sexta-feira, 12 de abril de 2013

Porque ainda não conseguiram reduzir-nos a folhas de excel...



O QUARTO ENCONTRO
por Nuno Fonseca*

Nestes últimos anos temos perdido muita coisa. Não é só o dinheiro que se vai e a qualidade de vida que se deteriora; por todo o lado fecham livrarias e todos os dias vemos as gentes do livro e da cultura a engrossarem as hostes de desempregados, que são o pior resultado desta crise generalizada. O Encontro Livreiro, talvez o percebamos melhor agora, é também ele um filho da crise. Mas graças aos deuses livreiros, tem duas mães, e a outra é a esperança. 

É em épocas de crise que as pessoas se dão conta de que só se juntando, partilhando gostos e vontades, se consegue defender o que se tem e ama, e alcançar o que se almeja e sonha. Este sector dos livros não é diferente do resto da sociedade. Somos todos essenciais, pessoas essenciais. Do escritor ao leitor, do livreiro ao editor, do tradutor ao ilustrador, até do mais distante familiar que não lendo, mesmo assim mantém religiosamente uma estante de livros em casa, para os amigos, as visitas e a família, ao cultíssimo bibliotecário que mantém viva, nos seus olhos e gestos a "sua" biblioteca. Sem livros, podemos dizê-lo, a própria sociedade não existe. Porém, para nós, gentes do livro aqui encontradas livrescamente, é ainda mais importante, pois para todos nós os livros são, de uma forma ou outra, o centro das nossas vidas. É importante dizer que é também por isto que nos juntamos todos os anos. Porque somos essenciais. Porque ainda não conseguiram reduzir-nos a folhas de excel, mas também porque sabemos que uma parte de nós tem de usá-las. Um primado da pessoa e não do número. Um primado do gosto e respeito pelo livro e pelas suas gentes. 

Este ano primámos muito. O Encontro de Domingo foi especialmente frutuoso. Ouviram-se as vozes virtuais da Sara e do Joaquim juntas com as nossas e descrições bem reais da Situação, apropriadamente poucas, mas também e sobretudo, bastantes propostas concretas, coisas de fazer, práticas e relevantes. À nossa simples e entusiástica organização, às mãos da Fátima e da Rosa, do Manuel e do Luís, e com os apoios maiores e menores de todos, começamos a produzir resultados. Porque o Encontro Livreiro também é isto de ajudar a dinamizar coisas novas. A parceria de amizade e propósito com a Fundação José Saramago é, neste aspecto, um ponto alto; assim como a decisão conjunta de promover um Dia anual da Livraria e do Livreiro que será comemorado já daqui a uns meses a 30 de Novembro. Outro ponto alto foi também a entrega do Prémio Livreiro da Esperança à Caroline que participou entusiasticamente em todos os momentos, e a participação do António da Traga-Mundos que nos trouxe a sua boa companhia e as notícias dos seus admiráveis esforços em juntar gentes do livro em Trás-os-Montes. Ainda houve espaço para ouvirmos os entusiasmados editores da La Atrevida - Librería Luso-Hispánica que se dedicam a publicar no interessantíssimo nicho da Literatura Infantil feita por crianças, e de reavivar as tensões ainda existentes mas cada vez menos fracturantes entre as novas realidades dos e-books e do mercado livreiro. 

A minha própria modesta contribuição consistiu precisamente nesta área, pois preocupa-me que os livreiros, se persistindo em ficar de costas viradas para a realidade do mercado digital, acabem por não só perderem oportunidades de vivência e sobrevivência, como também se tornem mais pequenos devido à especialização sobre o livro físico. Neste sentido, e devido à novidade que ainda representa o mercado digital, penso ser a altura perfeita de as livrarias procurarem parcerias de negócio vantajosas para ambos os produtos, que são afinal apenas expressões diversas de um mesmo conteúdo. Tentei fazer passar a mensagem de que só abraçando as diferenças e novidades, podemos melhorar o presente ou almejar por um melhor futuro. 

Depois... depois houve também o importante resto, as experiências mais pessoais. Cada um terá tido a sua. Das várias que eu poderia referir, anoto a agradável conversa entre cigarros cá fora com o José Teófilo Duarte e o Gonçalo Mira, a simpatia imediata com o Sérgio Letria com quem tive pena de não falar mais tempo. Ou os livros que acabei por trazer da Culsete, num desses impulsos lestos e mortais para a bolsa tão típicos de alguém que tem a paixão dos livros. Ou as poesias e músicas ouvidas que aqueceram pontualmente o encontro. Mas acima de tudo, o que mais me tocou foi no final, após todas as celebrações encerradas, poder ir visitar e abraçar o Manuel Medeiros, que por vicissitudes de saúde não se nos pudera juntar durante a tarde, e vê-lo bem-disposto, de olhar ladino e tirada pronta na ponta da língua, brindando-nos com mais uma passagem de Saramago. Tudo isto foi rematado com um belo jantar setubalense, seguindo essa tradição tão boa e portuguesa de nos juntarmos à mesa para falar e ser amizade. 

Sim, o Encontro Livreiro deste ano foi especialmente bom. E para o ano meus caros, para o ano há mais. 



Orgia Literária.

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