segunda-feira, 10 de setembro de 2012

«Gentes do livro»

Manuel Hermínio Monteiro 
{Parada do Pinhão, Sabrosa - Vila Real, 10 de Setembro de 1952}

«Veio dos fundos da terra, mas era um homem urbano. Conversava com os amigos à volta de uma bica na esplanada do café em frente da livraria. Dava-lhes tempo e atenção. [...]» 
João Barrento, LER MAIS AQUI.

«59 anos apenas... Um jovem, se ainda fosse vivo... Uma grande perda que foi para a Leitura Portuguesa, a morte prematura de Manuel Hermínio Monteiro.

Aos 59 anos, se fosse vivo, como seria o seu pensamento e acção na actual conjuntura do mundo português dos livros e da leitura?»

Manuel Medeiros [comentário em 11 de Setembro de 2011 11:34]

1 comentário:

  1. UM DIA APARECE UM LIVRO
    Quando nascemos no campo rodeiam-nos de seguida os ambientes e as coisas mais antigas e essenciais. A terra, o vento, os rios, os pássaros, as árvores, as casas. Ama-se espontaneamente aquilo que os rodeia. Compreende-se, por intuição, os trabalhos misteriosos da terra e do céu. Os dias sucedem às noites. As árvores crescem. Os pássaros nidificam. Os animais procriam.
    Um dia aparece um livro. Por puro acaso, ou desleixo, já lhe faltam o título, o nome do autor e as primeiras páginas. É o primeiro livro fora da escola e da catequese. É um livro à solta. Duas ou três crianças juntando esforçadamente as suas letras acabam por devorá-lo. É Verão. As crianças levam o livro para um lugar fresco. Para debaixo dessas ramas de ervilhas que crescem desenfreadamente com as dos feijoeiros pelas estacas, cheias de flores brancas e vermelhas. Jamais saberão o título daquele livro incompleto, mas foi por ele que alcançaram pela primeira vez o fascínio do mar que as montanhas circundantes não deixavam ver.
    Não era nenhum livro de Melville, de Stevenson ou de Conrad. Era uma história simples para adolescentes sobre um homem em perpétua aventura pelos mares. Quando finalmente se julgava a salvo numa ilha e ia espetar a sua bandeira, apercebia-se de que estava, afinal, sobre o dorso de uma grande baleia e logo recomeçava a aventura.
    Ao juntar as letras, ao articular as palavras e seguindo as frases, as crianças viam produzir-se um mundo fabuloso, inquietante, logo posto em movimento pela magia, lembrando o jogo de juntar água ao carboreto para produzir uma imensa luz azulada. Com o tempo, a leitura transformava-se em vício desejoso de íntima acção e deslumbramento. O fascínio descobre-se então em cada palavra, perscrutando os seus diversos significados, escolhendo-se os impulsos, provocando-lhes limites e extravasamentos, sentimentos inesperados, relacionamentos, surpresas conforme a sua situação e confrontos.
    Manuel Hermínio Monteiro

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