sexta-feira, 30 de março de 2012

Fecho de livrarias


O que leva alguém, hoje, em Portugal, a manter uma livraria aberta?

Diga-se, desde já, que falamos de pequenas livrarias, independentes, temáticas ou, sendo generalistas, situadas em locais onde as grandes empresas não apostam. Mas onde há gente. E alguma gente que até nem pode (será que deve?) deslocar-se a grandes urbes onde o investimento tem, à partida, retorno mais rápido.

Sei de alguém que, há uns anos atrás, vendeu o seu automóvel para pagar dívidas da livraria. O estabelecimento continua aberto, mas as dívidas continuam!

Ontem soube do encerramento de portas da "Poesia Incompleta". Diz o proprietário, orgulhando-se de não deixar dívidas a ninguém - e é bem caso para orgulho! - que encerra por "profunda desilusão com o rumo do país" (in Público).

Hoje soube de outra livraria cujo proprietário vendeu um apartamento para pagar dívidas aos fornecedores.

O que leva alguém, hoje, em Portugal, a manter uma livraria aberta?

Serão os livreiros santos?

Ops!... Tenho de sair já para ir entregar às Finanças o "Pagamento especial por conta"... Por conta... Por conta de quê?!

Vão pensando nisto... E naquilo...

Vão pensando!...

«... os livros e as livrarias têm futuro: então, os leitores deixaram de existir?»


É verdade que trabalho numa grande loja onde há um espaço bem grande onde os livros se acotovelam uns aos outros na tentativa inglória de mais depressa seduzirem o incauto cliente do que o livro vizinho. E o stress é muito, os clientes são muitos mas nunca demasiados, as tarefas são muitas: descarregar paletes, atender, distribuir caixas por cada secção, atender, arrumar os excessos, voltar a atender, devolver livros parados há sabe-lá-o-diabo, destacar o que há para destacar e até aquilo que não devia ter saído de uma gaveta.

Sim, é verdade que há pessoas que trabalham em livrarias um pouco por todo o país - ou em sítios onde se vendem livros, que agora já os há em qualquer bomba - que arrumam livros como quem arruma croissants, que lê livros como quem lê marias e lux, porque a realidade, para estas pessoas, é bem mais necessária, impõe-se, acarreta peso e responsabilidade, é socialmente correcta. para estas pessoas, ler nunca equivale a viajar, nunca pode significar uma aprendizagem, nunca será o mesmo que sonhar. ler ficção - seja ela literatura ou bd, escrita na vertical ou na horizontal e em technicolor - pode constituir um escape, é verdade, mas é muito mais que isso: é quase sempre uma possibilidade de auto-descoberta ou até de epifania.

Às vezes penso que será disso que as pessoas que não lêem ou preferem não ler têm medo: de perceber quem são e o seu potencial e de ver a realidade como ela é, mutável pela nossa capacidade de agir com base no que ambicionamos e sonhamos e queremos fazer.
Ora, era eu cachopa e sonhava muito! Lia muito, conversava com os gatos e as galinhas e as personagens dos livros que tanto lia, eram os meus melhores amigos. Quando um professor me dizia para ler um livro da colecção Viagens no Tempo, eu lia vários. Quando uma professora me encorajou, aos 6 anos, a aprender inglês sozinha (na altura, só se tinha aulas de inglês a partir do 5º ano no ensino público), comprei a Essential Grammar in Use de Raymond Murphy da Cambridge e depois das férias do verão, já tinha feito todos os exercícios. A minha determinação e optimismo provinham do encorajamento que a leitura me dava, para além do prazer simples da história a desenhar-se diante dos meus dedos: se ao ler, eu aprendia coisas que me tornavam mais conhecedora do mundo e se revelavam úteis no meu dia-a-dia num bairro social quase ghetto dos anos 80, onde alcoolismo, drogas, abusos e violência eram diários, a solução era continuar a ler, ler muito e ainda mais.

Se, por um lado, cresci na cidade, foi no campo que aprendi mais sobre a delicadeza das relações humanas e a fragilidade do coração.
Lembro-me de um estio deslumbrante, tinha eu uns 8 anos, estava em casa dos meus avós a passar as férias grandes e tanto insisti com o meu avô que ele, finalmente, acedeu a dar-me um dos livros da sua biblioteca para ler. Empurrei lentamente a porta envidraçada, a porta do lado esquerdo a fingir que escondia uma teia de aranha, a luz a entrar pela janela a oeste e a esbarrar nela.
Tirei um livro ao acaso: Eurico, o presbítero. Alexandre Herculano era difícil com aquela idade. A minha mãe ensinara-me a ler aos 4 anos e era uma habilidade de cariz circense, quase, porque não conhecia ninguém que não convidasse moscas com seu espanto ao observar-me a ler em voz alta (algo que ainda hoje me dá gozo), mas Herculano era mesmo difícil. Infelizmente, o meu avô era muito perspicaz e se notasse em mim a mínima hesitação ou o esfriar do meu entusiasmo, certamente teria sido banida da biblioteca por algum tempo. A minha mãe chamava-me teimosa com frequência, e não larguei aquele livro o verão inteiro.

Com certeza que os livros e as livrarias têm futuro: então, os leitores deixaram de existir? Claro que não. A internet é um bicho? Não é nada, eu estou sempre a pesquisar milhares de livros aqui e depois compro-os onde? Na Fnac, no senhor André da Livraria Lácio (aprendi tanto com esse grande livreiro, desde 1994 a formar a livreira Sandra), na Antiga do Carmo onde ia com o meu avô quando ele vinha a Lisboa. Nada substitui essa experiência, quanto a mim, onde se inclui a conversa lúcida com o livreiro ou, quem sabe, com outros leitores.

É essa experiência que eu tento reproduzir há 12 anos, desde que trabalho com público e com livros, e é esse caminho que quero continuar a trilhar, bem-disposta e apaixonada. E um dia, quando tiver a minha livraria - onde o tempo não vai correr como corre numa fnac - também eu vou formar livreiros. Por enquanto, vou dar o meu melhor e estar consciente de que ainda não chega.


Sandra Oliveira
Livreira, Fnac Chiado (Lisboa)

quinta-feira, 29 de março de 2012

«Eu tenho muita esperança no futuro da leitura e do livro, penso que nunca se parará de ler.»


Caríssimos,

antes de mais, muito obrigada por esta oportunidade, uma ideia excelente! O facto de viver no estrangeiro impede-me de estar presente em iniciativas deste género, em Portugal, o que lamento imenso.

Mas vamos ao tema:

Eu tenho muita esperança no futuro da leitura e do livro, penso que nunca se parará de ler. Temos necessidade de sonhar, conhecer novas experiências e sentirmo-nos na pele de uma outra personagem, entre outros aspectos. Por acaso, ainda hoje li uma frase interessante, da autoria de Alberto Manguel, no blogue "O Cheiro dos Livros" do tradutor José Fallorca:

«Ler é um trabalho de memória que nos permite, através das histórias, desfrutar da experiência passada de outros como se fosse nossa.»

Já quanto ao futuro da livraria, é mais complicado. Depende de se os livros convencionais conseguirão conviver lado a lado com os electrónicos e, se sim, durante quanto tempo. Todos receamos o desaparecimento dos livros em papel, mas ainda não estou certa se se trata de um receio legítimo, ou, apenas, da normal insegurança de vermos desaparecer algo que considerávamos perene. Eu diria que quem tem mais de 20 anos não imagina um mundo sem livros convencionais. Mas que dizer das crianças que crescem com "ebooks"?


No caso de os livros em papel desaparecerem por completo, eu teria uma sugestão a fazer que, além do mais, resolveria o problema da pirataria: transformar as livrarias em fóruns, onde qualquer um poderia surgir com o seu "e-reader" e, a troco de pagamento, descarregar os livros que pretendesse. As livrarias seriam os únicos locais onde isso seria possível, tendo, naturalmente, a sua componente "online". Claro que proliferariam as livrarias exclusivamente "online" (o que, aliás, já está a acontecer). A fim de chamar clientela às livrarias "físicas", talvez elas continuassem a ter à disposição alguns livros convencionais, raridades, que se tornariam em verdadeiras peças de colecção. Além disso, poderiam igualmente continuar com iniciativas destas: discussões, palestras, ou outras actividades relacionadas com o livro, não esquecendo apresentações ou outros eventos, em que os escritores estariam presentes. Num mundo que se adivinha cada vez mais virtual e electrónico, penso que será cada vez mais atractivo possibilitar o contacto ao vivo com os escritores.

Lamento dizer isto, mas, na minha opinião, as livrarias convencionais, como hoje as conhecemos, irão desaparecendo. Para muita tristeza minha. Mas penso que o processo será inevitável.

Cumprimentos,

Cristina Torrão

[Mensagem de quem, não podendo ir a Setúbal, também quis participar no III Encontro Livreiro]

quarta-feira, 28 de março de 2012

«D'ont keep calm, keep reading.»

D'ont keep calm, keep reading. Pela vossa saudinha.

Eurídice Gomes 
Assistente editorial (Lisboa)

«"Parece que estou a viajar!"»


Olá boa tarde

talvez já não vá a tempo, mas ainda assim gostaria de deixar uma mensagem de apoio à vossa iniciativa, indispensável nos tempos que correm, cada vez mais mecânicos, mais frios, com menos sonhos...

Embora não seja das 'gentes do livro', sou apenas uma leitora que já foi mais ávida (os tempos de correria a isso obrigam), considero importantes as iniciativas que valorizem o livro e a leitura.

E porque o tempo (e o tema) é de esperança no futuro da leitura, do livro, da livraria, conto um pequeno episódio, ocorrido na semana passada, um pequenino episódio mesmo, mas que se calhar é de esperança:

Uma menina de 15 anos, filha de uma boa amiga, leu um determinado livro - um dos vários que tem de ler - a fim de fazer um trabalho para a escola. No dia da apresentação do trabalho, telefona furiosa para a mãe a contar que os colegas lhe estavam a pedir resumos rápidos do livro, para apresentarem alguma coisa, pois não leram a obra, e desdenharam completamente a leitura... E pergunta ela: 'Como é que esta gente não consegue ler?? Eu quando estou a ler parece que estou naqueles locais, a ver aquelas pessoas, a cheirar tudo... Parece que estou a viajar!' A minha amiga contou-me esta história, visivelmente orgulhosa de uma menina que cresce com a noção da importância das coisas. 'Acho que com esta não tenho de me preocupar', dizia-me. 

Sim, também acho, digo eu. Enquanto houver casos destes, há esperança.

Desejo-vos um bom encontro!

Tudo de bom

Patrícia Cassaca
Antena 1 Madeira

[Mensagem de quem, não podendo ir a Setúbal, também quis participar no III Encontro Livreiro]

Parabéns, Encontro Livreiro!

[clicar na imagem para mais facilmente recordar]

FAZ HOJE DOIS ANOS.


Por isso, propomos um brinde com o melhor moscatel do mundo:

Parabéns, Encontro Livreiro! Parabéns, Gentes do Livro!

«nosso fiel amigo: o livro.»


Estamos convosco nesta celebração do nosso fiel amigo: o livro.

Cristina Rodriguez e Artur Guerra

Tradutores


[Mensagem de quem, não podendo ir a Setúbal, também quis participar no III Encontro Livreiro]

«A minha vida é feita de livros.»


A minha vida é feita de livros. Com eles cresci e me tornei o que sou. Edifiquei mundos, destruí muros e re-construí sonhos.
É deles que falo, com alegria, aos meus alunos e aos meus amigos.
Deles preciso para continuar a respirar liberdade. Com eles, quero re-inventar, cada dia, a esperança.

Maria do Céu Pires
Professora (Estremoz)


[Mensagem de quem, não podendo ir a Setúbal, também quis participar no III Encontro Livreiro]

terça-feira, 27 de março de 2012

«Lês para mim, mamã?»


Pouco sei sobre economia, negócios, lucros, ou prejuízos. Desconheço estratégias financeiras, ou soluções milagrosas para o mercado livreiro. O que penso é intuição, ingenuidade, ou tão só ignorância. Creio que o livro em papel não morrerá. As livrarias tão pouco. Haverá sempre leitores a precisar do toque. Olho para as minhas estantes repletas de livros que ainda não li e tenho certo que continuarei a comprá-los. É a herança que quero legar. No presente o meu filho não pára, descobre ainda a novidade a cada passo. Tenho, todavia, esperança que a quietude venha a ser possível quando acordado e que possa, em breve, ler perto dele, enquanto brinca. Imagino que há-de crescer a ver-me tão feliz dentro dos livros e que um dia me abanará o joelho: «Lês para mim, mamã?» Hoje já o deixo tirar os livros das estantes. Risco enorme. Ainda não percebe o tesouro que tem nas mãos e a tentação do rasgar é imensa, quando se tem um ano. Quero que lhe sejam familiares estes amigos. Que os não tema, ou repudie. Por isso, quando se dirige às prateleiras coloridas divertido, falo-lhe mansa e deixo que os manuseie à vontade, como aos seus livros de borracha com patinhos, ursos e chupetas perdidas. Amo o meu filho. Ser-me-ia insuportável não poder abraçá-lo. Amo os livros, é-me inconcebível não lhes tocar para os conhecer, como o é amar um homem desconhecendo-lhe o odor. A fé que tenho? Há muita gente a pensar assim e a acreditar que se não pode deixar morrer este modo de aprender. Como em tudo na vida, cada um a desempenhar o seu pequeno papel: Que cada pessoa consiga no orçamento do mês guardar alguns euros para comprar, pelo menos, um livro numa livraria. Se só pode adquirir um, é imperioso que o escolha bem. Quem melhor do que um bom livreiro para nos aconselhar? Certamente não será uma estante abandonada, perto tupperwares e atoalhados, que nos assegurará levarmos boa companhia. Vivem-se tempo difíceis, não duvido. Gostava muito de poder estar aí a ouvir-vos, para perceber melhor a situação e poder contribuir para encontrar soluções efectivas e menos elementares.

À leitura entendo-a como aventura dos sentidos que me acicatará toda a vida: “Arde a pele às costas subjugadas, arqueiam ante o(s) génio(s) escolhido(s); cheira ao carvão das frases sublinhadas, sabe ao sal do médio a virar as folhas com ruído; eis o vício avassalador e irreprimível que, ao aprisionar, liberta."

No que depender de mim agirei e apesar de ausente grito convosco: “Isto não fica assim!”

Andreia Azevedo Moreira
Escreleitora (Carcavelos)

[Mensagem de quem, não podendo ir a Setúbal, também quis participar no III Encontro Livreiro]

«A todos os que fazem da leitura uma espécie de oração»

Caros amigos,

Sim, amigos, porque quem gosta de livros é meu amigo. Como diz o ditado, amigo do meu amigo, meu amigo é. 

Hoje não estarei convosco, mas deixo uma palavra de incentivo a todos vós. A todos os que fazem da leitura uma espécie de oração, a todos os que escrevem livros como se fossem criadores de mundos, a todos os que vendem e promovem os livros como sacerdotes pregadores da Cultura ou monges copistas do Saber.

Até sempre, e com muitos livros,

Brissos Lino 
(leitor e autor)  

[Mensagem de quem, não podendo ir a Setúbal, também quis participar no III Encontro Livreiro]

O III Encontro Livreiro visto por António Alves








António Alves, Traga-Mundos

«Haveremos sempre de ler, por dentro e por fora.»

Caros leitores destas e de outras (muito mais) letras,
hão-de ser sempre lidas as letras, as palavras, as frases, os textos tecidos por teares e/ou mãos.
Haveremos sempre de ler, por dentro e por fora.
Estarei convosco, não tanto por fora mas por dentro.

Ana Paula Guimarães
Professora FCSH / UNL

[Mensagem de quem, não podendo ir a Setúbal, também quis participar no III Encontro Livreiro]

«O III ENCONTRO LIVREIRO FOI ASSIM!», por Fátima Ribeiro de Medeiros

No domingo, 25, houve alguém que passou boa parte da noite a viajar para chegar à Culsete e viver o III Encontro Livreiro sem perder pitada. Esse alguém foi o António Alberto Alves da Traga-Mundos, de Vila Real. Foi o primeiro a passar a porta, eram 11 horas da manhã. Aqui está ele a contemplar a pequena anarquia que é a livraria.


Logo de seguida entraram a Rosa Azevedo, o Hugo Xavier, o Bartolomeu Dutra e o Luís Guerra. Um pouco depois apareciam a Sara Figueiredo Costa, o Nuno Seabra Lopes e o Ricardo Duarte. Conversaram, ajudaram nas arrumações finais, tiraram fotos, espreitaram  as estantes, sorriram para a máquina (completamente amadora).




Ao almoço, de peixe assado, éramos dez à mesa. Mas a máquina ficou arrumada. 
O Encontro Livreiro estava aprazado para começar às 15 horas e a essa hora em ponto começou a chegar gente. De Portalegre chegaram  o José Tavares e o Amadeu Candeias, estreantes no Encontro Livreiro. A Ana Wiesenberger e o Pedro Vieira também deram o ar da sua graça, e que graça…


Assinava-se o “livro oficial do encontro”, conversava-se com esta e com aquela/com este e com aquele, até que se deu início à função, com as necessárias palavras de boas-vindas. E, já que estávamos numa livraria, recorreu-se a uma página do Diário II de Luísa Dacosta, Um Olhar Naufragado (pp.25-28), onde a escritora discorre sobre o que são livrarias, esses “espaços de liberdade, lugares de encontro. Liberdade intimista, com uma profundidade de abismo e onde o tempo e o lugar podem ser vencidos. […]”.

Indo ao encontro do conceito de “Livreiros da Esperança”, leu-se o poema de Manuel Alegre «Livreiro da Esperança», incluído em Praça da Canção.

LIVREIRO DA ESPERANÇA

Há homens que são capazes
duma flor onde
as flores não nascem.
Outros abrem velhas portas
em velhas casas fechadas há muito
outros ainda despedaçam muros
acendem nas praças uma rosa de fogo.
Tu vendes livros quer dizer
entregas a cada homem
teu coração dentro de cada livro.

Uns sentados, outros em pé, todos escutámos com prazer  o Bartolomeu e a sua viola. Quem passava pela montra, parava a tentar perceber o que se passava.


E chegou o momento de ouvirmos Manuel Medeiros, sob o olhar atento da Rosa, enquanto o Flamarion, seguindo à risca as “sábias” orientações do Nuno Medeiros, aproveitava para captar os momentos mais vibrantes, para mais tarde os mostrar no Brasil.



Aconteceu depois um dos momentos mais importantes do encontro, a atribuição do diploma de Livreiro da  Esperança ao senhor Jorge Figueira de Sousa, da Livraria Esperança, do Funchal, na pessoa de sua prima, Maria do Carmo Figueira de Sousa e Abreu, que, curiosamente, foi, durante três anos, livreira na livraria da Seara Nova. No momento da entrega do diploma, o Luís Guerra entrou em contacto telefónico com o senhor Jorge Figueira que pôde ouvir as fortes palmas que todos lhe batemos. A Sara falou-nos da sua recente visita à livraria Esperança e do seu encontro com o senhor Jorge Figueira.



Leram-se em seguida as mensagens enviadas por aqueles que, gostando de estar presentes, não tiveram oportunidade de aparecer.

Chegou depois o momento em que  falaram todos os que para tal se inscreveram (ou foram inscritos!), sob a condução e savoir faire da Rosa. Levantaram-se diversas questões relacionadas com a problemática do livro, da leitura, da edição, das livrarias, da comercialização do livro, etc., etc., pondo o dedo em muitas feridas e alimentando esperanças de melhor  futuro.

A tarde ia avançando, o microfone sem fios ia passando de mão em mão, nós íamos rodando nas cadeiras, degustando o que havia em cima da mesa que servia de bar e  molhando as gargantas com água e sobretudo com o famoso Moscatel de Setúbal, “o melhor do mundo, quiçá até da Europa”, como lembrou, e muito bem, alguém…  Os fumadores inveterados davam escapadelas até ao passeio em frente à montra, deixando um rasto de pontas de cigarros na calçada.  Houve também que aproveitasse para informar a família que o encontro estava para durar ou quem descansasse o olhar sobre os livros expostos, sempre com o ouvido no que era dito.







 

Já o sol se tinha posto há muito quando a Rosa Azevedo fez o resumo do que fora dito. Manuel Medeiros, como bom anfitrião, disse as palavras finais. A viola e a voz do Bartolomeu, desta vez acompanhado pelo João Frada, animaram os últimos momentos de convívio de alguns resistentes. Consta que alguns destes ainda foram saborear o célebre choco frito setubalense.

Poesia Incompleta


«26 Março, 2012 - Amanhã, a PI fechará portas. Espera-se que as reabra em breve, num novo local.»


Até já, Mário! Até já, Poesia Incompleta!

«... aqui dentro, nesta livraria, o tempo corre para mim, suave, permitindo-me aceder aos meus prazeres.»


SEMPRE FOI ASSIM E SEMPRE ASSIM HÁ-DE SER


A Terra gira sobre ela própria e à volta do Sol. Sempre foi assim e sempre assim há-de ser.

Crescemos a pensar na imutabilidade das coisas. Aprendemos a gostar das coisas que sempre ali estiveram e daquela forma. O tempo fez-nos apaixonar pelo que não se altera, pelo que se mantém estável, pelo que não nos atraiçoa. Sentimo-nos seguros com o que conhecemos.
 
A globalização e os grandes centros de distribuição, iguais em todo lado, vieram mudar um pouco este paradigma. Os mesmo locais com os mesmo produtos, em diferentes sítios do mundo. Tanto importa comprar aqui como lá. Mas é impessoal. Frio.

No entanto há resistência. Há coisas que nunca mudam, ou se mudam, é numa adaptação ao prazer que já antes se transmitia.

 
Gosto de entrar numa livraria e poder cheirar o papel dos novos livros. Gosto de poder observá-los, folheá-los, lê-los, pegar-lhes. Gosto de ter liberdade de escolha, de poder ver para além das tabelas de vendas e das modas e das tendências. Gosto da calma e do silêncio. Do respeito. De falar com quem sabe, de um conselho, de uma procura. De encontrar um clássico, uma novidade, um fundo de catálogo. Gosto de experimentar novas leituras que venham ao meu encontro. Gosto de partilhar descobertas.
 
Gosto de poder beber um café a ler um jornal, a folhear uma revista, a ler uma badana. De ouvir a conversa do lado acerca de um livro, um autor, uma ideia, uma forma.
 
Gosto de sentir que por mais que lá fora o trânsito se agigante, as pessoas se apressem e a vida corra desenfreada, aqui dentro, nesta livraria, o tempo corre para mim, suave, permitindo-me aceder aos meus prazeres. Com calma. Com vontade.

Pelo menos enquanto a Terra gira à volta dela própria e à volta do Sol. Como sempre foi e sempre será.


Alexandra Vieira
Livraria Arquivo (Leiria)


[Mensagem de quem, não podendo ir a Setúbal, também quis participar no III Encontro Livreiro]

«... pelo que fazem pelo livro.»

Que tudo esteja a decorrer bem, pois bem merecem pelo que fazem pelo livro.

Abraço amigo para todos.

Antero Braga
Livreiro, Lello / Prólogo (Porto)


[Mensagem de quem, não podendo ir a Setúbal, também quis participar no III Encontro Livreiro]

segunda-feira, 26 de março de 2012

Viagem Sentimental I e II

Cartaz do III Encontro Livreiro, desenhado pelo Irmão Lúcia

Livraria Culsete, casa do encontro

Manuel Medeiros, na intervenção de abertura do encontro

Fátima Ribeiro de Medeiros, uma das organizadoras do encontro

 Luís Guerra, um dos organizadores do encontro

Sara Figueiredo Costa, uma das organizadoras do encontro (falta a Rosa Azevedo, que não consegui fotografar, já que andava sempre de um lado para o outro com o microfone)

A embaixada de Portalegre com notícias de resistência

Conversas, testemunhos, histórias, interrogações

A conta da minha família na Culsete

«Eis a crónica fotográfica do III Encontro Livreiro que juntou ontem, em Setúbal, mais de 50 pessoas ligadas aos livros, entre livreiros, editores, estudiosos, jornalistas e leitores. O texto sobre o que por lá se passou fica para mais tarde. A triste notícia da morte de António Tabucchi obriga-me a outras escritas.»


Escola Secundária Sebastião da Gama

Gare Rodoviária da Av. 5 de Outubro

Gare Rodoviária da Av. 5 de Outubro

 Tróia, do outro lado do Sado.

Vitória Futebol Clube

Estátua do Bocage

Domingo em Setúbal, para o III Encontro Livreiro. Reencontro com o passado, com memórias, casas, ruas, espaços, pessoas. Uma viagem sentimental.



Luís Ricardo Duarte
, A volta do parafuso.

«‘foi bonita a festa, pá’»


«As notas sobre o Encontro Livreiro foram sendo tomadas ao longo da tarde, mas não será hoje que as alinho no ecrã, porque o tempo está a ser escasso para tantas empreitadas. Aqui ficam algumas imagens e a promessa de voltar ao tema nos próximos dias. De resto, posso fizer que ‘foi bonita a festa, pá’. E que para o ano há mais.»

Sara Figueiredo Costa, Cadeirão Voltaire

«Os tempos vão difíceis para o livro tradicional. Há contudo para aí muita malta resistente que adora a Internet mantendo-se entretanto fiel ao velho livro.»

Caros:

Como o nosso amigo Manuel Medeiros já fez o favor de me enviar de véspera o texto que vos leu (vai ler?), já sei que motivação psicológica e incentivo não vos falta neste momento, porque estimular e espicaçar as pessoas à acção e à cooperação é cá com o "nosso Manel", como os amigos lhe chamam.

Sugeri-lhe que talvez os presentes esperem da sua liderança algumas sugestões de pontos concretos para discussão - pequenos, médios ou mais largos gestos de cooperação para melhoria do statu quo. Não significa que seja ele a determinar a agenda, mas que seria bom sugerir possíveis pontos de discussão para que o encontro não redunde apenas num convívio, porém que dele surjam passos concretos, ainda que pequenos, rumo a uma melhoria do estado de coisas.

Estou a meter a foice em seara alheia. Tenho uma pequena editora aqui no meu Departamento, que fundei e dirijo, destinada a divulgar em inglês obras da literatura e cultura portuguesas, todavia não tenho nenhum jeito para livreiro, se bem que essa seja uma profissão que admiro imenso e bem gostaria mesmo de a ter se não fosse professor. No entanto, sou deveras desastrado nesse domínio. Quando era estudante e vivia em Setúbal, um dia foi-me pedido que fosse para aí (a livraria então chamava-se Culdex) substituir um colega meu que adoecera e aí trabalhava em part-time. Fui. O gerente tentou orientar-me porém, a dada altura, testemunhou uma cena fatal para a minha curtíssima vida de livreiro: um cliente entrara a perguntar por um livro. Verifiquei que a livraria não tinha, mas sabia onde se encontrava à venda e sugeri-lhe que fosse lá adquiri-lo.

Foi o meu fim. Nunca mais tive hipóteses de vender livros. Só sirvo para consumidor. E em que consumidor deles me tornei! Já escrevi uma crónica sobre livro como o meu último fetichismo e aos poucos a minha casa vai-se parecendo mais e mais com uma livraria. Todavia não vendo, só compro.

Os tempos vão difíceis para o livro tradicional. Há contudo para aí muita malta resistente que adora a Internet mantendo-se entretanto fiel ao velho livro.

O Luís Guerra pediu-me que teclasse esta mensagem e ela aí vai com a minha pena de não ser eu a lê-la em pessoa, sinal de que estaria aí com vocês num convívio rodeado de cheiro a papel antigo, que nunca o há a mais, pese embora o que o Manuel apregoa em título de um deles.

O meu abraço deste outro lado do rio Atlântico, com votos de uma grande jornada de trabalho profícuo e solidário.

Onésimo
Westerly, Rhode Island, 24 de Março de 2012


[Mensagem de quem, não podendo ir a Setúbal, também quis participar no III Encontro Livreiro]

III Encontro Livreiro - Textos e Mensagens

A partir desta noite, e durante os próximos dias, publicaremos aqui os textos lidos na abertura do Encontro Livreiro, bem como as mensagens que nos foram enviadas (por e-mail e sms) por quem, embora não podendo ir a Setúbal, também quis participar.

Aproveitamos para apelar a todos os participantes que nos façam chegar - através do encontro.livreiro@gmail.com - as suas impressões sobre o III Encontro Livreiro. 

Há, assim, ainda mais motivos para uma visita regular ao ISTO NÃO FICA ASSIM!, a casa das «Gentes do Livro».

Daremos mais notícias sempre que as houver e vemo-nos por aqui.

Encontro-Livreiro
 

Livreiro da Esperança 2012 entregue a Jorge Figueira de Sousa












Momento alto do III Encontro Livreiro foi a entrega do diploma de Livreiro da Esperança 2012 a Jorge Figueira de Sousa. Ausente por razões de saúde, o livreiro madeirense fez-se representar por sua prima Maria do Carmo Figueira de Sousa e Abreu, professora e tradutora, que aqui vemos a receber a distinção e a falar, por telefone, com o homenageado que, assim, acabou também por participar e por ouvir e sentir o caloroso e prolongado aplauso de todos os presentes neste Encontro de Gentes do Livro.

O «Livreiros da Esperança» passa, a partir de agora, a ser a homenagem das gentes do livro aos livreiros portugueses, muito esquecidos e nem sempre compreendidos na sua fundamental função de «editores» da leitura.