quarta-feira, 17 de abril de 2013

«E pur si muove!»


Nuno Seabra Lopes, falando no IV Encontro Livreiro

Começando como um desígnio de Manuel Medeiros – plenamente apoiado por alguns amigos de notória proactividade – o Encontro Livreiro de Setúbal conta já com 4 sessões anuais, um prémio carreira, um blogue ativo e uma extensão por terras transmontanas. Mas o que é, de facto, o Encontro Livreiro? Por que caminhos segue e quais os objetivos presentes neste Encontro anual de amigos do livro? 

Tendo estado presente em todos exceto no primeiro, tenho visto o desenrolar desta iniciativa, escutado as diversas intervenções e acompanhado o contexto em que se move. 

Em primeiro lugar, realço o facto de a ação não se arrogar mais do que ser um encontro de amigos, um lugar de convívio entre pessoas com interesses comuns, onde se propicia o diálogo e a troca de experiência e de ideias. A par deste conceito, têm sido desenvolvidas algumas dessas ideias, como a instituição do Prémio Livreiro da Esperança, ou a parceria com a Fundação José Saramago para a celebração do dia da Livraria e (agora) do Livreiro a 30 de Novembro. 

Desenvolvendo-se num ambiente que declara não acreditar na Associação existente para os auxiliar e representar (a quase totalidade deles afirma não pertencer ou querer pertencer à APEL), claramente acreditam no livre espírito associativo. Associativo na medida em que compreendem que juntando-se conseguirão obter pequenas vantagens (informativas, arquiteturais, estratégicas) para melhorar a sua prática profissional e descobrir novas formas de reinventar a profissão. 

Tal como referiu António Alves, da Traga-Mundos (o livreiro transmontano presente), só pelas pequenas coisas (descoberta de autores locais, estratégias de colocação e informação de procura de produtos, realização de ações comuns com distribuição de custos, etc.) já compensa. 

O próprio discurso dos Encontros tem alterado ao longo dos anos. De primeiros anos onde a catarse das condições de mercado só era interrompida pelos votos de amor ao livro, as intervenções foram ficando mais claras, avançando-se ideias e discutindo-as, ganhando em propósito e dando ao Encontro mais lastro, mais capacidade para implementar ações e mobilizar pessoas, ou seja, para crescer. 

Como alguém escreveu (que não Galileu, que Manuel Medeiros ainda é o mais idoso de todos os participantes – mesmo não tendo podido estar presencialmente) no livro de presenças do Encontro, E pur si muove!, e no entanto move-se. E move-se no sentido em que Manuel Medeiros sempre quis: que as pessoas conversassem e as ideias surgissem, e as ações fossem implementadas. 

Neste Encontro já não há utopias, conhecem o estado do setor e a progressiva extinção da profissão (a par de todas as outras profissões de mediação), mas conhecem também os valores que representam e os ideais que querem e devem ser preservados, procurando entender novas formas de o fazer. Conhecem ambientes diversos (mais urbanos ou setentrionais, mais ou menos abastados), e preocupações distintas. Mas sabem também que se a profissão de livreiro terá pouco futuro (atualmente já quase não existe), haverá sempre futuro para o «Livreiro», alguém que ama e conhece os livros e tem a capacidade de auxiliar os outros a encontrar aquilo que procuram, fazendo disso a sua profissão. E se em algum sítio deste país se procura esse caminho, é aqui. 

Nuno Seabra Lopes 
Editor e Consultor editorial

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