domingo, 13 de maio de 2012

«Qual foi o mal que os livreiros fizeram (...)»


1.
Mesmo para quem já lá foi ou quem à mesma lá for, honro-me em transcrever de http://livrariapodoslivros.blogspot.pt/ este post que…
Acusem-me e com razão de muitas coisas, de muitas quixotices, por exemplo. De cobardias é que não. E quando amigos meus deram em cobardes, olha!, acabou-se... Com muita pena, mas…
E também peço que desta vez não me acusem do vício e abuso das reticências. É muito tarde para dizer quer o que disse durante mais de quarenta anos, quer o que o sangue já não leva do coração à cabeça.
Quinta-feira, Maio 10

«Morto entre os vivos e vivo entre os mortos». É assim que um livreiro se sente durante a Feira do Livro. Qual foi o mal que os livreiros fizeram para serem castigados por uma concorrência tão desleal? Não criamos valor? Não damos emprego? Não pagamos impostos? Não divulgamos o livro? Porque que razão não se cumpre a lei da concorrência e do preço fixo na Feira do livro?
É fácil constatar que, nesta Feira do Livro, não há lógica, moral ou camaradagem. Porque é uma Feira onde não há leis, onde se praticam maiores descontos que na campanha do Pingo Doce e ninguém diz nada ou fica indignado com o dumping. É o valor que damos à cultura. Estamos a falar de uma Feira que não dignifica o livro nem os autores. Uma Feira do salve-se quem puder. Feira que não é mais do que o prenúncio de uma morte anunciada. 
Jaime Bulhosa

2.
2012-82=1930+39=1969+43=2012.
O mal que os livreiros fizeram foi serem como somos, em país e não apenas na profissão, uns protegidos sempre a pedir milagres em Ourique ou em Fátima para que do alto nos venha o que nós é que devíamos fazer.
Em 1969 era eu um principiante na profissão de livreiro estava mesmo nas primeiras semanas de gerência de uma nova pequena livraria quando foi o tempo da Feira do Livro de Lisboa, a 39.ª. Foi logo aí que, por lição de colegas, antes da experiência própria, tomei consciência da enormidade do abuso que a feira era contra o trabalho do comércio livreiro independente: fui convidado para fazer parte de um grupo que reuniu representantes de dezassete livrarias independentes de Lisboa que discutiu a concorrência desnaturada que a Feira constituía para nós. Anotar que todos, nesses tempos de Estado Novo, éramos obrigatoriamente sócios do Grémio de Editores e Livreiros.
Resultou em alguma coisa? Em pouco, talvez, mas muito representativo. Houve alarme nas hostes e foi nesse ano que as novidades deixaram de vender-se na feira com o então estabelecido desconto-de-feira, os célebres 20%. Hoje isso  hoje…
Que posso acrescentar que exprima melhor o que desejo se pense? Reticências. Só reticências. Porque éramos só dezassete livreiros e, tal como eu, quase todos pouco importantes. Pequenos livreiros, mas dezassete…

3.
Ia ter um desgosto se a 82.ª Feira do Livro de Lisboa chegasse ao fim sem que ouvisse a voz contestária de Jaime Bulhosa. Aquela boa memória que trago do ano passado e não só. Que se ouça uma voz, ao menos uma! Que não ceda à inevitabilidade, que não se acobarde perante…

4.
Uma das discussões públicas em defesa da acessibilidade ao livro aconteceu quando a este foi aplicado o I. V. A. Há-de haver quem se recorde da contestação que exactamente na Feira do Livro de Lisboa de então uns quantos representativos, respeitados e sem dúvida respeitáveis escritores portugueses fizeram. Natália Correia, a Grande Natália, por exemplo. E aquele olhar dela a parar num ouvir o sentido do que ouviu: «E no pão? Porque não reclamam antes de mais contra o I.V. A. no pão?»!?!
Se os nossos escritores são o espelho da nossa inconsciência em vez de vozes esclarecedoras da consciência colectiva, a Feira do Livro de Lisboa pode e até talvez deva ser o palco de contradições, entre o mal de raiz e o bem de ocasião, que tem sido desde sempre.
Há quarenta e três anos que vejo as altas patentes da cultura portuguesa e da gravataria política curvadas ao faz figura de… em que a feira lhes… e que…
Até se compreende que na sua ingenuidade de interrogações vejam apenas os lados positivos da feira. São inegáveis. Tanto como os negativos, muito determinantes de mudanças e que muito deviam ter exigido e devem exigir que calmamente se discutam. A fundo!

5.
Já não será correcto discutir nos termos de há quarenta anos, os aspectos positivos e negativos das feiras do livro portuguesas. São apenas uma parcelazita das problemáticas actuais em que o comércio livreiro se vê envolvido. Se eram parcela antes, hoje muito mais pequena. Mas… É que a tal lógica errada que está a reger as feiras do livro portuguesas há oitenta e dois anos, essa é tão errada hoje como sempre foi. Se um milagre a corrigisse, ah!, isso aí!…
Mudava o quê? Tudo! Quase tudo! Muita coisa! Só que para isso era necessário que…
Não quer dizer que não haja gente para isso, não sei é se quem deve sabe e se quem sabe pode. Preferia mesmo que fossem os escritores e jornalistas culturais a tomarem a dianteira aos livreiros nesta discussão, mas o que nunca consenti nem consentirei é que os livreiros se queixem ante mim nem de Santo António, a 13 de Junho, nem da Senhora de Fátima, a 13 de Maio. Porque Jaime Bulhosa bem tentou fazer vingar a iniciativa de uma associação portuguesa de livrarias independentes que colaborasse com a associação dos editores numa nova política do livro, mas… Como se, sem criarem juntos as condições de sobrevivência, os livreiros independentes pudessem sair desta derrota de asfixia a que, com e sem crónica, vem aplicada a pessimista conversa da«morte anunciada».

6.
«Que tal “lógica errada” é essa a que te referes, coincidindo com o “não há lógica” de Jaime Bulhosa?»
Se esta é a pergunta que alguém vai querer fazer-me, tenho de ter cuidado. E fôlego? – replicarei. É que para mim é tarde para lutar pelo meu trabalho e interesses. Só me restam causas e cara. Só vim por pedir a Jaime Bulhosa e a mais uns quantos livreiros que não virem a cara. Porque…

Manuel Medeiros

[Culsete]

2 comentários:

  1. Não imaginam quanto, apesar de nets e afins, a província continua longe da cidade. De todo o inteligente texto de MM realço quem assobia para o lado: "Preferia mesmo que fossem os escritores e jornalistas culturais a tomarem a dianteira aos livreiros nesta discussão". JG (não consigo comentar sem ser em Anónimo...)

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  2. Concordo em linhas gerais com as crítica feitas neste blog a diversos aspectos da Feira do Livro principalmente no que se refere aos descontos feitos de forma irregular sobre as novidades.
    Obviamente as questões fundamentais do mercado livreiro vão muito além da Feira do Livro, um evento anual, e têm a ver com a crescente concentração na área editorial e livreira (além do problema da distribuição) que está a ter um impacto negativo tremendo sobre as pequenas e médias livrarias e editoras.Quanto a isto não adianta ter ilusões os interesses dos grandes grupos não são comuns, nem coincidentes, com os dos pequenos e médios editores e livreiros.

    E. S.
    Livraria Letra Livre

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