se instituído, já se disse. Mas não deve ser entendido nem desejado como uma instituição. Simplesmente um movimento. Realiza, é certo, um evento anual de convívio com esse nome de Encontro Livreiro. Mas é isso mesmo que aqui se entende por encontro: movimento em que ao convívio se chega e dele se parte.

O Encontro Livreiro é simplesmente um movimento de aproximação entre quem, vivendo e trabalhando no meio dos livros, já percebeu que não faz sentido, hoje mais do que nunca, andarmos a esforçar-nos cada um por si, numa guerra que só pode ser vencida em comum, lado a lado. Se é que se pretende merecer que o livro continue a ser uma das mais ricas potencialidades criadas pelo homem civilizado para progredir em direcção a todas as suas utopias e ambições e conseguir que, trabalhando com ele e para ele, se vão colhendo bons proveitos e justos proventos.

Para que a Humanidade continuasse a criar-se em desenvolvidos conhecimentos e artes, o contributo do livro foi admirável e sempre se dirá que incalculável.
O livro vai continuar. Nós queremos. E mesmo que não quiséssemos, ainda assim continuaria de um ou outro modo, connosco ou sem nós. Mas decidida e seguramente nós queremos! Como pudermos e soubermos. E o que não queremos é que continue de uma maneira qualquer. Vai continuar e exigimos, de nós e dos outros, que seja da melhor maneira.

Por mais que hoje os indivíduos, os grupos e mesmo as nações sejam impotentes para influir na progressão dos modos de sermos a Sociedade Humana mais humana que todos desejamos, não podemos demitir-nos nem desprezar a nossa gota de água, sem merecermos, por isso, um convite a sairmos da carruagem em movimento, um movimento veloz e acelerado que com toda a justiça nos trucidará: encerramentos, desaparecimento.
Queremos que o livro e as livrarias não fiquem para trás na corrida para o futuro e, sem receio de sermos contraditos, afirmamos que já perdemos muito tempo e oportunidades, sem necessidade nenhuma e sem dúvida por falta de discussão, de autoridade, de isenção, de imaginação e coragem.

O Encontro Livreiro tem estas perspectivas de base, mas não se lança nem nos lança para as nuvens. Somos nós que participamos nele e estamos aqui, encontramo-nos e convivemos, nesta satisfação de irmos juntos para onde desejamos. E é por isso que «Isto não fica assim!».
Aqui estamos nós e conscientes de que há muito quem também queira tudo o que nós queremos, mas não confia em ninguém e por isso não se dispôs a vir conviver connosco.
Viemos aqui descontraidamente encontrar-nos uns com os outros para, convivendo, passarmos a conhecer-nos ou a conhecer-nos melhor, trocando ideias e imaginando futuro. Para trás essa pequenez dos que se julgam melhores do que os outros. Nem mais nem menos importantes uns do que os outros, apenas cada um em seu papel e seu lugar. Acabar com o encardido individualismo. Um individualismo inevitável em muitos casos, concorde-se.
Inevitável? Em que sentido? Por querer respeitar-se, houve quem se ouvisse nesta pergunta: «acreditar em quem, contar com quem?». E haverá por aí muitas histórias semelhantes, por não se ter encontrado quem se respeite a si e respeite os outros, quem, portanto, mereça um respeito e confiança capazes de produzir associação e colaboração, em ordem a objectivos comuns.

O Encontro Livreiro pode ser um ponto de partida para alguma coisa, mas, se progredir igual a si próprio, nunca poderá ser, para seja o que for, um ponto de chegada. É fundamental que se mantenha fiel à sua condição de encontro em função da convivência entre pessoas que têm em comum a convivência com os livros.

Pessoas e livros! qualquer que seja o futuro do livro, qualquer que seja o modo de sobrevivência das livrarias!
Se estivermos de acordo, poderá sair daqui um apelo aos profetas da morte do livro e do desaparecimento das livrarias para que sejam mais comedidos nas suas certezas ameaçadoras e dediquem a sua atenção a melhor compreendermos o presente, eles e nós, o que não é nada fácil nem será trabalho menor. Alguém até poderá dizer-lhes: «se ainda estivesse em forma para agarrar um futuro meu, nada, a não ser a minha curteza de vistas, me convenceria a deixar cair os braços, em meu trabalho livreiro, perante as realidades actuais em mudança».

Sem adaptação, que vida seria a Vida? A História da Vida, a História Humana, a História tout court, é uma história de mudanças, de adaptações, de novos modos de ser e de estar. É tão eloquente estar preocupado com o fim do livro ou da livraria como com o fim da espécie humana ou o fim do mundo. A Ecologia e os avanços da Física também procurando, prevendo e anunciando um destino.
Morrem as formas e renova-se a arte! Esta é a resposta para o desafio das mudanças.

Estará por aí alguém a sentir inveja dos livreiros do futuro?
Se os novos meios e modos de produzir escrita, de aceder à leitura, de produzir e comercializar o livro forem dedicados às pessoas e por pessoas dedicadas à escrita, ao livro e à leitura…
Se…
Porque, se se quiser, é possível. Como nunca! Os meios são imensos e avançadíssimos, em comparação com os do passado. Daí a inveja, justificadíssima inveja!
Temos de concordar com o invejoso: amanhã será melhor, porque há mais e melhores meios.

Neste ponto alguém nos dirá: «e as livrarias que fecham?»
Por favor, venham com isso, sim, mas caso a caso! Há casos difíceis de aceitar e que põem o dedo na ferida e há também aqueles outros em que é natural o encerramento. Sempre aconteceu. E com tantos ataques à boa saúde não seria de espantar que houvesse ainda mais desaparecimentos. De facto, a resistência dos livreiros é admirável e só se explica pela paixão e pela carolice.
Há, porém, o outro lado deste disco. É obrigatório fazer a outra pergunta: «e as livrarias que estão a renovar o panorama livreiro português com um novo modo de ser livreiro e de servir a leitura?»
São poucos, os bons e os novos livreiros?
Muito poucos e sabemos porquê. Mas esta questão dos poucos é muito curiosa! É uma vergonha de vida, neste belo país, termos de falar de assuntos sobre que não há investigação suficiente -a nossa tão autorizada ignorância!…
Como é que estamos em Portugal, quanto a história e sociologia da leitura e do livro e da edição e do comércio livreiro? No Encontro Livreiro, e não só, já temos quem, felizmente, pode responder com autoridade. Que investigação sobre livrarias? A investigação que está por fazer sobre as livrarias no nosso país crê-se que isto confirmará: estamos muito melhor hoje do que quando, lá pelos anos cinquenta do século XX, ele, o jovem que andava por essa altura nos seus vinte anos, ia imaginando uma Grande Livraria Açoriana. Nem uma havia em qualquer das nove ilhas!
E por cá, no Portugal continental? Muito melhor? E como estamos, ainda hoje?
Melhor, sem dúvida. Mas…

Há quatro décadas o mesmo jovem, já com mais uma dúzia de anos intensamente vividos, começou em Lisboa uma carreira livreira que veio a assentar em Setúbal. Assistiu, pois, de muito perto, a tudo quanto, no entretanto, de bom e de mau no mundo do livro e da leitura se viveu em Portugal. É evidente que não se foge aqui, infelizmente, à tal regra da insuficiente investigação. Não está feita uma investigação que possa arbitrar a discussão sobre melhor ou pior, neste assunto de livrarias, em antes e depois. Mais do que por uma tese, portanto, fala-se por um sentir experiente e alguma observação, ao afirmar que houve progressos e que se continua a progredir no conceito de livraria e de livreiro.

Que se apontem, devem ser apontadas, as experiências feitas, hoje e já ontem, de norte a sul do país. Precisamos de estudar e divulgar o que de bem feito se faz. Talvez em mais livrarias do que se pensa. Uma convenientíssima justiça em que o Encontro Livreiro pretende colaborar com a sua iniciativa de atribuição do diploma dos Livreiros da Esperança. A partir deste III Encontro Livreiro, em cada ano e nova edição se há-de reler em A Praça da Canção de Manuel Alegre o poema «Livreiro da Esperança».
Momento muito feliz deste III Encontro Livreiro, a entrega que vai fazer-se a Jorge Figueira de Sousa do diploma de Livreiro da Esperança 2012! Nesse momento mais se vai falar da iniciativa e da sua relação com «o signo da esperança no futuro da leitura, do livro e da livraria», sob o qual o nosso encontro anual foi proposto que se realizasse agora, em 2012, conforme a seu tempo foi divulgado no «Isto não fica assim!», que é, como todos sabemos, o nosso blogue do Encontro Livreiro. Não nos detenhamos, pois, neste ponto, que outros também pedem uma devida atenção.

Com efeito… «E o digital, o on-line?» De modo algum este ponto poderia faltar! É indispensável ir discutindo, tomar posição.
Responder por perguntas. Esse é que é o perigo temível e temido, o digital, o on-line? Perigo porquê? E para quem? De certeza que só para quem está doente e creio que colectivamente todos o estamos um pouco. Foi por isso que se disse que o Encontro Livreiro pode ser um ponto de partida. Um longo caminho de reflexão, discussão e acção está aberto e em várias frentes. O Encontro Livreiro é mais uma delas e crê-se que veio ocupar um vazio ou um modo de estar que é indispensável. E não apenas se há-de ficar por umas preciosas horas de convívio, num belo domingo de início de primavera, numa cidade nem a norte nem demasiado a sul, ideal para as Gentes do Livro de todo o país se encontrarem em almoço amigo e em tarde de conversa, a saborear o melhor moscatel do mundo.
Diz-se «não apenas» porque durante todo o ano as pessoas se vão encontrando e, com estas maravilhas da internet, nunca se interrompe o diálogo. O «Isto não fica assim!» vai ser cada vez mais um determinante ponto de encontro na conjugação de ideias e iniciativas das Gentes do Livro. Porque, de facto, para acreditar em que «isto não fica assim» terá de se contar com a disponibilidade e colaboração de todos.

Quem se dispôs a participar nos encontros anteriores e neste terceiro igualmente, saberá de suas razões pessoais, mas todos em conjunto sabemos que participamos por nada, a não ser por um autêntico interesse na valorização das nossas actividades e por afirmação de convicções referentes ao mundo do livro, da livraria, da leitura. Há aqui a consciência de que se seguiu o caminho mais difícil para levar por diante, e com êxito, esta iniciativa. O Encontro Livreiro teimou e teima por nascer e crescer de dentro para fora, como nos ensina a terra quando decide levar a fruto uma semente. Neste nosso tempo, por boas e más razões, fomos levados, como nunca dantes, a viver virtualmente, num modo de estar muito artificial, dominantemente ficcionado, aparente. A imagem é que é indispensável ao convencimento. Fazem alguma falta, as razões? O aparente é o credível, o que se vê é que existe. O real tem muita dificuldade em convencer-nos de que as aparências iludem. Ao ponto de o dinheiro, um simples valor fiduciário, se tornar senhor de todas as coisas. E o princípio que comanda aí - o financeiro acima do económico, comanda em tudo. Ora, o Encontro Livreiro, num ambiente assim, ao querer que as coisas sejam valorizadas pelo que são, não pelo que as pessoas dizem no palco, mas no seu íntimo, é utópico. Lançar desse modo uma iniciativa é acreditar ou com muita ingenuidade ou com muita serenidade e segurança em que no homem há muito mais a admirar do que a desprezar.

Há quem pode e há quem queira: com quem se há-de contar?
Sem reticências, no Encontro Livreiro só é possível contar com quem quer, esperando, sem a mão de pedir estendida, que quem pode também queira.
Tudo, no irmos em frente, vai depender de não andarmos a contar com quem está no seu direito de não vir connosco, mas de, muito positivamente, todos os que acreditamos na boa convivência e na necessidade de convergir em Encontro Livreiro, sentirmos que vale a pena. Sempre o sentirmos!

M.M.
2012
Setúbal
Último domingo de Março

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