quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Rua do Carmo, 70

                                                                                                           Foto: Luís Guerra
Fundada há 70 anos, a Livraria Portugal, no número 70 da Rua do Carmo, estava hoje, dia em que fechou portas às 7 da tarde, a praticar 70 por cento de desconto.

Conheci-a nos anos 70 do século passado, ainda apenas como leitor, quando vim morar em Lisboa. Nos anos oitenta passei a frequentá-la como profissional do livro. Recordo hoje, de forma muito especial, os livreiros que ali conheci e de quem me tornei, para sempre, amigo e admirador. E não digo aqui os nomes para não cometer a indelicadeza de algum esquecimento involuntário. Mas abraço-os a todos em mais um abraço que dou ao Machado e ao Joaquim.
Luís Guerra

O PÃO E O LIVRO


«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»
(4)

Faço uma breve analogia, aparentemente disparatada, entre o padeiro e o livreiro. Ofícios que se anunciam cada vez mais difíceis de conservar.
Em termos de matérias prontas para degustação, entenda-se consumo, o pão e o livro assemelham-se no intuito de alimentar, embora com naturezas diferentes.
O pão fresco do padeiro, acabado de sair do forno, tem um cheiro que em tudo me faz lembrar o odor das páginas de um livro. Acho delicioso. Devorar uma fatia de pão, alentejano por exemplo, besuntada de manteiga, soja para mim, se fizerem o favor, é como ler um livro inalando os cheiros agridoce ou bafiento de um clássico ou de um contemporâneo. Saboreio a massa muito ou mal cozida com a manteiga derretida.
O fazer fácil e a qualquer hora do dia ou da noite, sem sair de casa, tem arredado o padeiro do seu ofício madrugador ou de fim de tarde. As bimbys e outros tantos mini fornos elétricos domésticos que amassam e cozem o pão, acessíveis a preços cada vez mais baixos, trouxeram facilitismo ao consumidor que já não sai de casa para ir à padaria. Um gesto perdido do quotidiano que lembra a minha meninice.
Agora um simples bip avisa o iniciar do robótico padeiro, para que, um par de horas mais tarde, um bip contínuo indique que o pão já fumega. A farinha takeaway vem com todos os ingredientes, do sal ao fermento. Sem ciência nem engenho, basta acrescentar água, seja o pão tipo caseiro, de mistura, branco ou brioche.
Até pode cheirar bem, mas o sabor, e que ninguém me convença do contrário, não é a mesma coisa. E o padeiro? Vai dando menos utilidade às mãos enfarinhadas e ágeis no amasso, com cada vez menos pão no forno (de lenha) e com menos fregueses à porta.
Como apreciadora de um fumegante pão com manteiga, (e quem não o é?), preocupa-me que ser padeiro seja uma profissão em vias de extinção. Sendo o pão um bem essencial na nossa alimentação provavelmente o padeiro será um sobrevivente. E agora algumas linhas para uma breve conjetura sobre o livreiro. Tal pão saído do forno a lenha, preterido pela máquina elétrica doméstica, também as palavras saltam das folhas de celulose impressas para entrar numa galáxia que há muito deixou Guttenberg de lado. A digital, a era Steve Jobs, que, em jeito de morte anunciada, tem minado aqui e ali a profissão do livreiro. E é vê-las a fechar, as livrarias, como tem acontecido com as padarias. A facilidade com que tudo o que se escreve é publicado e lido na ‘e-esfera’ tem usurpado as particularidades do livro lido com todos os sentidos. O som do voltar a página, o cheiro bom do papel, o sabor de cada palavra, o desenho de cada letra, o toque na ponta dos dedos e a última passagem da palma da mão na capa quando se chega ao fim…
Sou apenas uma leitora que faz uso da palavra escrita um modo de vida e de estar. Resistam padeiros e as padarias, os livreiros e as livrarias deste país. Continuem a fazer o pão que nos alimenta o intelecto. Adaptem-se, porque é o ganha-pão de muitos profissionais, mas não abusem dos ‘e-’ para isto e ‘e-‘ para aquilo!
Enquanto houver pão e livros para consumo, padarias e livrarias de porta abertas, estou certa de que os apreciadores, sejamos um ou um milhão, se manterão fiéis.
E já agora, quando anunciaram o fecho da gigante Kodak por momentos o meu ínfimo mundo parou. A adaptação à tal era do digital não foi conseguida. Acabam-se as películas, os cheiros do revelador e fixador. As reflex analógicas passam a objetos decorativos e jovens casais não sabem o que são álbuns fotográficos monstruosos. Agora os retratos de uma vida, pixelizada, amontoam-se numa única moldura, com entrada USB. É isto fotografia?

Susana Manteigas
Técnica Superior de Comunicação Social

Fecha hoje as portas, na Rua do Carmo, em Lisboa, uma das mais importantes e históricas Faculdades da Universidade Livreira Portuguesa, a Livraria Portugal

                                                                               Foto: Luís Guerra
Fecha hoje as portas, na Rua do Carmo, em Lisboa, uma das mais importantes e históricas Faculdades da Universidade Livreira Portuguesa, a LIVRARIA PORTUGAL. Mando daqui um abraço aos amigos MACHADO e JOAQUIM - esperando fazê-lo, também pessoalmente, durante o dia de hoje - e, através deles, a todos quantos fizeram desta livraria uma referência para as «GENTES DO LIVRO», sobretudo para as livrarias e para os livreiros portugueses. Repito, e continuarei a repetir até à exaustão, uma ideia, felizmente partilhada por mais gente, que me tem acompanhado ao longo de muitos anos de convívio e de encontro livreiro: um país sem livreiros e sem livrarias é um país menos culto, menos justo, menos livre, menos feliz e com um futuro menos risonho. Depende de nós todos, profissionais do livro e leitores, EVITAR QUE AS LIVRARIAS SE TRANSFORMEM NUMA ESPÉCIE EM VIAS DE EXTINÇÃO. 
Luís Guerra 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

«Peço aos meus colegas livreiros e a todos que trabalham o livro que continuem a luta pelo desenvolvimento dos hábitos de leitura...»

Por gentileza dos Booktailors e de Sara Figueiredo Costa, a quem agradecemos, divulgamos aqui a mensagem que o Livreiro Jorge Figueira de Sousa, o Livreiro da Esperança 2012, enviou para agradecer a atribuição do Prémio Especial Livreiro LER / Booktailors:

Fiquei muito sensibilizado pelo prémio. Na impossibilidade de estar, por motivo de doença grave, junto de Vós, venho por este meio dizer a todos um muito obrigado pela estima e reconhecimento do meu trabalho em prol da cultura ao qual dediquei, com todo o amor, a minha vida desde os 14 anos.

Peço aos meus colegas livreiros e a todos que trabalham o livro que continuem a luta pelo desenvolvimento dos hábitos de leitura de todos os Portugueses e em especial dos Jovens e seus Professores porque só através da verdadeira e sólida cultura o nosso Pais poderá sair da estagnação em que se encontra.

Renovo os meus agradecimentos e envio cumprimentos amigos para todos os presentes e… ausentes.

P´RA FRENTE, COM CORAGEM E FORÇA, PELA DIVULGAÇÃO DOS BONS LIVROS!

Jorge Figueira de Sousa

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sara Figueiredo Costa é Prémio Jornalista ou Crítico Literário LER / Booktailors

                 Sara no II Encontro Livreiro, em 2011

«Sara Figueiredo Costa, do blogue Cadeirão Voltaire, [do Encontro Livreiro], crítica da revista Time Out e da LER, é a vencedora do Prémio Jornalista ou Crítico Literário» [Público, 25-II-2012]


PARABÉNS!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Jorge Figueira de Sousa é Prémio Livreiro LER / Booktailors


Jorge Figueira de Sousa, a quem recentemente atribuímos o diploma de «Livreiro da Esperança 2012», acaba de ganhar o 

Prémio Livreiro LER / Booktailors.

PARABÉNS!

Venham daí e tragam outros amigos também!

Estamos a um mês da realização do III Encontro Livreiro, razão mais do que suficiente para renovarmos o apelo que aqui deixámos no passado dia 8:

«PEDIMOS a todos os que se considerem “gentes do livro” (leitores, bibliotecários, livreiros, autores, tradutores, editores, distribuidores, etc., etc.) que, até à data da realização do III Encontro Livreiro, nos façam chegar as suas reflexões, tendo como ponto de partida o tema acima enunciado.

Chamamos a estes contributos, aqui no blogue,
«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA».


Nessa reflexão, para além da apresentação de aspectos negativos e de soluções possíveis para os ultrapassar, sugere-se que se revelem experiências e histórias positivas que possam servir de modelo para a tão urgente e necessária ultrapassagem da crise, superando-a pela positiva e não pelo azedume, pela desistência e pelo queixume.
Os textos deverão ser enviados para o endereço do Encontro Livreiro, encontro.livreiro@gmail.com, referindo nome e profissão, bem como, se bem que facultativamente, empresa, site / blogue / facebook.»

Venham daí e tragam outros amigos também. Uma coisa é cada vez mais certa: Isto Não Fica Assim!

Encontro-Livreiro
Setúbal, 25 de Fevereiro de 2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

«O problema não está nos LIVREIROS - "LIVREIRO", essa profissão tantas vezes menosprezada»

«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»
(3)


ESTA SUA EXPERIÊNCIA
QUE ROSA AZEVEDO NOS CONTA 
http://estoriascomlivros.blogspot.com/ [e aqui publicado ontem]

Quem o leu já sabe: no post que na segunda-feira passada Rosa Azevedo lançou no seu blogue «estórias com livros» o Livreiro Velho é referido de modo muito excessivo (isso sei eu muito bem, sem recurso a modéstias). Excessivo, sem dúvida, penhorante também. Devo agradecer. Mas isso podia eu fazer sem ser por aqui. Preferindo por aqui, tenho que exigir-me ir além do «muito obrigado».
1.
As coisas mudam e de repente damos por nós em novos paradigmas de significação e entendimento.
O que significava a palavra livreiro ontem e o que significa hoje? O mesmo para a palavra editor. Ainda significam o que significavam, mas também já têm outros significados. Como se lê no texto de Rosa Azevedo.
Que importância tem tomar isso como tema de reflexão? Não vejo que possa fazer esta pergunta em voz alta quem ainda não a fez no seu silêncio, começando aí a encontrar a resposta que colectivamente deve aparecer. Entender o que muda é bem mais produtivo para a inevitável adaptação do que um simples instinto de sobrevivência.
Julgo eu…
2.
Ser livreira(o), sem estatuto social nem dinheiro! Bela situação! E portanto e logo, pois, por conseguinte, por consequência...
Livrarias, bem entendido. Não falamos aqui dos antigos conceitos de livraria ou livreiro. O editor era o livreiro e a livraria era a editora. Houve uma altura em que o conceito de livreiro mudou, mas sem a reflexão que no ponto anterior se propõe para as mudanças actuais.
3.
Ao longo do meu tempo vi bem a diferença entre editores e livreiros, mas…
Quem quer vir até junto de nós e comparar com pormenores?:
- Estatuto e proventos possíveis do livreiro de livraria que fosse/seja só livraria;
- Estatuto e proventos possíveis do editor, mesmo que também fosse/seja livreiro, em livraria-editora.
Comecei a ver a diferença, mas foi só depois de muito tempo a bater com a cabeça na parede, como acontece em todos os casos de um ovo-de-colombo.
4.
No sistema em que ficou o comércio livreiro desde que começaram a lentamente demarcarem-se as profissões e as actividades de livraria e de editora, de editor e de livreiro, já no século XVIII e com aceleração no século XIX para definitiva consolidação no século XX, nunca foi possível desenvolvê-las como ao desenvolvimento da leitura e consequente rentabilidade comercial do produto-livro convinha.
O caso do lançamento da Crediverbo, com a célebre Cozinha Tradicional Portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, é arrasador de quaisquer contestação que eu próprio tente fazer ao que digo.
E, por favor, digam-me o que foi e o que continua a ser a situação de sempre nas contas correntes  entre editoras e livrarias... Comparemos de seguida com a generalidade dos outros ramos do comércio retalhista.
O que levou os livros por esse país dentro foi o comércio de papelaria. Não vale a pena fechar os olhos. Por esse país dentro, como sustentar-se com livros? Mesmo em zonas menos periféricas. A não ser excepções, com características muito particulares, com especial atenção para alguns ambientes das antigas colónias, fazer vida desafogada, como livreiro, quem a fez?
5.
Quando hoje me dizem que tudo piorou!!! É preciso dizer em quê, se não…
Há quarenta anos ainda era obrigatório inscrever-se no Grémio dos Editores e Livreiros para se fazer numa papelaria ou tabacaria alguma venda de livros… Era assim que se obtinham números elevados de ditos, mas não verdadeiros, sócios «livreiros». Como editores não eram, restava arrolá-los como livreiros… Meu país de «Os Ridículos» - um grande jornal de então!
O mesmo, a exigência de ser sócio para ter acesso a preços de revenda, ainda quiseram manter - e mantiveram por algum tempo - os editores quando se passou para a APEL, apesar da liberdade de associação instaurada por Abril. A APEL: até hoje foi incapaz de se libertar das suas contradições – que pena!
6.
Pensem só no caso mais à vista de ano para ano das Feiras do Livro de Lisboa e Porto: queixam-se inutilmente os livreiros.Vai dando ao menos para se perceber que os editores não se preocuparam com a saúde económico-financeira da rede de pontos de venda que está comercialmente ao serviço do seu produto? Alguma teoria já apareceu e também alguma prática. Até a APEL já tentou dar uma oportunidade de equilíbrio às livrarias independentes por altura das suas feiras. Disse que «tentou» e mais não disse porque a ideia é manter tudo na mesma, como é compreensível enquanto os atávicos sistemas de pensamento e acção se mantiverem.
7.
Antes da actual situação do Mundo do Livro - grupos financeiros e novas tecnologias – tinha sido muito mais fácil desenvolver o comércio livreiro, com grandes benefícios para o país atrasado que éramos e somos. E agora muito mais fáceis e proveitosa seriam as adaptações. 
Não era livre a profissão de editor no Estado Novo. Porquê?
Era livre a profissão de livreiro. Porquê?
Venham passar comigo quarenta e oito horas por conta da Pide em Setembro de 1971 e começarão a encontrar uma resposta. A começar, somente. Porque nem os editores nem nós, livreiros, podemos orgulhar-nos dos crónicos baixos níveis de leitura do país.
O pé descalço ter acabado acho que dá aos profissionais dos sapatos direito a orgulho. Se no meu tempo da primária, lá na aldeia, as crianças, todas, praticamente todas, iam para a escola descalças, não era por mais nada, era só por gosto de meter os pés nas poças e lameiros! Depois criaram-se as condições e contra esse prazer triunfou a produção e comercialização do calçado. Desenvolvimento para este  produto de mais casos se pode falar. As farmácias?
Progrediu-se. Há livrarias em muitas localidades onde nunca houve. Mas…
Que não compare outros ramos com o ramo livreiro – querem dizer-me? E não comparo mesmo, naquilo em que não é comparável, mas que sempre quiseram que fosse: o livro é um produto como os outros, foi-me dito mais do que uma vez, para justificar a fuga às exigências do que é específico do livro como produto comercial.
8.
Pano para mangas, esta conversa, se se quiser…
Não devia nem desejava ser longo. Só queria apontar para a necessidade de elevadas competências culturais para que continue viável a livraria. Mais dizendo, porém, que isso não é possível sem uma reforma inteligente das rentabilidades do comércio livreiro. Quem tem nível para ser livreiro não pode estar sujeito à remuneração que não se paga a ninguém a quem se exige essa cultura que o livro e o leitor nunca tiveram em Portugal, a não ser por excepção e em poucas terras.
9.
Repito: dá pano para mangas, esta conversa, se se quiser…
Culpados? Neste caso atrevo-me a dizer: pode haver incompetentes, ignorantes, aldrabões, caloteiros, exploradores e até estúpidos (tenho lido e ouvido gente bem pensante que não percebe nada disto a chamarem-nos tudo), mas inocentes não estou a ver.
Todos somos culpados. Porque, uns mais outros menos, todos podíamos, creio, ser um pouco mais responsáveis por aquilo em que andamos envolvidos. Ou ser ministro é um título honorífico? Com as poucas verbas atribuídas às juntas de freguesia, meu pai, quando foi presidente, ao menos isso fez: transformou numa boa rua a simples canada onde tinha a sua mercearia. Ainda hoje se chama Canada da Rebela. Foi lá que nasci, mas na altura era tão criança que não me lembro de com era dantes. Pude todavia imaginar pelo que o caso dava que falar ainda. Valeu a pena para toda a aldeia. Mudar para progredir vale bem a pena!

L. V.
[publicado originalmente em Chapéu e Bengala]

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

«Não culpem os livreiros que os ignorantes são os outros»


«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»

(2)


«Não culpem os livreiros que os ignorantes são os outros»

Chegámos ao tempo dos exageros, potenciado pelas redes sociais e novas tecnologias. Os amantes dos livros têm o pêlo eriçado por tudo o que ameaça o livro na sua forma tradicional. As piores ameaças apontadas são os e-books e a morte das chamadas livrarias tradicionais ou de bairro, sendo que esta última é claramente mais trágica do que a primeira. Esta vem muitas vezes acompanhada pela equiparada morte do “livreiro”, essa profissão tantas vezes menosprezada. Associa-se com facilidade o bom livreiro à livraria tradicional e o mau livreiro às livrarias de grupo.
O meu primeiro emprego assim à séria foi como livreira na fnac. Tinha estudado literatura e achava que sabia tudo. Mas afinal sabia um canto ínfimo daquilo que tinha para aprender. Na entrevista perguntaram-me se tinha força nos braços e energia. Um dia nosso era passado a carregar caixas com muitos quilos de livros, a desmanchar paletes em armazéns, a arrumar os livros na loja. A pensar a loja, a ver qual era a melhor forma de vender. A escolher os melhores livros e a pô-los mais à frente às escondidas “deles”. A falar com pessoas, a esconder o pó das mãos, a pôr a melhor cara possível. Nos primeiros 15 dias cheguei a casa a achar que não ia conseguir voltar, angustiada e com dores no corpo. Mas depois conheci as melhores pessoas e penso nelas muitas vezes. Conheci também as pessoas piores, mais arrogantes, antipáticas, agressivas. Chamaram-me ignorante, disseram-me para ir estudar, ao mesmo tempo que outras pessoas liam cegamente o que eu lhes dizia para ler e voltavam para conversar. Caíram-me pilhas de livros em cima (literalmente), ao mesmo tempo que morri de amor por outros livros. Li como nunca, comprei livros como nunca, conheci um mundo de coisas. Demorei mais ou menos dois anos a começar a perceber daquilo. Demorou algum tempo. Demora sempre ao contrário do que se pensa ou do que parece a olho nu. Depois comecei a ajudar a escolher livros para a minha secção, comecei a comprar livros, a conhecer os distribuidores, a falar com eles. E depois quando consegui finalmente ter uma secção para mim fui-me embora. Porque tinha um trabalho “melhor”. Que me deixava viver aos fins-de-semana. Que me pagava o dobro (nunca quis na vida que o dinheiro fosse um argumento e aqui teve mesmo de ser). Onde eu tinha uma secretária, um computador.
E depois comecei a conhecer pessoas dos livros, não livreiros, e conheci pessoas fantásticas. Que sabem muito e que percebem muito. Mas nunca mais conheci pessoas como os meus colegas da fnac. Ainda hoje é só nelas que eu confio para me ajudar a escolher livros. Não são snobs porque um colete verde, um ordenado mínimo e nódoas negras não dão espaço para isso. Mas estão ali as melhores cabeças, mais inteligentes, mais cultas, mais loucas, claro, de todas. A um nível que não dá para explicar, só mesmo estando lá todos os dias.
Meus caros, o problema não está nos livreiros. Claro que são miúdos, mas hão-de ser grandes. Hão-de ser os nossos Livreiros Velhos (não como o querido Manel Medeiros, mas nessa linha). Todos os dias me esforço aqui por não perder esse contacto com os livros que tinha na fnac, mas não é fácil. A fnac empresa não interessa nada. Nunca aparecem, não percebem de livros, nem querem saber. E são burros, é isso que eles são. Porque não percebem que seria melhor pagar um bocadinho mais, valorizar o livreiro, dar-lhe vontade de ficar, dar-lhe responsabilidades, valorizar as suas vontades e escolhas. Que investir na qualidade é investir financeiramente num negócio como o dos livros. Na fnac vivíamos revoltados com o ordenado miserável e as condições miseráveis de trabalho. Vivíamos revoltados com o termos a livraria a nosso cargo e um lápis azul do lado de lá. Estávamos sempre contra a corrente. E depois tínhamos a convenção social também contra nós que nos via como miúdos acabados de sair da faculdade (que a fnac dava-se a este luxo, tudo licenciado ou mais, ah pois!). E a família ligeiramente desapontada. E os amigos.
Só posso sugerir que peguemos nestas pessoas, nesta sabedoria toda, meia dúzia de tostões para abrir uma livraria, e eu prometo-vos um negócio de sucesso. Mas como não há tostões por enquanto eu fico aqui no meu belo computador e na minha bela secretária que não me servem para nada a relembrar as primeiras manhãs da fnac, antes de a loja abrir, que eram hi-la-ri-an-tes. Eu ia a correr para o comboio, antes das 8h da manhã. Durou pouco que o corpo não perdoa. Mas não tem preço. 

Rosa Azevedo
[publicado originalmente em Estórias com Livros]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

III Encontro Livreiro - Esperança no Futuro da Leitura, do Livro, da Livraria.




Com o inconfundível traço de Pedro Vieira, apresentamos hoje o cartaz do III Encontro Livreiro, a realizar na livraria Culsete, em Setúbal, no próximo dia 25 de Março de 2012, domingo, a partir das 15 horas. Obrigado, Pedro.

Este ano a proposta é realizarmos o nosso encontro anual sob o signo da

ESPERANÇA
NO FUTURO DA LEITURA, DO LIVRO, DA LIVRARIA

Assim:

INICIAMOS em 2012 a atribuição anual do diploma «Livreiros da Esperança», querendo com isso homenagear quem, de entre as «gentes do livro», seja merecedor de público reconhecimento e de louvor.
Depois da iniciativa da «Carta Aberta de “Gentes do Livro”», pedindo o público reconhecimento do trabalho e do exemplo do livreiro da Livraria Esperança (Funchal) - «alguém que é um exemplo, não só para a classe profissional dos livreiros portugueses, mas também para todas as “gentes do livro”, pela história de que é herdeiro e pelo exemplo de vida, de persistência, de resistência e de visão e esperança de futuro que continua a transmitir às gerações actuais e vindouras […] Porque soube manter e desenvolver os sonhos de seu avô Jacintho e de seu pai José, mas também preparar o futuro, mantendo a esperança na Leitura, no Livro e na Livraria.» -, e inspirando-nos no nome da livraria, decidimos atribuir o título de

LIVREIRO DA ESPERANÇA 2012
ao livreiro
JORGE FIGUEIRA DE SOUSA


PEDIMOS
a todos os que se considerem “gentes do livro” (leitores, bibliotecários, livreiros, autores, tradutores, editores, distribuidores, etc., etc.) que, até à data da realização do III Encontro Livreiro, nos façam chegar as suas reflexões, tendo como ponto de partida o tema acima enunciado.

Chamamos a estes contributos, aqui no blogue,  
«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA».

Nessa reflexão, para além da apresentação de aspectos negativos e de soluções possíveis para os ultrapassar, sugere-se que se revelem experiências e histórias positivas que possam servir de modelo para a tão urgente e necessária ultrapassagem da crise, superando-a pela positiva e não pelo azedume, pela desistência e pelo queixume.
Os textos deverão ser enviados para o endereço do Encontro Livreiro, encontro.livreiro@gmail.com, referindo nome e profissão, bem como, se bem que facultativamente, empresa, site / blogue / facebook.

APELAMOS a que todos, através dos contactos e meios de que disponham, colaborem na divulgação do conteúdo desta comunicação e do III Encontro Livreiro e que se organizem em grupos (de amigos, de profissão, de empresa, etc.) e se desloquem a Setúbal, se o desejarem e se possível almoçando um bom peixe e, a seguir, encaminhando-se para o Convívio e o Encontro na Livraria Culsete – Avenida 22 de Dezembro, 23 A/B –, a partir das 15 horas do dia 25 de Março de 2012.

Venham daí e tragam outros amigos também. Uma coisa é cada vez mais certa: Isto Não Fica Assim!

Encontro-Livreiro
Setúbal, 8 de Fevereiro de 2012

sábado, 4 de fevereiro de 2012

«Ebookação»

E começam a chegar as
 «ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»
(1)


Está um pouco na moda dar pancada nos livros electrónicos. É compreensível, embora não seja muito racional. A verdade é que somos uma sociedade habituada ao livro como objecto físico, e para muitos de nós, principalmente no meio literário, a relação que com ele estabelecemos tem uma componente muito sensorial, senão mesmo sensual. Para além disso, os hábitos são coisas terríveis, pequenos arames que teimam em ter pouca maleabilidade.

Mas devíamos questionar isto. Os e-books existem e vieram para ficar. Mesmo que em Portugal ainda se teime em não o produzir ou consumir em larga escala, o certo é mais tarde ou mais cedo ele vir cá assentar arraiais. Por isso, talvez fosse melhor "saltar da caixa", "sair da zona de conforto", e começarmos a pensar em formas de usar a via digital para valorizar o livro físico, ao invés de a recearmos.


É que ao contrário do que queremos ou nos habituamos a pensar, não há uma relação assim tão directa entre a existência (e o sucesso) do e-book e a propalada (até à náusea) morte do livro. A história diz-nos algo sobre isto. O cinema não matou o teatro, a televisão não matou o cinema, a internet não matou nenhum deles. O televisor não matou o ecrã. Assim como os sintetizadores não mataram o piano ou as esferográficas os lápis.


E se queremos verdadeiramente valorizar o livro enquanto objecto cultural imprescindível e essencial, temos de nos adaptar e começar a incorporar o meio digital, todas as suas ferramentas e processos e meios, de modo a consegui-lo. Algo já se vai fazendo, é certo, como vemos diariamente: a actividade bloguística aumentou de forma entusiástica e barata o interesse geral pelos livros. É só um exemplo. O e-book é apenas uma das suas expressões e mesmo ele tem potencialidades úteis não só para a criação literária, como para a comercialização, o estudo, a investigação, a fruição, etc.


Por exemplo, o livro em formato digital possibilita, antes do mais, a formação de novos leitores e o reforço da actividade dos existentes (quer na leitura ou no simples consumo). Possibilita também um precioso auxílio à memória, pois deixa de ser inevitável que as obras desapareçam com o tempo, por acção das erosões naturais ou dos interesses comerciais. Que melhor forma, por exemplo de fazer reviver obras esquecidas? Meros exemplos.


Abraçar o e-book e o meio digital na área do livro é inevitável e, apesar dos riscos, uma incrível oportunidade para todos os intervenientes do mundo literário. Mas ignorá-los ou menosprezá-los não me parece, sinceramente, uma opção. Criatividade, isso sim, é que é necessário.

Nuno Fonseca*
Escritor

* O Nuno Fonseca, um dos fundadores do Encontro Livreiro, faz hoje anos. Parabéns, Nuno! Pelo texto. Pela vida.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

... uma fogueira que ilumine e aqueça a ESPERANÇA. Faz todo o sentido!

- Não fazes nenhum comentário, Livreiro Velho? 
- Faço, sim senhores! Mas cá comigo e com mais quem… 

Aqui não vou agora dizer nada. Apenas perguntar-te: 
Se já lá foste, aos blogues indicados, não quererás ser tu a escrever um comentário?
Deves ter alguma coisa a dizer.
A dizer-nos, melhor dito, e gostava de que… 


Durante as próximas semanas é a altura certa de contribuirmos na preparação de um  agradável e proveitoso convívio no último domingo de Março. 
Faz sentido? 


Iremos trazendo achas para
uma fogueira que ilumine e aqueça a ESPERANÇA. Faz, sim senhores!
Faz todo o sentido!


L. V.

[As imagens ficaram lá... no Chapéu e Bengala]

«e, mesmo que não haja tigeladas, eu hei-de chegar mais cedo e procurar a pastelaria perto do rio para resolver o assunto»

A caminho do III Encontro Livreiro


A data já está marcada: 25 de Março. É um Domingo, como sempre, e Setúbal há-de estar soalheira para receber os muitos convivas que se juntarão na Livraria Culsete em mais um Encontro Livreiro. Haverá Moscatel (e, mesmo que não haja tigeladas, eu hei-de chegar mais cedo e procurar a pastelaria perto do rio para resolver o assunto), mas haverá sobretudo gente com vontade de conversar. 

[...]

Sara Figueiredo Costa, Cadeirão Voltaire

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

«Porque lá não se espera nada de ninguém e as pessoas dão mais»


Está a chegar o III Encontro Livreiro. Perdi o I com pena minha mas a experiência do II foi muito gigante para os meus metros quadrados como o são os livros.
Fui com a Vanda que eu não via há muito tempo e que é sempre "amiga dos livros", a primeira do dia.
Chegamos a Setúbal, à Culsete e vemos o Luís ao longe e um monte de gente à volta do Livreiro Velho, belo anfitrião de um encontro na sua não menos bela livraria. Depois de alguma conversa entramos ao som da música, uma surpresa para o Livreiro e depois algumas pessoas falam. De algumas pessoas passamos a muitas pessoas para depois passar a todas as pessoas. Todas passam pelo microfone. Algumas pensaram no que iam dizer, outras não, umas têm um discurso mais composto, outras mais comovido, outras riem-se, atiram provocações, repetem depoimentos, fazem perguntas. Depois bebe-se moscatel e a conversa dura até ser de noite, o Livreiro Velho conta histórias, compram-se livros. As pessoas encantam-se.
O Encontro Livreiro é assim porque é informal e hoje já se fazem poucos encontros informais sobre os livros. Porque lá não se espera nada de ninguém e as pessoas dão mais. O Encontro Livreiro é único na forma e no conteúdo. Foi lá que pela primeira vez ouvi alguém que não me conhecia falar deste blog. Foi lá que conheci muita gente que hoje está cada vez mais próxima. Foi lá que muitos de nós se juntaram em comunidade.
E está quase. É no último domingo de Março, vamo-nos juntar todos e oferecer boleias de Lisboa. 

Rosa Azevedo, «III Encontro Livreiro», publicado hoje no Estórias com Livros.

«Que ideia? O sector livreiro apanhado pela crise? Se já lá estava...»


FEVEREIRO DE 2012: MAIS DESENCANTO?

Para muita gente o ritmo dos meses conta muito. Pode até dizer-se que para muita gente é o que mais conta. Mais do que o ritmo dos anos, das semanas, das estações. As contas ao mês, é o que é!
- Aonde vais querer chegar com essa conversa?
- Eu a querer chegar a algum lado? Sozinho? Eu? De modo algum!
- Mas alguma estás a querer dizer…
- O que mais me impele a abrir o postigo é perguntar, mais para mim do que para mais alguém:
Fevereiro: outro mês de desencanto?
Porque a andar de roda é como vejo andar as gentes que vão passando por estas encostas e pelos vales que daqui se avistam e se vê que não foram cultivados no tempo propício. Sobre os problemas que já havia, chovem de todos os lados problemas e mais problemas. Anda muita gente à roda deles, mas ninguém dispara o tiro que indique a direcção de um caminho para as soluções.
- Estás a falar do sector livreiro?
- Que ideia? O sector livreiro apanhado pela crise? Se já lá estava…
- Mas melhora ou piora?
- Steiner disse que... Disse até mais, na entrevista publicada na Ler n.º 100:
«Mas não se pode ter medo do futuro. Ter medo do futuro é suicida, uma espécie de suicídio intelectual».
Gostava de saber se muitos de nós damos algum crédito a estas palavras e também a estoutras que antes delas ia eu em citar:
«Quando as coisas estão mal, muito mal, as pessoas começam a ler com seriedade, a ler melhor».
- E tu acreditas nisso?
- Não digo que sim nem digo que não. Será que com a loucura provocada pelo ruído da crise muita gente vai ficar lúcida? Ao ponto de, para não enlouquecer ainda mais, se decidir a fechar os noticiários e a abrir um livro que encante, liberte, esclareça sobre como vamos sair desta, todos e cada um de nós?
Janeiro não deu para ver.
E Fevereiro?
Ter medo do futuro é suicídio:
Pode ser que este novo e segundo mês do ano comece com uma vaga de frio, mas acabe por escrever uma página que nos anime, se a procurarmos, encontrarmos e lermos.
Será que as pessoas irão andar menos às compras, ficando assim com algum tempo para passarem pelas nossas livrarias?
A descoberta dos livros que merecem ser lidos!
«Ler com seriedade»!
«Ler melhor»!

L. V.
«Disparar: "ler com seriedade" - "Ler melhor"», publicado hoje em Chapéu e Bengala.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

«Vinha a sair, feliz, com um saco de livros...»


«Morreu numa livraria não foi? Então teve a morte mais bela a que um escritor pode aspirar. Morreu junto aos livros, no seu posto, como o soldado morre no campo de batalha.»

Gonzalo Torrente Ballester, sobre Fernando Assis Pacheco [nasceu em Coimbra, faz hoje 75 anos], citado por José Mário Silva.