segunda-feira, 23 de abril de 2012

«O 25 de Abril (SEMPRE!) na Traga-Mundos»

 «Exposição de cartazes do 25 de Abril
 
Para assinalar mais um aniversário do 25 de Abril, na semana de 23 a 30 de Abril irá estar patente na Traga-Mundos uma exposição de alguns dos cartazes oficiais que a Associação 25 de Abril edita anualmente.
Estarão patentes cartazes originais de 1974-1975,1979, 1984, 1988, 1992, 1994, 1999, 2001, 2002, 2003, 2004. São de assinalar algumas raridades, como os cartazes da autoria de João Abel Manta, Vieira da Silva, Júlio Pomar, Relógio. Para além do cartaz oficial deste ano (2012), com o apoio da Associação 25 de Abril.

Por conseguinte, no dia 25 de Abril de 2012, a Traga-Mundos também estará aberta, no seu horário habitual, das 14h00 às 23h00.»


«Dia Mundial do Livro, a Festa do Livro que os livreiros promovem como sua?»


1.
Entre 2012 e 1996, escolhemos o ano 2006 para documentar a afirmação de que é verdade que alguma coisa se tem feito [ver fotos em Chapéu e Bengala]. Os vivos e os mortos são testemunhas, para além de cúmplices. Mas há mais uma razão para evocar 2006. Aquela palavra do cartaz, Primavera de Livros, evoca um célebre acontecimento. Vale a pena lembrar o importantíssimo acontecimento dessa Primavera de 2006? Aqui se evoca hoje o lançamento do Plano Nacional de Leitura, sintomaticamente desviado de festa em 23 de Abril para festa na inauguração da Feira do Livro de Lisboa: (http://alcameh.blogspot.pt/2006/06/o-pnl-na-feira-do-livro-de-lisboa.html#!/2006/06/o-pnl-na-feira-do-livro-de-lisboa.html).
Saudou-se o lançamento do Plano Nacional de Leitura. Criticou-se a exclusão das livrarias na nomeação explícita de parceiros. De qualquer forma foi uma grande esperança e nem tudo foi perda de meios e entusiasmos. Mas não vale a pena perguntar se toda a gente que acompanhou o desenvolvimento do PNL está satisfeita. Alguns dos seus críticos bem que podiam dizer e fazer mais qualquer coisa.

2.
O modelo de celebração do Dia Mundial do Livro continua a ser a Catalunha e especialmente Barcelona, com a sua bela tradição de uma rosa e um livro. Copiá-la ou adaptá-la?
No primeiro ano, de colaboração com a APEL, os catalães fizeram chegar as rosas às livrarias portuguesas para implementar o Dia Mundial do Livro, cuja proclamação pela UNESCO era a consagração do seu festivo 23 de Abril. Cópia sem continuidade. A tradição da rosa é local, muito anterior a 1926, quando se lhe junta o livro. Não deixa de ser linda, mas implantá-la… E a adaptação? Ao longo destes anos todos como se afirmou em Portugal a comemoração do Dia Mundial do Livro?

3.
Repetir, antes de responder, que alguma coisa se tem feito. Mas…
Não parece contestável a afirmação de que em Portugal tem pouca expressão a comemoração do Dia Mundial do Livro. É pena. Um país que, finalmente e já há algum tempo, se apercebeu do seu atraso quanto a níveis de leitura, só sabe fazer alguma coisinha por contabilidade e sem visão de rentabilidade. Editores? Festa do Livro, para os editores portugueses, são as suas anacrónicas Feiras do Livro. Pintadas de fresco embora, continuam anacrónicas. Nenhum livreiro pode aceitar o modo de ver que consagra um tal anacronismo. O que é de pasmar é que, salvo raríssimas excepções, dele não se tenham apercebido os nossos intelectuais. Pelo contrário, é vê-los em sessões de autógrafos a fazer o jogo das aparências, umas vezes com real promoção de vendas, mas em grande parte apenas com promoção de moscas.

4.
Respirar em vício de Portugal das Lamentações não é o mais saudável. Há que fazer mais e queixar menos. Mas não é por isso que se deixará de acusar quem tem culpa. Acusemo-nos a nós mesmos, os livreiros que desejam de há muito um outro modo de estarmos com os livros na sociedade portuguesa. Há muito que devíamos ter-nos reunido e unido para conseguirmos fazer do 23 de Abril de cada ano o dia da nossa festa. Adaptarmos a celebração do Dia Mundial do Livro ao nosso ambiente deve talvez ser assumido como um dos temas fortes do Encontro Livreiro. Sem excluir, de modo algum, a promoção de vendas, mas acreditando que ela é promovida automaticamente pela festa. Dia Mundial do Livro, a Festa do Livro que os livreiros promovem como sua? E se…? Mas que é possível, isso é.

L. V.
[texto originalmente publicado no Chapéu e Bengala]

«Basta aparecer e viver a festa que é estar numa livraria.»




Hoje é o DIA MUNDIAL DO LIVRO. Por isso eu, que também devoro livros, fui logo de manhã visitar a “minha” livraria, uma livraria independente com mais de 40 anos de idade. Lá respira-se o pó dos livros, mas um pó que nos anima e nos regala. As suas paredes estão repletas de livros, livros do fundo editorial, os tais que já desapareceram das grandes cadeias de venda. Ao som da voz dos clientes, dos trabalhadores ou de uma qualquer música de fundo podemos demorar os olhos e as mãos sobre milhares de lombadas e capas, podemos escolher uma cadeira e folhear ou ler, podemos conversar com outros leitores em tertúlias improváveis e espontâneas que por lá sempre acontecem.

As montras aguçam-me o apetite, os balcões de novidades interpelam-me, as caixas de saldos, todos da própria livraria, chamam a minha atenção para um ou outro título, a solicitude do livreiro e da sua equipa, o seu trabalho de pesquisa nas prateleiras ou em catálogos (de papel ou informáticos) levam-me a confiar.

Mas o que me agrada mais nesta livraria é o seu critério de qualidade, a não cedência às imposições da maioria das editoras, a independência do livreiro. É desta forma que ele me conquistou e continua a conquistar leitores.

A feira do livro está aí, com as suas estratégias de sedução sobre os compradores de livros. Talvez passe por lá, para espreitar os alfarrabistas. Mas o meu livreiro sabe que quer os livros de fundo quer as novidades que me interessam são sempre compradas ao seu balcão, pois o cheiro e o pó dos livros fazem parte da magia da visita à livraria. E se quiser um livro editado há dez anos (que o editor não tenha deixado de editar, sabe-se lá por que razões) sei precisamente onde o encontro. E sem etiquetas coladas na contracapa…

Hoje é o DIA MUNDIAL DO LIVRO. É um bom pretexto para visitar uma livraria independente. Não é obrigatório comprar. Basta aparecer e viver a festa que é estar numa livraria.

M.C.
Leitora

Os editores deveriam, de vez em quando, dar a Volta ao País em Livrarias





"Os preços são mais acessíveis e existe algum fundo [sublinhado nosso] de catálogo exposto – o que nas livrarias começa a ser raro – e frequentemente em saldo".

O que eu acho, Maria do Rosário e, à partida, ressalvando que não há regra sem excepção, é que os próprios editores deveriam, de vez em quando, dar a volta ao País em livrarias. Pegar no vendedor (ou comercial, como se diz agora), que é quem conhece os clientes, e ver o que se passa nos locais - fora dos hipers, correios, grandes superfícies - onde se vendem livros. As Editoras têm culpas no cartório se os livros não aparecem. Preferem ter o armazém cheio a colocá-los em consignação; preferem encher as grandes superfícies a distribuir os livros por todo o território, ou seja, preferem receber as devoluções apenas de meia dúzia de clientes do que do País todo - há livros que chegam à província apenas em 2ª edição ou mais; preferem fazer lançamentos em Cortes espanhóis e outros grandes espaços do que incentivar a leitura onde ela é mais fraca mesmo que seja grande a vontade e o esforço dos mais isolados e longínquos. Cada vez mais as editoras dificultam a ida de escritores a locais fora dos grandes centros; ficam ofendidas se o livreiro convida directamente o Autor! Os preços na Feira do Livro serão mais baixos do que no supermercado? E porque conseguem ser mais baixos num e noutro local e não o são em Sines ou Vila Nova de Foz Côa? Será que os provincianos ganham ou querem "ganhá-lo todo"? Isso é o que leva o cliente desprevenido a pensar logo à primeira!
A Feira não deveria ser local de encontro de fundo de catálogo em vez de "algum" fundo? Grande parte das novidades que vão ser lançadas na Feira só chegarão à província daqui a semanas, garanto pela experiência. Isso faz parte, não quero acreditar que dum plano, mas da prática de Editoras e Distribuidoras que tendem a sufocar cada vez mais os pequenos espaços, até à sua aniquilação total. Ficarão a sobrar as "coisas" imediatamente rentáveis EM DINHEIRO. A Cultura que se dane. Já que o livro vai acabar (?) vamos sacar o máximo possível em menos tempo. Depois queixem-se como as editoras discográficas!
Poderia, mais a frio, encher este espaço com os 1520 caracteres que faltam. Só que, aqui de longe, quando chega a época da Feira do Livro fico com calores que me entopem o discernimento para calmamente falar daquilo que nos preocupa e vamos falando uns com os outros, sem ter voz, que esta fica rouca com os baldes de água fria com que apanhamos na cabeça de cada vez que a queremos levantar.
Não recebo por mesas, por montras, por espaços. Dou visibilidade aos livros de que gosto, novos ou mais antigos. A minha livraria (e, acredito, a de muitos outros colegas) é montra gratuita de Autores e Editoras. Merecemos um pouco mais de consideração.»

Joaquim Gonçalves, A das Artes (Sines)

Ler é...


«Ler é viajar para dentro. Ler é viajar por dentro.»

Onésimo Teotónio Almeida [aqui]


sábado, 21 de abril de 2012

E livros?


«A 82ª edição da Feira do Livro vai apostar na área alimentar: a comida será variada e saudável [sublinhado nosso] para atrair e manter mais gente no recinto do Parque Eduardo VII.».

E livros?

Será que as editoras vão levar os seus fundos de catálogo - queixam-se tanto das livrarias por, na sua grande maioria, privilegiarem cada vez mais e apenas as "bestas céleres"! - ou vão levar ao Parque, apenas, os mesmos livros que os leitores vêem repetir-se, sem grandes variações e com poucas e honrosas excepções, nos escaparates, nas bancas e nos "tops"? Ou vão dar ainda um maior destaque aos que acabam de vir a lume e foram planeados e editados a pensar precisamente na(s) Feira(s) do Livro?

As perguntas são minhas, mas a frase citada, que me abriu o apetite para esta curta reflexão, não a inventei. Tropecei nela aqui. E não resisti!

Que vos parece?

Luís Guerra 

[venham daí comentários e reflexões, feitos directamente aqui ou enviados para encontro.livreiro@gmail.com]

quinta-feira, 12 de abril de 2012

«Editoras, marketing e pequenas livrarias», de Sara Figueiredo Costa, a propósito de um texto de Jaime Bulhosa, da Pó dos Livros



«Lê-se no blog da Pó dos Livros e era bom que se lesse noutros sítios. Se nem todas as editoras perceberam isto, e se algumas teimam em boicotar o trabalho dos livreiros independentes (quando negoceiam edições inteiras com as grandes cadeias livreiras ou quando ignoram pedidos de envio de livros para clientes que os vão realmente comprar, por exemplo), algo está muito mal no mercado editorial.

O auto elogio arrepia-me, por outro lado, o sobejo de modéstia diminui-nos. A verdade é que a Pó dos livros é a livraria independente que mais seguidores tem no facebook. Já ultrapassamos os 10.000. À primeira vista este facto não teria grande importância e parece uma futilidade. No entanto, 10.000 pessoas enchem um pequeno estádio de futebol. E segundo as estatísticas da página do facebook, por cada recensão sobre um livro, por nós colocada, cerca de 2500 pessoas, por todo o país, lêem-na. Desta forma, não entendo porque é que as editoras não têm um marketing dirigido para pequenos espaços. Dirigem-no apenas para as grandes superfícies. Claro, é óbvio, elas vendem muito, enquanto uma livraria independente vende muito pouco. Mas o que é que faz, de facto, vender um livro? O marketing? Sim, também. Mas não será o boca-a-boca mais convincente e duradouro de que qualquer campanha de marketing? Ainda para mais quando o público das livrarias independentes é constituído por leitores (no sentido tradicional), e não por consumidores de impulso de produtos literários. Ora, não serão exactamente os primeiros a fazer opinião? Fica a reflexão.

Jaime Bulhosa»

Sara Figueiredo Costa, Cadeirão Voltaire 

ouvirmos as opiniões e experiências uns dos outros, de forma a repensarmos estratégias conducentes à sobrevivência e dignificação do livro, do livreiro e do editor.

                                                          João Frada no III Encontro Livreiro

Caro Luís Guerra,

Parece-me que o objetivo deste Encontro era mesmo isto: ouvirmos as opiniões e experiências uns dos outros, de forma a repensarmos estratégias conducentes à sobrevivência e dignificação do livro, do livreiro e do editor. Acho que daquilo que lá foi dito, joeiradas algumas considerações, histórias e experiências sem reflexos ou consequências sobre o dito objetivo em causa, podemos estabelecer uma ou duas conclusões ou ilações:

1. Não há neste momento nenhuma Associação (de editores, livreiros, tradutores, designers e gráficos) que assuma e defenda a bipolaridade fundamental ao equilíbrio e contenção de monopólios desenvolvidos por grandes grupos livreiros. Respeitamos a existência destes grupos, que têm sabido garantir a continuidade da produção do livro  através  de uma união de esforços, sem a qual muita contribuição editorial teria periclitado, mas entendemos que eles não representam todo o mundo do livro em Portugal. E esse equilíbrio, garantido por um outro pólo que falta no mercado livreiro, onde se congreguem livrarias, editoras e demais organismos e interventores na produção e comercialização livreira, cuja ação ainda se situa fora dos mesmos grandes grupos editoriais,  podia assegurar  “mecanismos” para harmonizar custos de produção, distribuição e até de vendas, conquanto fosse criada no seu seio (de tal Associação), entre outras respostas, uma espécie de órgão especializado em definição de tabelas de custos gráficos e de preços de venda comercial. Havendo concorrência, há possibilidade de produzir e colocar no mercado livros mais baratos e mais acessíveis ao leitor, nesta época de crise e austeridade que também toca o livro e se adivinha duradoura.

2. Com preços mais competitivos, com possibilidade de negociação mais facilitada por se tratar de uma Associação, especialmente, defensora dos interesses de livreiros editores, é possível ponderar-se em projetar livros de língua Portuguesa a menor custo e com a possibilidade de maior impacto comercial em todos os espaços e eventos permanentes ou temporários, dentro e fora do País. Um organismo criado e tutelado por essa Associação poderia por exemplo coordenar todas as ações de divulgação, colocação e venda de livros, onde quer que fosse. E sempre que estas se processassem fora do País, caberia apenas aos livreiros/editores diretamente interessados na venda e divulgação das suas obras custear os respetivos gastos com transporte (através de distribuidora ou por outra qualquer via), logística e exposição no local de venda (feira ou outro evento afim), mas sempre sob a coordenação da mesma Associação. Os mecanismos e as cautelas jurídicas necessárias à definição das ações da mesma Associação teriam de ser avaliados e definidos por especialistas nesta área.

4. Muitas são as opiniões sobre a realização das Feiras do Livro. Há vozes discordantes e outras concordantes. Mas, como pelos vistos prevalecem as concordantes, e as Feiras se vão realizando em Lisboa, no Porto, em Coimbra, etc., criem-se as condições ideais para que os visitantes possam usufruir leitura, espaço e tempo lúdicos, enquanto passam os olhos pelos expositores de livros disponíveis nestes eventos tão agradáveis.     
Face às condições atmosféricas frequentemente adversas observadas durante a Feira do Livro de Lisboa (frio, calor e/ou chuva), que, lamentavelmente, se repetem todos os anos naquele espaço aberto do Parque Eduardo Sétimo, sem o mínimo de proteção para o visitante, potencial comprador e dinamizador deste evento, sugere-se que tal evento, de uma vez por todas, se realize em pavilhão ou  recinto coberto, aberto ao público, a fim de se evitarem aqueles transtornos e de não se comprometer o sucesso de vendas, tão importante para a sobrevivência do mundo do livro.

Bem, meu caro Luís, talvez houvesse mais considerações a fazer, mas creio que tu próprio, sempre atento e com um sentido bem ponderado "destas andanças", és capaz de acrescentar outras mais sugestões úteis a este "Movimento de Solidariedade e Rejuvenescimento do Livro, do Livreiro e do Editor em Portugal".

Um abraço muito cordial. 

João Frada 
[Autor e Editor (Clinfontur)]

E gostei muito de conhecer o Manuel Medeiros e a família dele. A livraria Culsete, essa, é um espanto, um verdadeiro "Ex-Multilibris".

«Centro de Investigação Manuel Medeiros»



«[...]
Sendo Manuel de Medeiros o livreiro da Culsete, fundador do Encontro Livreiro e homem profundamente dedicado à questão do livro, não me espantaria que intervenções futuras andassem por temáticas mais livrescas.»

Sara Figueiredo Costa, Cadeirão Voltaire.

terça-feira, 10 de abril de 2012

«Tu vendes livros quer dizer / entregas a cada homem / teu coração dentro de cada livro.»


LIVREIRO DA ESPERANÇA


Há homens que são capazes
duma flor onde
as flores não nascem.
Outros abrem velhas portas
em velhas casas fechadas há muito
outros ainda despedaçam muros
acendem nas praças uma rosa de fogo.
Tu vendes livros quer dizer
entregas a cada homem
teu coração dentro de cada livro.

Manuel Alegre, Praça da Canção

domingo, 1 de abril de 2012

Não é mentira, não!

Há novos textos, publicados ao longo da última semana, no «ISTO NÃO FICA ASSIM!». E agora também o TEXTO DO III ENCONTRO LIVREIRO, um texto de Manuel Medeiros lido na abertura do Encontro de domingo passado.

Apelamos a que comente os textos, no espaço próprio dos comentários, mas sobretudo a que nos ENVIE A SUA REFLEXÃO, tendo ou não participado fisicamente nos Encontros, SOBRE OS TEXTOS, SOBRE O ENCONTRO LIVREIRO, SOBRE A «ESPERANÇA NO FUTURO DA LEITURA, DO LIVRO, DA LIVRARIA.

É fundamental, no nosso entender, que a reflexão, a participação  e o ENCONTRO LIVREIRO continuem aqui no blogue, um espaço permanentemente aberto à participação das «gentes do livro».

Até já!

Encontro-Livreiro 
encontro.livreiro@gmail.com

Texto do III Encontro Livreiro [Manuel Medeiros]

Nota prévia: 
Para cada um dos dois encontros anteriores Luís Guerra redigiu e leu um texto. No terceiro encontro não achou bem ser ele a redigir um novo texto, nem por isso admitindo a sua falta. Por isso pediu a outro de nós que dele se encarregasse. Fica assente, pois, mais este ponto: haverá em cada ano um novo «Texto do Encontro Livreiro».

Manuel Medeiros lendo o Texto do III Encontro Livreiro

Último domingo de Março de 2012 e o Encontro Livreiro de novo a acontecer. O que dele se espera é que se vá afirmando como um bom contributo para a criação de novas perspectivas e novos modos de estar no Mundo do Livro, o que implica um propósito de continuidade.

Acontecendo assim no último domingo de Março e aqui em Setúbal, já por três vezes e em três anos consecutivos, o Encontro Livreiro pode e deve considerar-se instituído ou implantado entre as Gentes do Livro, assim justamente designadas.
Gentes do Livro é uma designação adequada para abrir o Encontro Livreiro à participação de todos quantos se reconhecem, de um ou outro modo, no culto do livro.

Estabelecida a livraria como ponto de encontro para o Encontro Livreiro. Porquê? À pergunta a livraria não deve responder como espaço físico, muito menos na era em que a palavra se ouve dizer na bonita expressão «livraria on-line», bonita expressão pela conquista que se lhe subentende para a difusão do livro e desenvolvimento da leitura.
O Encontro Livreiro acontecendo na Culsete, até agora e até o espaço o permitir, mas isso foi e vai sendo assim por razões de prazer e praticabilidade. Na Culsete e não da Culsete, como se sua propriedade ou em sua dependência.
A livraria é o nosso ponto de encontro porque é isso mesmo que um bom leitor reconhece numa livraria, em relação aos livros e autores que encontra e lê, e, também, porque muito a livraria é um dos problemas de que as Gentes do Livro têm de aproximar-se e ocupar-se, como aliás se está a perceber que já vai acontecendo, ao menos pelo que tem vindo à pena de uns quantos jornalistas culturais, alguns muito próximos desta iniciativa do Encontro Livreiro.

As Gentes do Livro, por falta de respeito para com a função da livraria, são, também por isso e colectivamente, responsáveis por uma grande percentagem dos atrasos culturais, sociais, económicos e políticos do país que somos. E ninguém escapa. Colectivamente, bem entendido. Nem os próprios livreiros, na crónica incapacidade de darem solução à sua pedintice dependente. Nem também, de modo nenhum, além deles e dos políticos, escapam os escritores, os editores, os professores, os jornalistas e, em geral, as pessoas instruídas ou doutas, assim apresentadas por seu grau académico.

Deixar de acreditar pouco e sonhar pequenino! As livrarias não estão condenadas à simples luta pela sobrevivência, modo de luta talvez o mais inútil e provavelmente fatal. É possível acabar com lamentos sem eficácia se cada um dos referidos sectores assumir as suas responsabilidades e contribuir com a sua parte nas soluções desejáveis e evidentemente realizáveis, embora difíceis, como se é obrigado a dizer.
Felizmente que sempre houve e cada vez há mais outros modos e meios para se chegar aos livros. Temos de o dizer e assumir por mais que nos desagrade a nós livreiros. Dizemo-lo porque reconhecemos que, sem esses outros modos e meios, os nossos níveis de leitura ainda mais baixos seriam.
Quanta dificuldade! A dificuldade de acesso ao livro foi, tem sido sempre, muito grande e para muita, mesmo muita gente, neste maravilhoso Portugal. Se alguém intentar negá-lo que seja deixado a falar sozinho ou a ler, por exemplo, Raul Brandão. Desde o analfabetismo à impossibilidade de expansão do comércio livreiro, por este ser muito pouco atractivo financeiramente, é fácil encontrar as razões por que a livraria não se desenvolveu e o livro não se desenvolveu e a leitura não se desenvolveu: um atraso de vida!

O Encontro Livreiro pode considerar-se instituído, já se disse. Mas não deve ser entendido nem desejado como uma instituição. Simplesmente um movimento. Realiza, é certo, um evento anual de convívio com esse nome de Encontro Livreiro. Mas é isso mesmo que aqui se entende por encontro: movimento em que ao convívio se chega e dele se parte.

O Encontro Livreiro é simplesmente um movimento de aproximação entre quem, vivendo e trabalhando no meio dos livros, já percebeu que não faz sentido, hoje mais do que nunca, andarmos a esforçar-nos cada um por si, numa guerra que só pode ser vencida em comum, lado a lado. Se é que se pretende merecer que o livro continue a ser uma das mais ricas potencialidades criadas pelo homem civilizado para progredir em direcção a todas as suas utopias e ambições e conseguir que, trabalhando com ele e para ele, se vão colhendo bons proveitos e justos proventos.

Para que a Humanidade continuasse a criar-se em desenvolvidos conhecimentos e artes, o contributo do livro foi admirável e sempre se dirá que incalculável.
O livro vai continuar. Nós queremos. E mesmo que não quiséssemos, ainda assim continuaria de um ou outro modo, connosco ou sem nós. Mas decidida e seguramente nós queremos! Como pudermos e soubermos. E o que não queremos é que continue de uma maneira qualquer. Vai continuar e exigimos, de nós e dos outros, que seja da melhor maneira.

Por mais que hoje os indivíduos, os grupos e mesmo as nações sejam impotentes para influir na progressão dos modos de sermos a Sociedade Humana mais humana que todos desejamos, não podemos demitir-nos nem desprezar a nossa gota de água, sem merecermos, por isso, um convite a sairmos da carruagem em movimento, um movimento veloz e acelerado que com toda a justiça nos trucidará: encerramentos, desaparecimento.
Queremos que o livro e as livrarias não fiquem para trás na corrida para o futuro e, sem receio de sermos contraditos, afirmamos que já perdemos muito tempo e oportunidades, sem necessidade nenhuma e sem dúvida por falta de discussão, de autoridade, de isenção, de imaginação e coragem.

O Encontro Livreiro tem estas perspectivas de base, mas não se lança nem nos lança para as nuvens. Somos nós que participamos nele e estamos aqui, encontramo-nos e convivemos, nesta satisfação de irmos juntos para onde desejamos. E é por isso que «Isto não fica assim!».
Aqui estamos nós e conscientes de que há muito quem também queira tudo o que nós queremos, mas não confia em ninguém e por isso não se dispôs a vir conviver connosco.
Viemos aqui descontraidamente encontrar-nos uns com os outros para, convivendo, passarmos a conhecer-nos ou a conhecer-nos melhor, trocando ideias e imaginando futuro. Para trás essa pequenez dos que se julgam melhores do que os outros. Nem mais nem menos importantes uns do que os outros, apenas cada um em seu papel e seu lugar. Acabar com o encardido individualismo. Um individualismo inevitável em muitos casos, concorde-se.
Inevitável? Em que sentido? Por querer respeitar-se, houve quem se ouvisse nesta pergunta: «acreditar em quem, contar com quem?». E haverá por aí muitas histórias semelhantes, por não se ter encontrado quem se respeite a si e respeite os outros, quem, portanto, mereça um respeito e confiança capazes de produzir associação e colaboração, em ordem a objectivos comuns.

O Encontro Livreiro pode ser um ponto de partida para alguma coisa, mas, se progredir igual a si próprio, nunca poderá ser, para seja o que for, um ponto de chegada. É fundamental que se mantenha fiel à sua condição de encontro em função da convivência entre pessoas que têm em comum a convivência com os livros.

Pessoas e livros! qualquer que seja o futuro do livro, qualquer que seja o modo de sobrevivência das livrarias!
Se estivermos de acordo, poderá sair daqui um apelo aos profetas da morte do livro e do desaparecimento das livrarias para que sejam mais comedidos nas suas certezas ameaçadoras e dediquem a sua atenção a melhor compreendermos o presente, eles e nós, o que não é nada fácil nem será trabalho menor. Alguém até poderá dizer-lhes: «se ainda estivesse em forma para agarrar um futuro meu, nada, a não ser a minha curteza de vistas, me convenceria a deixar cair os braços, em meu trabalho livreiro, perante as realidades actuais em mudança».

Sem adaptação, que vida seria a Vida? A História da Vida, a História Humana, a História tout court, é uma história de mudanças, de adaptações, de novos modos de ser e de estar. É tão eloquente estar preocupado com o fim do livro ou da livraria como com o fim da espécie humana ou o fim do mundo. A Ecologia e os avanços da Física também procurando, prevendo e anunciando um destino.
Morrem as formas e renova-se a arte! Esta é a resposta para o desafio das mudanças.

Estará por aí alguém a sentir inveja dos livreiros do futuro?
Se os novos meios e modos de produzir escrita, de aceder à leitura, de produzir e comercializar o livro forem dedicados às pessoas e por pessoas dedicadas à escrita, ao livro e à leitura…
Se…
Porque, se se quiser, é possível. Como nunca! Os meios são imensos e avançadíssimos, em comparação com os do passado. Daí a inveja, justificadíssima inveja!
Temos de concordar com o invejoso: amanhã será melhor, porque há mais e melhores meios.

Neste ponto alguém nos dirá: «e as livrarias que fecham?»
Por favor, venham com isso, sim, mas caso a caso! Há casos difíceis de aceitar e que põem o dedo na ferida e há também aqueles outros em que é natural o encerramento. Sempre aconteceu. E com tantos ataques à boa saúde não seria de espantar que houvesse ainda mais desaparecimentos. De facto, a resistência dos livreiros é admirável e só se explica pela paixão e pela carolice.
Há, porém, o outro lado deste disco. É obrigatório fazer a outra pergunta: «e as livrarias que estão a renovar o panorama livreiro português com um novo modo de ser livreiro e de servir a leitura?»
São poucos, os bons e os novos livreiros?
Muito poucos e sabemos porquê. Mas esta questão dos poucos é muito curiosa! É uma vergonha de vida, neste belo país, termos de falar de assuntos sobre que não há investigação suficiente -a nossa tão autorizada ignorância!…
Como é que estamos em Portugal, quanto a história e sociologia da leitura e do livro e da edição e do comércio livreiro? No Encontro Livreiro, e não só, já temos quem, felizmente, pode responder com autoridade. Que investigação sobre livrarias? A investigação que está por fazer sobre as livrarias no nosso país crê-se que isto confirmará: estamos muito melhor hoje do que quando, lá pelos anos cinquenta do século XX, ele, o jovem que andava por essa altura nos seus vinte anos, ia imaginando uma Grande Livraria Açoriana. Nem uma havia em qualquer das nove ilhas!
E por cá, no Portugal continental? Muito melhor? E como estamos, ainda hoje?
Melhor, sem dúvida. Mas…

Há quatro décadas o mesmo jovem, já com mais uma dúzia de anos intensamente vividos, começou em Lisboa uma carreira livreira que veio a assentar em Setúbal. Assistiu, pois, de muito perto, a tudo quanto, no entretanto, de bom e de mau no mundo do livro e da leitura se viveu em Portugal. É evidente que não se foge aqui, infelizmente, à tal regra da insuficiente investigação. Não está feita uma investigação que possa arbitrar a discussão sobre melhor ou pior, neste assunto de livrarias, em antes e depois. Mais do que por uma tese, portanto, fala-se por um sentir experiente e alguma observação, ao afirmar que houve progressos e que se continua a progredir no conceito de livraria e de livreiro.

Que se apontem, devem ser apontadas, as experiências feitas, hoje e já ontem, de norte a sul do país. Precisamos de estudar e divulgar o que de bem feito se faz. Talvez em mais livrarias do que se pensa. Uma convenientíssima justiça em que o Encontro Livreiro pretende colaborar com a sua iniciativa de atribuição do diploma dos Livreiros da Esperança. A partir deste III Encontro Livreiro, em cada ano e nova edição se há-de reler em A Praça da Canção de Manuel Alegre o poema «Livreiro da Esperança».
Momento muito feliz deste III Encontro Livreiro, a entrega que vai fazer-se a Jorge Figueira de Sousa do diploma de Livreiro da Esperança 2012! Nesse momento mais se vai falar da iniciativa e da sua relação com «o signo da esperança no futuro da leitura, do livro e da livraria», sob o qual o nosso encontro anual foi proposto que se realizasse agora, em 2012, conforme a seu tempo foi divulgado no «Isto não fica assim!», que é, como todos sabemos, o nosso blogue do Encontro Livreiro. Não nos detenhamos, pois, neste ponto, que outros também pedem uma devida atenção.

Com efeito… «E o digital, o on-line?» De modo algum este ponto poderia faltar! É indispensável ir discutindo, tomar posição.
Responder por perguntas. Esse é que é o perigo temível e temido, o digital, o on-line? Perigo porquê? E para quem? De certeza que só para quem está doente e creio que colectivamente todos o estamos um pouco. Foi por isso que se disse que o Encontro Livreiro pode ser um ponto de partida. Um longo caminho de reflexão, discussão e acção está aberto e em várias frentes. O Encontro Livreiro é mais uma delas e crê-se que veio ocupar um vazio ou um modo de estar que é indispensável. E não apenas se há-de ficar por umas preciosas horas de convívio, num belo domingo de início de primavera, numa cidade nem a norte nem demasiado a sul, ideal para as Gentes do Livro de todo o país se encontrarem em almoço amigo e em tarde de conversa, a saborear o melhor moscatel do mundo.
Diz-se «não apenas» porque durante todo o ano as pessoas se vão encontrando e, com estas maravilhas da internet, nunca se interrompe o diálogo. O «Isto não fica assim!» vai ser cada vez mais um determinante ponto de encontro na conjugação de ideias e iniciativas das Gentes do Livro. Porque, de facto, para acreditar em que «isto não fica assim» terá de se contar com a disponibilidade e colaboração de todos.

Quem se dispôs a participar nos encontros anteriores e neste terceiro igualmente, saberá de suas razões pessoais, mas todos em conjunto sabemos que participamos por nada, a não ser por um autêntico interesse na valorização das nossas actividades e por afirmação de convicções referentes ao mundo do livro, da livraria, da leitura. Há aqui a consciência de que se seguiu o caminho mais difícil para levar por diante, e com êxito, esta iniciativa. O Encontro Livreiro teimou e teima por nascer e crescer de dentro para fora, como nos ensina a terra quando decide levar a fruto uma semente. Neste nosso tempo, por boas e más razões, fomos levados, como nunca dantes, a viver virtualmente, num modo de estar muito artificial, dominantemente ficcionado, aparente. A imagem é que é indispensável ao convencimento. Fazem alguma falta, as razões? O aparente é o credível, o que se vê é que existe. O real tem muita dificuldade em convencer-nos de que as aparências iludem. Ao ponto de o dinheiro, um simples valor fiduciário, se tornar senhor de todas as coisas. E o princípio que comanda aí - o financeiro acima do económico, comanda em tudo. Ora, o Encontro Livreiro, num ambiente assim, ao querer que as coisas sejam valorizadas pelo que são, não pelo que as pessoas dizem no palco, mas no seu íntimo, é utópico. Lançar desse modo uma iniciativa é acreditar ou com muita ingenuidade ou com muita serenidade e segurança em que no homem há muito mais a admirar do que a desprezar.

Há quem pode e há quem queira: com quem se há-de contar?
Sem reticências, no Encontro Livreiro só é possível contar com quem quer, esperando, sem a mão de pedir estendida, que quem pode também queira.
Tudo, no irmos em frente, vai depender de não andarmos a contar com quem está no seu direito de não vir connosco, mas de, muito positivamente, todos os que acreditamos na boa convivência e na necessidade de convergir em Encontro Livreiro, sentirmos que vale a pena. Sempre o sentirmos!

M.M.
2012
Setúbal
Último domingo de Março