segunda-feira, 15 de abril de 2013

Fui ao 4º Encontro Livreiro!

«Constato arrependida que ao invés de circular entre as estantes, ou de a explorar ao som dos instrumentos tocados ao vivo, me sentei rapidamente num “daqui já ninguém me tira.”


Carcavelos, 15 de Abril de 2013 

Quando li as “convocatórias” para o encontro livreiro fiquei aflita. Enquanto escrutinava as descrições do que se entendia por “Gentes do Livro”, tentava encaixar-me numa sentindo um desacerto. Eis que cheguei a LEITOR e me quedei descansada. Sim, era legítimo ir. Sou leitora, gente e sou definitivamente do LIVRO. O ano passado já me tinha dado a comichão nos pés para estar presente e motivos alheios me haviam impedido. Este ano é que ia ser. E foi. Quão feliz me senti na Culsete naquela tarde de Domingo, 7 de Abril de 2013. Tentarei transmitir o quanto recebi daquela boa gente, sendo certo que ficarei aquém na tarefa. A Livraria é um encanto. Cheira a história(s), a papel e a liberdade. Constato arrependida que ao invés de circular entre as estantes, ou de a explorar ao som dos instrumentos tocados ao vivo, me sentei rapidamente num “daqui já ninguém me tira.” Enquanto uns bebiam moscatel e outros punham a conversa em dia, aproveitei para ler. Em papel. Única forma como concebo a leitura. Estou certa que o objecto não irá sucumbir à era digital. (Muita esperança.) De vez em quando, levantava os olhos para o tocador de flauta que nos animava os tímpanos e os corações, vagueando alegre e ligeiro. (Há qualquer coisa na música…) Também para os livros. Não podes adiar mais Clarice Lispector. Havia uma capa a dizer-mo em surdina. Começou então o quarto encontro livreiro. Escutei atenta, as palavras de quem vive entre livros e para estes há anos. A situação está má? Está. Não vi ali, todavia, alguém disposto a permitir que lhe tombassem os braços. Não. Vi garra, brilho nos olhos e vontade. Ouvi mensagens de alento e propostas concretas de acção. Ficou-me uma certeza: é urgente a união. As gentes do livro têm de se juntar. Para o ano a Culsete deverá ficar com pessoas à porta, por não conseguir sentar todos os que virão ao quinto encontro livreiro. De costas voltadas não salvamos o Livro e as Livrarias. Carolinne Tyssen explicou porque não devemos pedir desconto. Já não o fazia. Depois de a ouvir jamais o farei. Ia à Trama, de propósito, comprar os meus livros. Não me ficava em caminho, embora fosse relativamente perto do meu trabalho. Ia lá porque me sentia em casa. Lá comprei livros maravilhosos que já li e outros que ainda me aguardam nas estantes. Lá fiz “workshops” de escrita criativa (Com a Raquel!) e sobre Literatura (Com a Rosa!). Lá conheci pessoas que me apaixonaram e outras que estranhei. Lá descobri autores de que nunca ouvira falar. Lá bebi cafezinhos e conversei animada, enquanto percorria as lombadas, doida de curiosidade. Lá havia a Catarina e o Ricardo, dois livreiros inesquecíveis. Não sou abastada. Vivo no modo chapa-ganha, chapa-gasta. Não me importo de não deixar qualquer fortuna pecuniária, em testamento, aos meus filhos. Deixo-lhes estantes habitadas por bons livros. Serão ricos. Faço votos que comecem mais cedo do que eu a ler os que importam. A Trama fechou e é como se me tivesse morrido uma amiga, por isso não me canso de lhe perpetuar a memória. Também por isso me esforço por perceber qual poderá ser o meu contributo. Sou das que acredita no que dizia o poeta: «quando um homem sonha o mundo pula e avança». Cada um a fazer a sua parte como parafuso, para que a engrenagem funcione. Quero saber que parafuso sou e onde me posso enroscar. Por isso vou, sempre que posso, escutar quem sabe. 

Recapitulo: 1) Não pedir descontos. 2) Comprar livros nas livrarias pequenas/independentes. 2.1.) Ir à Galileu. Sinto vergonha por nunca lá ter entrado, quando já comi tantos gelados no Santini. Perdoem-me Caroline e Nuno, é falha que colmatarei muito em breve e visita que repetirei, regularmente, de ora em diante. 3) Divulgá-las junto de quem não tem o hábito de comprar os seus livros aí. 4) Oferecer (bons) livros. 5) Estimular os mais novos a lerem e a escreverem. La Atrevida - Libraria Luso-Hispánica foi um projecto que neste encontro conheci e que se me afigurou fascinante. Já passei palavra ao meu sobrinho Rodrigo que adora escrever e que promete tanto em criatividade, como em desenvoltura na língua-mãe. Ficaria feliz se o viesse a ler na próxima Antologia Atrevida. 

Lamento não ter conhecido, ainda, o Livreiro Velho Manuel Medeiros, “pai” da Culsete. Inspiração para tantos. Espero que se restabeleça e encontrá-lo na sua Livraria no próximo ano. Comoveu-me a ideia do encontro ter continuado no Hospital. Lealdade, dedicação, amizade. O peito reconfortado. 

Agradeço à Rosa e ao Luís terem-me dado a conhecer este encontro. Têm sido focos de grande aprendizagem. 

Para terminar, a questão que se me colocou desde o início. Uma interrogação que me acompanha desde o fecho da Trama. Fui incapaz de a transmitir por estúpida e estéril timidez, mesmo tendo sido instigada pela Rosa a participar. Como quase tudo, não é original. Já a Sara a colocara na sua missiva de abertura do encontro. Aproveito para reforçá-la: o que posso fazer além de tudo quanto ouvi naquele Domingo, enquanto leitora, para cumprir o meu pequeno papel? 

(Garanto que vou, igualmente, pensar sobre o assunto para encontrar novos meios de luta.) 

Ajudem-me(nos) a ajudar-vos. Serei voluntária nesta causa. 

“Isto não fica assim!”.


Andreia Azevedo Moreira 
Escreleitora – Carcavelos

2 comentários:

  1. ... gosto de te ouvir "falar". Talvez no próximo ano dê para nos vermos... e pensar que nos conhecemos num ambiente tão distante deste.

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  2. :) Não sei qual das Anas da minha vida és. Mas se fores ao 5º encontro livreiro lá nos veremos.

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