segunda-feira, 8 de abril de 2013

Texto do IV Encontro Livreiro




Rosa Azevedo, lendo o texto do IV Encontro-Livreiro

Nota prévia ao texto lido no ano passado por Manuel Medeiros: «Para cada um dos dois encontros anteriores Luís Guerra redigiu e leu um texto. No terceiro encontro não achou bem ser ele a redigir um novo texto, nem por isso admitindo a sua falta. Por isso pediu a outro de nós que dele se encarregasse. Fica assente, pois, mais este ponto: haverá em cada ano um novo «Texto do Encontro Livreiro».

Pedimos à Sara Figueiredo Costa, que preparasse um texto para este IV Encontro Livreiro. Porque, por razões profissionais se encontra neste momento a acompanhar o Festival Literário da Madeira, não pode estar aqui connosco, como tem acontecido nos anos anteriores e como ela gostaria, mas enviou-nos o texto que passo a ler* e que poderá, se assim o entenderem, servir de mote para a conversa que animará a tarde.

Sara Figueiredo Costa no II Encontro Livreiro

Queria e devia anunciar o arranque deste IV Encontro Livreiro de viva voz, mas compromissos profissionais daqueles que não podem adiar-se em tempos tão negros obrigam-me a fazê-lo à distância de umas quantas milhas e com um bocadinho de mar pelo meio. Lamento por isso, mas encaremos isto como uma espécie de correspondência e saibam todos vós que, estando no Funchal, não deixo por isso de ter o coração em Setúbal, no belo espaço da Culsete, entre dois dedos de boa conversa, debate animado e um copito de Moscatel.

Quando todos nos dizem que o futuro está complicado e que o presente não oferece grandes motivos para sorrir, creio que devemos começar por celebrar. Quatro anos de Encontro Livreiro são quatro anos de muitas vontades convergindo para um objectivo comum, de dedicação a um tema que é muito mais transversal do que parece (e, portanto, muito mais central na vida daquilo a que chamamos comunidade do que nos querem fazer crer) e, sobretudo, quatro anos de partilha. Será pouco na cronologia da História, já sabemos, mas é muito quando olhamos para as pessoas que se têm envolvido, para os seus diferentes percursos, preocupações e interesses, ou para o impacto pouco espalhafatoso mas muito eficaz que tudo isto tem tido. É muito, sobretudo, quando pensamos nas histórias e nas experiências partilhadas entre todos, mais novos ou mais velhos, livreiros, editores, jornalistas, distribuidores, autores e, acima de tudo, leitores. As coisas pequeninas só parecem pequeninas porque as vemos no meio do turbilhão de notícias, imagens, links e flashes que compõem o nosso quotidiano, mas são sempre gigantes quando percebemos o modo como tocam as pessoas, como as põem em contacto e como ajudam a criar pontes, apoios, partilhas. Celebremos, pois, que os tempos podem estar sombrios mas não estão para desistências.

A propósito de os tempos não estarem para desistências, vale a pena lembrar que o Encontro Livreiro, nascido em Setúbal pela mão do livreiro Manuel Medeiros e com a ajuda preciosa de Fátima Medeiros e Luís Guerra, já não é o único no país. Muito recentemente, a Traga-Mundos acolheu o I Encontro Livreiro de Trás-os-Montes e Alto Douro e tudo indica que novos encontros regionais se estarão a preparar para breve, num movimento de descentralização que só pode encher de esperança quem sabe da importância que uma tarde de debate ente aquilo a que gostamos de chamar a gente dos livros pode ter. 

Falando em esperança, aproveito a estada no Funchal para vos dizer que visitei ontem a Livraria Esperança e que encontrei o mesmo espaço acolhedor de sempre. Estive com a Dona Lurdes, a quem enviei um abraço em nome do Encontro Livreiro, e posso dizer-vos que apesar da sua ausência, hoje, em Setúbal, o sentimento de pertença a este grupo informal é grande. A partida do Senhor Jorge Figueira de Sousa é notória na livraria, mas não de um modo triste ou cabisbaixo. É notória porque, agora, não é a sua presença que fala e sim a sua memória. E creio que não é preciso dizer, entre gente dos livros, que talvez não tenhamos muitas coisas mais preciosas do que essa a que chamamos memória. E como a memória é coisa que tanto vive em nós como nas páginas impressas, também vos digo que saí da Esperança com a alma lavada e com um saco cheio de livros, esperando que isso não me trame quando chegar a altura de verificar se há excesso de bagagem na mala para o voo de regresso... 

Para além dos já referidos encontros regionais, o Encontro Livreiro tem dado outros frutos visíveis. Entre eles, vale a pena destacar o Dia das Livrarias, uma parceria entre o Encontro Livreiro e a Fundação José Saramago que terá este ano a sua segunda edição. Para onde caminhará esse Dia das Livrarias, é coisa que cabe a nós discutir e fazer acontecer, que para isso nos encontramos, em presença ou à distância, mas creio ser consensual dizer que organizar um dia para colocar em destaque o papel das livrarias na vida cultural (e cívica, e social, e política, e tudo) da comunidade, seja ela o país, o bairro ou a rua, é algo que não só não podemos deixar esmorecer como temos de conseguir fazer crescer. E não há espaço melhor para esse efeito do que este encontro, por isso, mãos à obra.

Este ano, o Encontro Livreiro atribui o diploma Livreiros da Esperança a Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira, os dois livreiros responsáveis pela Livraria Galileu, em Cascais, que cumpriu quatro décadas de vida no ano passado. Se um número tão redondo e responsável não bastasse para justificar a homenagem, bastaria recordar aos mais distraídos a dedicação que os livreiros da Galileu põem em tudo o que fazem, da escolha dos livros ao atendimento, passando por aquela espécie de radiografia cerebral e sentimental que só os bons livreiros sabem fazer e que consiste em passar alguns minutos à conversa com um cliente (coisa que o marketing moderno desprezará, com toda a certeza, por achar que é perda de tempo e que mais vale comprar escaparates com fartura e inundar a vista de quem passa com a mesma capa reproduzida mil e quinhentas vezes...) para depois lhe indicar, sem sombra de dúvidas, quatro ou cinco títulos que obviamente vão ser do seu agrado. Se não soubéssemos qual é a diferença entre uma livraria e um supermercado de livros, bastaria um par de horas na autêntica caverna de Ali-Babá - sem os quarenta ladrões e apenas com tesouros de toda a espécie - que é a Galileu, para a descobrirmos. 

Numa altura em que continuamos a ouvir falar de crise todos os dias, e em que mais do que ouvirmos falar dela a sentimos na pele, de modos e com dores diferentes, a cada hora, sabemos que as livrarias não estão a atravessar tempos fáceis. Talvez nunca os tenham atravessado, e sobre isso valeria a pena ouvir o que dizem os nossos livreiros, sobretudo os mais velhos, mas quando o dinheiro para os livros mirra nos bolsos das pessoas que os querem comprar, e quando a isso juntamos os males que já conhecemos no mercado editorial e livreiro, o optimismo é difícil. A que males me refiro? A vários, mas podemos ficar-nos pela alucinação de um mercado que quis transformar-se em americano sem saber que não conseguia deixar de ser português, inundando escaparates com dezenas de títulos novos todos os dias, fazendo da novidade uma ditadura, arrasando a ideia de livraria enquanto lugar de património e memória (o que não se antagoniza com a ideia de negócio, mas ele há negócios e negócios) e, sobretudo, estabelecendo regras de negócio que não são iguais para todos os que vivem desse negócio.
O que é que podemos fazer quanto a isso? É a pergunta que se impõe e é óbvio que não tenho uma resposta, como talvez nenhum de nós tenha. Podemos, enquanto 'consumidores' (é uma má palavra, mas enfim), fazer escolhas conscientes, preferir comprar livros em livrarias independentes ou não ceder a feiras que oferecem preços com descontos tentadores mas que se escapam a cumprir a Lei do Preço Fixo, mas dificilmente poderemos, sozinhos, mudar o mercado. Também podemos pensar em alternativas de circulação e compra de livros, ou até de feitura de livros, e isso são coisas que vão acontecendo por aí, mas não são coisas que possam preencher todo o mercado, ou substituí-lo, e talvez nem queiram, por não ser essa a sua vocação. As perguntas mais pertinentes costumam não ter respostas, pelo menos imediatas. A sugestão, talvez alucinada, é que se troque a urgência de uma resposta que creio que não virá de modo universal e absoluto pela vontade de fazer muitas perguntas, talvez começadas por "e se...?". Uma sugestão, para não estar aqui sossegadinha no Funchal a debitar ideias alucinadas: e se nos organizássemos para fazer algo sobre as livrarias alfarrabistas históricas, preciosas e essenciais que estão à beira de fechar em Lisboa, a Olisipo e a Artes e Letras? Não temos como alterar o mercado, nem como dar às pessoas o dinheiro que elas deixaram de ter para comprar livros, mas temos como escrever à Câmara Municipal de Lisboa, e a Câmara Municipal de Lisboa pode e deve ter uma intervenção no assunto, já que o problema, segundo a imprensa, está relacionado com a nova Lei do Arrendamento. E podemos fazer dessa carta um acto público, tentando que tenha um impacto que vá além da recepção da missiva por um funcionário camarário que talvez se limite a arquivá-la junto de outras missivas. E claro que podemos fazer isto envolvendo os respectivos livreiros, e talvez começar por aí seja a melhor forma de o fazer. Mas não podemos ficar por aqui nem apenas por Lisboa: a nova Lei do Arrendamento é uma ameaça, que só a cegueira criminosa dos nossos governantes não vê e que, a não ser rapidamente alterada, irá a breve prazo matar grande parte das nossas pequenas e médias empresas, entre elas variadíssimas livrarias. Proponho que, na conversa desta tarde, se apresentem e discutam acções do mesmo género ou outras, dirigidas estas a várias entidades públicas (Presidência da República, Assembleia da República, Governo, etc.), neste domínio mais amplo e nacional. Percebo o pessimismo, os seus motivos e a facilidade com que nele se tropeça (e todos lá caímos, inevitável), mas vejo este Encontro Livreiro como um espaço privilegiado para o contrariar, apesar de todos os pesares. Fecho, por isso, a minha intervenção à distância com esta proposta concreta, imaginando que possam discuti-la ou oferecer outras para a discussão. Muito obrigada pela vossa atenção e até já. 

Sara Figueiredo Costa [* Texto lido por Rosa Azevedo].


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