quinta-feira, 11 de abril de 2013

Hoje, na primeira pessoa do singular


A professora reformada e amiga da livraria, Carolina Palminha, 
numa Hora de Conto na livraria A das Artes, Sines

Ao balcão da livraria, em frente ao computador, estou a escrever de pé. E a ouvir Zeca Afonso. 

Há dez anos, quando abrimos, tinha uma ligação de rede a casa e, aí, sossegadamente, podia trabalhar, podia escrever, podia pensar. 

E fiz tudo isso. Fiz contas, vi catálogos, fiz encomendas, programei actividades. Acima de tudo, sonhei. 

Contingências da vida acabaram com essa ligação, o que me obrigou a ter de fazer tudo na livraria. De pé, porque a ergonomia do balcão não permite outra coisa. 

E, de pé, enquanto alinho aqui as palavras, sinto-me como que a escrever uma carta de despedida. Não querendo, no entanto, acreditar nisso. 

Dez anos, é muito tempo. Pouco, para quem vem da área académica de História. Mas muito, muito tempo, para quem está, com a porta de uma livraria aberta, na área geográfica de um Portugal cada vez mais pequenino. E, aqui, fica a minha homenagem a quem, com sabedoria e, certamente, imenso sacrifício, conseguiu chegar até hoje tendo começado há muito mais tempo do que eu: Os livreiros velhos que ainda nos dão palmadas para não desistirmos. Manuel Medeiros, sempre; no ano passado o saudoso Jorge Figueira de Sousa; este ano, Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira. Não esquecendo a gasolina com que insistentemente nos incendeia, não sendo velho, mas, mais livreiro do que muitos livreiros, o Luís Guerra. 

O acto de abrir uma livraria, mesmo há dez anos atrás, é um acto egoísta. E os pecados pagam-se. Terá havido tempos em que isso seria um negócio. Terá havido. Hoje (mesmo há dez anos atrás!), abrir uma livraria é uma aventura. Uma aventura que sai cara, logo, é preciso dinheiro para a manter. Portanto, vendas. 

Com o paradigma social alterado e adulterado, com o vício paulatinamente incutido das luzes; das cores; da fartura; do verniz dos shopings e grandes superfícies, pouco sobra para o bairro. O que sobra não é suficiente porque o povo/cliente agora é rico. Pelo menos na sua cabeça. Não é modesto. Vive de ilusões que um dia lhe sairão caras. Já estão a sair! Depois… depois é tarde demais para arrepiar caminho. E os vícios não se largam assim do pé para a mão. 

É uma sociedade que, com a ilusão da riqueza, empobrece. Finge que está viva. As escolas fotocopiam descaradamente livros, os professores não os compram, as bibliotecas não têm dinheiro para o papel, as grandes superfícies, sites na Internet, grandes grupos, contornam e, impunemente, não cumprem a Lei do Preço Fixo do Livro que ninguém faz cumprir. O Estado, que era dono dos Correios, a fazer concorrência directa às livrarias com o dinheiro que delas recebe dos impostos!!! Porque o pequeno comércio é para abater. Pelo poder instalado que é o poder do capital sobre o Homem. O poder da polis morreu aqui. 

Criatividade é um neologismo que não aprendi na escola. Desculpem-me os puritanos da língua se estou errado. Aprendi-o, sim, obrigado pela vida. Para me virar. Para fazer das tripas coração. Para fazer de uma livraria de província um local apetecível. Uma livraria com livros, música, artesanato, artes plásticas, chá, pequenos mimos de memória. Onde se falasse de livros… e de tudo. Ao longo de dez anos promovi encontros com escritores, actores, músicos, bailarinos, graças mais à sua generosidade do que ao interesse comercial. E, na esmagadora maioria das vezes, sem qualquer apoio da respectiva editora. 

A indiferença de pessoas ligadas ao livro, mesmo leitores, é notória na falta de participação em acções que não sejam mediáticas. Nas actividades de pequenas livrarias como a minha, como em acções como este Encontro Livreiro, longe dos holofotes. 

Desde há quatro anos que um pequeno grupo de entusiastas se esforça para unir as pessoas que têm como principal ponto de união o amor ao livro. Curiosamente, apesar do grande esforço de promoção e informação, este Encontro Livreiro ainda não contou, salvo gratificantes excepções, com a participação que não fosse dos chamados pequenos. Aos grandes – editores, distribuidores, livreiros, mesmo escritores – parece não interessar este tipo de movimento. 

Só e exclusivamente a nós cabe lutar pela sobrevivência. Talvez seja melhor esses tais não aparecerem. O Encontro Livreiro transmontano é prova de que vale a pena lutar. 

Bem gostaria de parafrasear Palmira Bastos: "Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores". Mas, apesar de gostar de teatro, são os livros que me estão na cabeça – e só me lembro do título do livro de Horace Maccoy, Os cavalos também se abatem

No entanto, se o meu ânimo tem esta sequência, e porque o ciclo da vida se regenera, prefiro transmitir aos outros o contrário: Os cavalos também se abatem, mas as árvores morrem de pé. É uma questão de escolha: Ser animal ou vegetal. 

Visto, então, a pele animal da lagartixa a quem cortaram o rabo que fica ainda a mexer, em pré-morte, isolado do corpo que sobrevive e ainda com a memória vital deste. 

Diz o rabo da lagartixa, como achega a outras propostas que possam sair deste encontro de amigos, que talvez (isto sou eu a pensar alto!) que talvez se possa fazer o seguinte: 

1 - Elaboração de um texto expondo em breves palavras a situação do sector, em que não sejam esquecidas questões como: 

Em relação aos fornecedores

- Extinção da profissão de vendedor que era quem conhecia a realidade local de cada cliente; 
- Falta de informação editorial atempada. Quantas vezes sabemos primeiro pelos órgãos de informação o       que sai ou vai sair? 
- Venda directa ao público com prazos de entrega inferiores aos do comércio; 
- Concorrência directa com os clientes em escolas, bibliotecas, feiras; 
- Exigência de valores ou quantidades mínimas de compras; 

Em relação ao poder político

- A vergonhosa violação da Lei do Preço Fixo, para o que seria necessário a ajuda de amigos advogados que estudem os casos de forma a que, posteriormente, se possa tomar alguma atitude de denúncia ou proposta de alteração da Lei. 

2 – Para enriquecimento, envio desse texto a todas as livrarias de pequena dimensão conhecidas no sentido do estabelecimento de uma base de dados de contactos acessível a todos, para troca de informação e experiências, formando uma rede e tomando como base o blogue do Encontro Livreiro. Desta forma poderíamos ainda colaborar em aquisições, por exemplo, ou mesmo na organização de iniciativas: 

- Um cliente pede-nos um livro que não temos mas alguém pode ter – colocamos o pedido na rede e, quem o tiver, responde, envia, etc. 

- Podemos promover um circuito apresentações com autores ou outras actividades em várias livrarias. 

……………………………

Não sei se sou árvore a morrer ou cavalo a abater. Para estar aqui, hoje, convosco, teria de retirar dinheiro aos fornecedores para custear a viagem. Ausente no corpo mas presente no espírito, optei por ficar em casa. 

Perdoem-me a franqueza e a prosa lamurienta. Logo que me saia uma lotaria qualquer, em que não jogo, voltarei com mais ânimo. Agora, não consigo. 

Razão têm as finanças para que a profissão de livreiro não conste na sua lista. Os livreiros não existem no tipo de sociedade para que nos atiraram. Sobramos os sonhadores. 

Sines, 6 de Abril de 2013 
Joaquim Gonçalves

[Texto enviado por e-mail e lido por Rosa Azevedo no IV Encontro Livreiro]

2 comentários:

  1. Caro Joaquim Gonçalves,
    Acabei de ler o seu artigo que tem tanto de lamuriento como de verdade. Compreendo o seu desolo no que toca ao comercio livreiro, não que tenha uma livraria mas, sei que assim é não fosse eu leitora compulsiva com preferência pelo aconchego das pequenas livrarias, cujos livreiros, têm sempre alguma coisa a dizer sobre o livro ao invés de nos enxotarem do espaço, como fazem algumas das grandes superfícies... A conversa amena à volta do livro, é também isso que me faz comprar livros.
    A sociedade extinguiu e abafou tudo o que é pequeno. Não só livreiros mas também novos autores - o meu caso -, que não constam das estatísticas por se embrenharem no sonho de que a sociedade não poderá ser isto. Não foi isto que sonhamos e infelizmente começamos, aos poucos, a acordar para uma realidade que nos é difícil de aceitar.
    Como disse acima no texto, tudo se paga e para quem gosta de livros, esse poderá ser o preço... Ou não!
    Um abraço.

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    1. Obrigado, Carla. Já quase me tinha esquecido da frase mas todos temos de a ir buscar ao baú: A luta continua. Ou, melhor, ISTO NÃO FICA ASSIM!

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