quarta-feira, 27 de junho de 2012

«Ainda não sei encadernar, mas estou muito orgulhosa e confortável na minha situação de aprendiz numa oficina de dois aristocráticos operários [...]»

Aprendiz de Encadernação


A encadernação é um processo de conservação dos livros e simultaneamente uma arte.

E se hoje em dia pouca atenção se dá a esta arte, tanto mais que cada vez menos encontramos profissionais do ofício, ela constitui uma profissão que a meu ver deveria ser valorizada.

Ultimamente mercê das novas tecnologias, os livros passam do seu suporte de papel para um suporte electrónico. A tendência geral é a proliferação do e-book em detrimento dos livros como os conhecemos durante tantos séculos.

Considero que até aos anos 80 (+/-) do século passado a edição era vista e realizada de modo totalmente diferente dos dias hoje.
Actualmente interessa colocar “mercadoria” no mercado e construir à volta dela uma bem planeada acção de marketing. É secundário o conteúdo do livro; interessa sobretudo que o livro venda e que conste dos tops, alguns deles de duvidosa informação. Claro que há excepções, que só vem confirmar a regra...

As primeiras edições de cuidadosa feitura, sem gralhas, elegantemente impressas em páginas de gramagem agradável ao tacto, cuja lombada não se descolava e de tiragem verificada, são livros que hoje são raros a serem publicados. A edição era uma acção cultural e de prestígio. Hoje, é mais uma acção comercial.

Uma 1.ª edição de Torga, de Namora, de Vergílio Ferreira, de Cardoso Pires, de Alexandre O’Neill, para já não falar de Eça, de Camilo, de Dantas, de Tolentino de Almeida, de Garrett, são edições únicas; não esquecendo, de modo algum, O António Maria, os Pontos nos ii ou a Paródia de Rafael Bordalo Pinheiro. Torna-se imperativo preservar esses livros, exemplares especiais que são.

E o melhor processo de resguardar essas obras é encadernar as mesmas. Seja em inteira de pele, em skivertex ou pergamóide, com nervuras ou sem elas, em meia francesa, ou à inglesa, a encadernação confere ao livro uma mais valia.

Por isso, e por gosto, estou a aprender a encadernar.
Dois Mestres, detentores de quase sessenta anos de saber profissional, acederam a ensinar-me a arte.

Com Mestre Florindo e Mestre Costa, aprendo a desfazer, limpar, coser, colar, fazer lombadas, cortar capas, recortar cantos, colocar folhas de guarda, etc., acções necessárias ao acto de transformar um livro num objecto belo ao mesmo tempo que conserva o seu interior intacto, pronto a acompanhar um novo leitor.

Ainda não sei encadernar, mas estou muito orgulhosa e confortável na minha situação de aprendiz numa oficina de dois aristocráticos operários, como lhes chama Vitor Silva Tavares, editor da & Etc.

É um trabalho minucioso, que exige muita prática e que alia a máxima delicadeza a acções mais musculadas. Vou aprendendo, lenta muito lentamente, porque não é tarefa fácil.

Mestres Costa e Florindo
 

Isabel Castanheira
, Cavacos das Caldas, um blogue a acompanhar sempre [ligação aqui mesmo ao lado]
 

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