sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

«(...) este asséptico assalto digital só fará que daqui a uns tempos se assista a uma maior valorização do livro que se toca, cheira e que, no final de contas, se manteve igual a si próprio, ou seja, perfeito e insubstituível.»

Cláudia Lopes e Miguel Gouveia, os editores da Bruaá entrevistados por «Tantas Páginas»

«[...]

TP. Têm iPad? E Kindle? Como vêem o futuro do livro infantil em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata? Estão preparados para o e-book?

B. Não temos. No entanto, estamos conscientes das suas potencialidades e temos estado atentos ao que se passa. Muita coisa vai mudar, é certo, mas nada nos faz temer pelo futuro do livro, muito menos pelo infantil. Pelo contrário, este asséptico assalto digital só fará que daqui a uns tempos se assista a uma maior valorização do livro que se toca, cheira e que, no final de contas, se manteve igual a si próprio, ou seja, perfeito e insubstituível.

[...]»

Cláudia Lopes e Miguel Gouveia [Bruaá Editora]
Ler entrevista completa no «Tantas Páginas»

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Em 2012 o ÚLTIMO DOMINGO DE MARÇO a 25


1
Já estamos a 25 de Janeiro, 2012 ganhou velocidade de cruzeiro e os acontecimentos levam-nos para as perspectivas de novos acontecimentos. Que perspectivas individuais ou colectivas? Acerca de quê?
Fiquemo-nos por aqui, pelo mundo livreiro, com o impacto que a notícia do encerramento da Livraria Portugal teve junto das «Gentes do Livro». Tem que se lhe diga. E que sensibilizante ler, sobre o caso, o sentir pessoal das irmãs Figueiredo, os dois testemunhos transcritos no blogue do Encontro-Livreiro a partir dos blogues originais, devidamente citados.

2
Já estamos a 25 de Janeiro e na Culsete esse simples número de um dia do mês desperta para uma não adormecida atenção:
daqui a dias já estaremos em 25 de Março.

O «ÚLTIMO DOMINGO DE MARÇO DO ENCONTRO LIVREIRO ANUAL EM SETÚBAL» vai cair, este ano, como desde o início deste mês vem sendo lembrado,  no dia 25.

Como é natural, entre alguns participantes dos anos anteriores já se vão estabelecendo diálogos sobre o muito que há para conversar ao longo duma tarde livreira. E ir-se-á
dando conta do que, entretanto…
Ir-se-á dando conta! Porque ISTO NÃO FICA ASSIM!

3
Aqui na Culsete já estamos a cuidar do Moscatel de Setúbal para a recepção a quantos participantes nos quiserem dar a honra de aceitar o nosso CONVITE.


A QUEM SE CONSIDERA COMO FAZENDO PARTE DO GRUPO SOCIAL QUE VIMOS DESIGNANDO POR «GENTES DO LIVRO» E SE DECIDA A PARTICIPAR NO ANUNCIADO «III ENCONTRO LIVREIRO ANUAL EM SETÚBAL», QUEREMOS DESDE JÁ SIGNIFICAR AQUI O NOSSO AGRADECIMENTO PELA HONRA E PELO PRAZER QUE NOS DARÁ AO VIR TOMAR CONNOSCO UM MOSCATEL EM AMBIENTE QUE CERTAMENTE SERÁ, COMO NOS ANOS ANTERIORES, DE CONVÍVIO ENRIQUECEDOR E SIGNIFICATIVO.

Manuel Medeiros

«Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar»

é só mais uma?...

Setembro de 2007, abrimos as portas, e já nessa altura planava sobre nós o abutre. Nunca passava para cá da linha da porta. No entanto, rondava de perto, dava uma bicada, ou duas, nos nossos pés e ficava inquieto à espera que chegasse a hora fatal, grasnando num som surdo, como só os abutres sabem fazer: «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar». Nós bem o tentámos enxotar para longe, mas ele voltava sempre. Olhava de viés, ao mesmo tempo que inspirava o ar, à procura de aromas de moribundo. Contudo, ainda não tinha chegado a nossa hora e, voou com notícias de defunto vindas de outras paragens. Nos anos seguintes apareceu de novo, mas desta vez, acompanhado com mais amigos, urubus, corvos e outros necrófagos. Todos vestidos a rigor de plumas negras reluzentes, entoando já a marcha fúnebre de Chopin – tan, tan, taran, tan, tanran, tan tan – «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar». Porém, ainda não tinha chegado a nossa hora e voaram, outra vez, com notícias de defunto vindas de outras paragens.




Nota: sobre a mesma notícia aqui e aqui.
 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

«Uma cidade sem livrarias não é uma cidade.»

«A minha avó trabalhou na Livraria Portugal, muito antes de eu nascer ou sequer imaginar que ía ser livreira. Cresci a ouvir contar histórias sobre a livraria, as tertúlias, as disputas entre Natália Correia e Vera Lagoa, as namoradas de David Mourão-Ferreira, as fugas da PIDE e os livros proibidos, pequenas histórias e grandes histórias que sempre me fascinaram. As histórias continuaram a ser contadas pela minha mãe que era visita habitual, como o André é da Pó dos Livros. Os livros fazem parte de mim porque gosto de ler, porque sempre vivi rodeada de livros, porque são o meu trabalho, mas também por causa destas memórias. Não são só os livros que guardam histórias, os espaços onde os livros habitam também as guardam, uma livraria é um sítio especial.
Soube agora que a Livraria Portugal vai fechar. Sempre que uma livraria fecha fico triste, mas esta faz parte da minha memória...»

Débora Figueiredo - Livreira (Pó dos Livros - Lisboa), via Facebook

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

As memórias e a tristeza da Sara


«Nunca vi Natália Correia ao vivo, mas tenho dela uma imagem muito nítida, de cigarro na ponta de uma enorme boquilha, cabelo armado e os gestos fulgurantes a pontuarem uma fala segura e sonora. Encostada ao balcão da Livraria Portugal, Natália Correia perorava sobre a poesia portuguesa, enquanto os clientes da casa, muitos deles escritores, ouviam e rebatiam, ou fingiam não ouvir. É uma memória muito definida, tão definida que não é minha, apesar de integrar sem risco de falsidade maior do que tantas outras o meu acervo pessoal de memórias. É uma memória da minha mãe, que eu ouvi tantas vezes e que imaginei com tanta dedicação que passou a ser minha. E era uma memória da minha avó, caixa na Livraria Portugal durante muitos anos. Na verdade, a Livraria Portugal, onde só entrei mais tarde, quando comecei a vir para Lisboa sozinha (é uma espécie de ritual de passagem suburbano, vir a Lisboa de modo independente), forneceu-me muitas memórias como esta, episódios a que não assisti mas que se colaram ao meu imaginário sem nenhuma diferença relativamente àquilo que se consideram memórias realmente experimentadas: Vergílio Ferreira escolhendo livros na estante, David Mourão-Ferreira parando para respirar, entre livros, o sossego que não lhe dariam as suas muitas pretendentes, os recados que se deixavam, a minha tia trabalhando durante um tempo no andar de cima, aquele que tem as janelas para a rua, os livros que pediam à minha avó para esconder debaixo do balcão, não fosse a PIDE aparecer para os apreender, e que mais tarde eram passados a outra pessoa, a minha mãe, miúda, a espreitar as novidades, abrindo os livros com todo o cuidado e lendo de uma ponta à outra os volumes que não podia comprar, as discussões que por vezes estalavam entre gente das letras, umas vezes motivadas por barricadas estético-literárias, outras por histórias de cama mal contadas. Quando eu comecei a ir à Livraria Portugal já nada disto era assim, claro. A minha avó estava reformada, a minha tia trabalhava noutro sítio e a minha mãe já podia comprar alguns livros; Natália Correia aparecia na televisão, num programa chamado Mátria, David Mourão-Ferreira aparecia com o seu cachimbo na mercearia de uma aldeia onde eu também crescia, e a PIDE, felizmente, já tinha acabado há muito, entre tanques cobertos de gente e cravos que também hão-de ter passado pela Rua do Carmo. Agora, setenta anos depois de abrir as portas, a Livraria Portugal vai ter de fechá-las. A notícia vem em vários jornais, nomeadamente no i, onde António Machado, funcionário da livraria há 40 anos, explica que a situação é “insustentável com as grandes alterações no mercado livreiro, a quebra das vendas e a insuficiência de meios para pagar as despesas”. E diz mais: “Os livros vendem-se hoje em todo o lado: nas grandes superfícies, na internet, nos correios, a preços e com condições que não podemos acompanhar“. Suponho que isto seja o progresso, o mundo a funcionar, o inevitável e blá, blá, blá. Pela minha parte, estou muito triste.»

Sara Figueiredo Costa, "Cadeirão Voltaire" há momentos.

Há notícias que nos doem bem fundo


Foi ontem anunciado o próximo encerramento da

LIVRARIA PORTUGAL

Há notícias que, mesmo quando esperadas, nos doem bem fundo. Uma saudação muito especial para os elementos actuais da livraria, trabalhadores e gerência, e também para todos quantos fizeram desta livraria, com o nome de Portugal, uma referência para todas as livrarias e livreiros portugueses.

Um país sem livreiros e sem livrarias é um país menos culto, menos justo, menos livre, menos feliz e com um futuro menos risonho.

sábado, 21 de janeiro de 2012

«Parece-me que os leitores de poesia, como os espectadores de futebol gostam de ir aos estádios, terão sempre prazer em ter um livro, folheá-lo, marcá-lo, emprestá-lo.»


Mário Guerra, aka Changuito, da Poesia Incompleta, em Lisboa

«PT. Tem um iPad? E Kindle? Como vê o futuro do livro de poesia em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata?
C. Nem um, nem outro. Tive cães e gatos a que podia ter chamado kindle ou ipad, mas agora acho que já vou tarde. Parece-me que os leitores de poesia, como os espectadores de futebol gostam de ir aos estádios, terão sempre prazer em ter um livro, folheá-lo, marcá-lo, emprestá-lo.

Será, parece-me que já o está a ser, uma realidade que alterará o comércio das bestas céleres (para usar um termo de Alexandre O´Neill). O livro passará a ter um trajecto diferente e que pode não passar sequer por livrarias em linha. Pode ir directo de editores a leitores. No entanto, acho que os livros como os de poesia, bem como as livrarias especializadas, sejam elas quais forem, terão vida longa. Mais rapidamente vejo os grandes retalhistas a sofrerem com as livrarias em linha, e a terem de modificar as suas estruturas, do que fechar uma grande livraria de viagens, de livros policiais, de arte ou de poesia. Vejo, por exemplo, o Rui Pedro Lérias, da Loja de História Natural, falar dos livros que vende com uma intimidade que não encontro paralelo em lado nenhum. Ouço qualquer das pessoas que compõem o magnífico trio da Letra Livre e penso que com eles posso ficar a saber alguma coisa do muito que eles sabem. Passa-se o mesmo com o Luís Gomes, da Artes & Letras, um navio ancorado no Largo Trindade Coelho, disfarçado de livraria.»

Changuito [Poesia Incompleta]
Ler entrevista completa no «Tantas Páginas»

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

«Ando há dias a pensar nos livros que leio. No que é ser leitor, mas leitor a sério...»


«[...]

Quanto mais o tempo passa, quanto mais leio, menos acho que sei. E mais me fascino com os leitores e quero ser como eles. Mas não quero mais ter conversas com quem sabe antes de saber. Porque a leitura é um acto de amor e o amor não se pode disfarçar de sabedoria. Porque a esses a rasteira vem rápida e certeira. E o que é aparentemente inteligência pode passar a pedantismo o que é uma pena.
Cada vez tenho menos pessoas para falar de livros. Cada vez tenho mais livros. Cada vez leio mais e de forma mais dispersa. Os livros são grandes demais para os meus metros quadrados. Mas hão de caber todos cá dentro.

Rosa Azevedo, no «estórias com livros».

«A Vida Secreta dos Livros»



«Anda a circular pelo Facebook há tanto tempo que já era altura de o partilhar aqui também. “The Joy of Books” é um vídeo feito pela equipa da Type, uma livraria de Toronto, que confirma aquilo de que já se desconfiava: à noite, quando ninguém está a ver, os livros têm vida própria (e é por isso que mantenho autores ingleses e irlandeses em prateleiras separadas, assim como espanhóis e catalães, bascos ou galegos, já para não falar de teólogos e cientistas).»

Sara Figueiredo Costa, Cadeirão Voltaire.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

«QUE MUNDO É O SEU?», pergunta o Livreiro Velho.

rabiscos vieira

«[...]

* SÓ UMA NOTA:
O Livreiro Velho vem pedir a algum perito no tema que lhe traduza este post no que ele tem de relação com o tempo de vida que as livrarias independentes podem ou não podem permitir a um livro.

Talvez por aqui se fique perto de um dos problemas curiosos com que, no Mundo do Livro, todos se debatem,  sem que ninguém dê um passo para , sequer, o entender, muito menos para que se lhe encontre solução.

«Todos se debatem», de um ou outro modo: do escritor ao leitor.
Se alguém disser que não, antes de mais será preciso perguntar-lhe: que mundo é o seu?
L. V.»

Ler post completo no «Chapéu e Bengala»

sábado, 7 de janeiro de 2012

«Dobrado sobre o computador, com a cabeça / entre as mãos, como dobrado antes / sobre a máquina de escrever, com a cabeça / entre as mãos.»

[Foto Culsete: HMP numa sessão na livraria, em 2004]

Dobrado sobre o computador, com a cabeça
entre as mãos, como dobrado antes 
sobre a máquina de escrever, com a cabeça
entre as mãos. Pôr isto numa moldura,
pintar isto, apanhar de toda uma vida
uma fixação neutra, um corpo, não 
se lhe vêem os olhos, nem é preciso, animal
que fala nos seus sons de pressentimento
mortal, doido, agitado, borrando-se 
de medo, como se alguém o fosse degolar,
a cabeça à volta, cheia de um êxtase
modesto e popular, pobre velhinho,
magrinho, triste pau entesado. São coisas
transportadas em ilusão (espuma há, 
a sair da boca?), canções batidas com ferros, 
boa companhia o colchão dorido, manchado
de nicotina e esperma, outro mundo verias
nas estrelas, nos vermes, nas veias
a rebentar em sono solto. Se alguém
compreendesse e assobiasse para o lado,
deixando aquele homem à deriva, aquela
cara, ali enterrada nas teclas do computador,
adquiriria de repente uma beleza extraordinária.


 Helder Moura Pereira
{nasceu em Setúbal no dia 7 de Janeiro de 1949}

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Ler livros


«A fazer música sou como a ler livros. Nunca leio só um livro. Leio quatro ou cinco livros ao mesmo tempo.»

Pedro Osório
Entrevista de Ana Sofia e Armando Carvalheda, da Antena 1.

  
[Ouvido esta tarde, no carro, e citado de memória - Luís Guerra]

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

III Encontro Livreiro

O III Encontro Livreiro, 
o convívio e o encontro anual de «gentes do livro», realiza-se no dia 25 de Março de 2012, a partir das 15 horas, em Setúbal. 

Marque na sua agenda e esteja atento(a) às notícias.

Isto Não Fica Assim!

Leio porque... busco um sentido para a vida.


«Leio porque posso. Leio porque sou livreiro. Leio porque me dá prazer. Leio porque me enriquece. Leio porque a leitura me ajuda a passar os momentos de solidão. Mas leio sobretudo porque busco um sentido para a vida: (...)»