terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pedro Vieira vence Prémio PEN Clube Primeira Obra


O Prémio PEN Clube Primeira Obra acaba de ser atribuído a 

Última Paragem, Massamá, de Pedro Vieira. 

Parabéns ao autor e à editora!

Li-o de um fôlego e com muito prazer quando saiu. Adivinhava há muito que o Pedro Vieira, o irmão que conhecera nos afazeres livreiros (sim, não esqueceremos nunca que o Autor Pedro Vieira foi – é, para sempre! – Livreiro, de tão variadas experiências magnificamente retratadas em muitos dos textos do «Irmão Lúcia»), apenas adiava o momento de começar a oferecer-nos os livros que guardava, que guarda, dentro da sua multifacetada oficina criativa.

Mando daqui um abraço fraternal ao Pedro, um parceiro comprometido, desde a primeira hora, com este ponto de encontro das gentes do livro. Não esquecemos que são dele os cartazes do Encontro Livreiro, tendo-o também, no ano corrente e apesar da sobrecarregada agenda, enriquecido muitíssimo com a sua presença física e participação activa.

Luís Guerra
[ em nome pessoal e do Encontro-Livreiro ]

«Com dois anos e meio este mais novo livreiro do mundo demonstra que a continuidade da «espécie» está assegurada!!!»


I
Antes de mais, documentar fotograficamente. Aqui está ele, o mais novo livreiro do mundo, fotografado em 24 de Março deste ano de 2012, dia em que fez dois anos. Em 24 de Outubro, por conseguinte, passou a ter dois anos e sete meses. Dois dias depois ingressou objectivamente na profissão de livreiro ao fazer uma venda de sua inteira responsabilidade e tão bem sucedida como e quanto se verá na história inteiramente verídica que se vai contar só por graça ou talvez nem só.

II
O Livreiro Velho que esta história vem lançar na blogosfera, sendo que se considera um discípulo de Espinosa ainda que humílimo, não pode gostar de profecias. Não se convence de que a profissão de livreiro esteja em extinção. Razões, isso sim, apenas para ver a profissão em processo de mudança, quer por adaptação quer por aperfeiçoamento. Do baixo estatuto a que tem estado votada, poderá passar a profissão com exigências de alto nível. Isso acontecerá muito naturalmente logo que chegue ao fim a era das tradicionais mercearias de livros, cujo desaparecimento é indispensável para que tal se torne viável. Quando o livreiro, numa das livrarias que serão as únicas livrarias de então, for um perito indispensável, enquanto leitor preparado para o apoio ao público, quantos livreiros haverá, que preparação lhes será própria e que reconhecimento quer de autoridade quer de remuneração lhe virá da sociedade?
Não se está falando de outro, mas do público que cultiva e mais terá de cultivar a leitura em necessidade ou gosto de construir biblioteca própria.
Havendo cada vez mais livros e sendo cada vez mais necessário escolher e sendo cada vez mais necessário acertar e sendo muito bom não só encontrar como também dar-uma-vista-de-olhos-antes-de…
Um cuidado aqui se toma com não reduzir o conceito de apoio ao de aconselhamento. É muito cativante o saber e arte do bom conselho e a sua aceitação. Apoiar leitores e leitura, porém, é e deve ser muito mais.
Razões contra as profecias? É que a inteligência nem está em perigo de se perder nos novos suportes da escrita nem estão por perder-se as eternas e ricas vantagens da leitura em suporte livro. E de qualquer modo a grande questão não é a do livro, mas a da leitura. Também em crise?
O problema da leitura, sendo o problema do livreiro, assegura-lhe um mais que duradouro futuro, porque a expansão da Noosfera é irreversível e ler é-lhe intrínseco. Também de Teillard de Chardin humílimo discípulo...

III
E então a história do «livreiro mais novo»?
O Manuel Henrique veio mais cedo do infantário porque apareceu com febre. Por um bocadinho à espera da mãe teve de ficar na livraria com a avó que o sentou no seu colo enquanto ia conversando com o Sr. Valério. Pedida que lhe foi a ela uma ajuda para a escolha de um livro a oferecer a uma criança, o Manuel Henrique, que desde sempre andou pelo cantinho dos livros infantis, seguiu-a. Percebeu logo do que se tratava. Várias sugestões apresentando a avó e já o Manuel Henrique a chamar a atenção para um dos livros da Série Madagáscar. Deixar o cliente a apreciar e escolher, ir continuar a conversa interrompida. No cantinho dos infantis, ficam cliente e «livreirinho», este insistindo na sua sugestão com o argumento de que conhecia a história e era bonita. Depois também se afastou, mas por pouco tempo. Voltando, ao ver que o cliente ainda não se decidira, levantou o livro e exclamou: «Madagáscar! Madagáscar». Pronto, cliente decidido! Ao vir para pagar, «levo este», um diálogo: «que idade tem este menino?» «Dois anos e meio». «Se a história o encantou, vai também agradar a outra criança». O Manuel Henrique estava tão consciente de que efectuara uma venda que quis que fosse ele a receber o dinheiro. Sabia da profissão. Tinha aprendido. Ele, a prima e o irmão – cinco e quatro anos - desde quando se habituaram aos livros e quantos já «leram», tanto acompanhados como sozinhos? E não só. De há uns tempos para cá, além de irem por hábito ver livros no cantinho próprio, puxam cadeiras para junto do balcão, sobem e brincam a vender. As pessoas acham muita graça. Desta vez aconteceu. As coisas foram mais longe. Com dois anos e meio este mais novo livreiro do mundo demonstra que a continuidade da «espécie» está assegurada!!!

L. V., «O mais novo livreiro do mundo», Chapéu e Bengala

sábado, 27 de outubro de 2012

«Para que querem, escritores e editores como estes, as livrarias?», pergunta o nosso amigo Joaquim Gonçalves, o Livreiro de Sines.

Chover no molhado


Acabado o almoço, como sempre, sento-me um bocado no sofá da sala a espreitar as notícias na televisão ou, simplesmente, a mudar de canais para ver “o que é que está a dar”. A maior parte das vezes o que dá é o sono. E ali fico para, automaticamente, sem despertador, acordar às três da tarde, hora de ir para a livraria.

Hoje não adormeci. Não só por causa da gritaria de crianças à minha volta – é sábado e há mais gente em casa – mas, acima de tudo, porque fiquei preso a olhar para uma edição especial do programa “Alta Definição”.
Depois de “O que os teus olhos dizem” chegou esta semana à livraria um novo volume transcrito do programa de Daniel Oliveira, este, com o subtítulo “A verdade do olhar”.
Sem juízos de valor, quer sobre o programa, quer sobre os livros, lá fiquei a olhar para o ecrã onde, em rodapé, começou a passar uma mensagem referindo que o autor ia estar a autografar livros no hipermercado X, de tal sítio, às tantas horas e, no mesmo hiper, mas de outro sítio, duas horas mais tarde, se não me engano.
É claro que os autores precisam que os seus livros vendam! É claro que as editoras devem fazer o seu trabalho para que isso aconteça! Acredito, até, que é naqueles locais, aquelas catedrais do consumo que têm levado à miséria tantos portugueses, onde algumas editoras vendam mais livros.
Não é claro, para mim, que algum autor ali dê autógrafos de vontade; Não é claro, para mim, que seja um espectáculo digno de quem escreve e merece respeito; Não é claro, para mim, que esses autógrafos tenham algum valor. É claro para mim que, ao contrário dos encontros de escritores com os seus leitores organizados nas livrarias, ali nada se ganha para o espírito; ali, o autor não tem as perguntas, as respostas, os anseios do leitor; ali, o escritor continua a desconhecer o leitor. Felizmente há escritores que se interessam por isso. E livreiros. E editoras.
Quem não se move neste meio não imagina as dificuldades em levar um escritor a uma livraria. A distância… O tempo… A rentabilidade… E se, depois, está pouca gente?...
Nem todos fazem prevalecer a quantidade sobre a qualidade. Ainda há quem dê importância à palavra. Às palavras.
Ali só fala o dinheiro. E esse, não é preciso? Claro que é! E o espírito, a alma ou seja lá o que lhe queiram chamar?!
- Olha fui comprar serradura para a caixa do gato e estava lá um boneco a escrever o nome dele automaticamente num livro! ‘tás a ver? ‘tás a ver? Sou uma pessoa importante – o tal de autor até escreveu o meu nome!
Três da tarde, apaguei a televisão e fui abrir a porta da livraria. Abri o Facebook e, logo no início, uma mensagem da editora dos ditos livros publicitando o envio, para qualquer parte do mundo, com 10% de desconto.
E eu a pensar que, enviando para todo o continente livros pelo preço de capa, sem custo de portes, estava a ajudar alguma coisa ao público, às editoras, aos escritores e, claro, à livraria! Santa ingenuidade de sonhador.
Desliguei o Facebook, abri o Word e vim para aqui escrever. Pelo menos tinha alguém com quem falar – eu mesmo. Depois publico no Facebook e pode ser que mais alguém me leia e saiba responder à pergunta que me assalta:
- Para que querem, escritores e editores como estes, as livrarias?

Sines, 27 de Outubro de 2012
Joaquim Gonçalves

Vitor Wladimiro Ferreira, professor aposentado, director editorial e, principalmente, leitor contumaz

Vitor Wladimiro [1934-2012] na Livraria Culsete (foto: arquivo da livraria)

«Antes de escrever estas duas linhas fui às minhas estantes recordar os inúmeros livros - algumas preciosidades, já então com dezenas de anos! - que desencantei na década de 80 do século passado na "Esperança" quando dava apoio ao então Centro de Apoio Universitário do Funchal.
Tratava-se de obras esgotadas e que nem sequer encontrava nos alfarrabistas de Lisboa.
A "Esperança" deu-me não poucas alegrias. Quem me atendia era simpático, prestativo e até descobria exemplares que eu não conseguia encontrar mas que estavam ali à espera que eu os colhesse. PARABÉNS.


Vitor Wladimiro Ferreira, professor aposentado, director editorial e, principalmente, leitor contumaz. 
 
[ Mensagem recebida na caixa de correio do Encontro Livreiro aquando da subscrição da Carta Aberta de Gentes do Livro pelo reconhecimento público do exemplar percurso profissional do Livreiro Jorge Figueira de Sousa, da Livraria Esperança. ]

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Ler é também uma forma de escrever...


«Ler é talvez uma forma de estar sozinho comigo mesmo, com a minha memória, com as minhas circunstâncias. E é também uma forma de escrever, de me escrever e de me inscrever naquilo que leio.»