domingo, 14 de abril de 2013

«vontade em dar a volta certa às questões, sem previsão de milagres ou soluções mágicas.»


Rosa Azevedo, em plena actividade, coordenando as intervenções e tomando notas.

No primeiro fim-de-semana de Abril reunimos mais uma vez na bela Culsete, em Setúbal, para falar de livros, no IV Encontro Livreiro. É sempre e ainda difícil definir o que fazemos ali. Chama-se Encontro Livreiro mas é um encontro de todas as gentes do livro - sem mais definições do que esta. Este ano sentimos a falta do nosso Livreiro Velho que, por motivos de saúde, não pôde estar presente. No final o Encontro pegou nas malas e foi visitá-lo. E como seria de esperar o Manuel teve tanto a acrescentar como a ouvir.

Sem tema à partida pedimos todos os anos a alguém que escreva um texto para lançar a conversa. Desta feita calhou à Sara Figueiredo Costa que não pôde estar presente por motivos profissionais. A Sara lançou as questões a discutir. A dicotomia presente num país desistente que é tão contrastante com movimentos como o Encontro Livreiro e outros movimentos que daí advêm. No seu texto a Sara levanta uma questão sempre muito presente nestes encontros e que convém ter em conta - o Encontro Livreiro não se propõe resolver os problemas das livrarias nem do livro. O encontro propõe colocar mais questões do que as mais óbvias e pensar em algumas posturas alternativas para dar a volta à situação. E foi nesse contexto que este encontro foi mais rico - na demonstração de uma vontade em dar a volta certa às questões, sem previsão de milagres ou soluções mágicas. Já que é difícil manter o optimismo é importante que encontremos outras posições que sintamos que nos levam num qualquer caminho positivo.

Uma das propostas mais presentes quer nos textos lidos quer nas intervenções dos presentes foi a criação de um mapa de livrarias. A desinformação é um dos maiores inimigos deste tipo de negócios. Não podemos contar com quem conhece, temos de trazer às livrarias quem não conhece, quem compra em grandes superfícies apenas por hábito ou facilitismo. A ideia, que surgiu pela mão do Nuno Seabra Lopes, era que se fizesse um mapa físico das livrarias de Lisboa, mais do que apenas um directório como o que existe para os alfarrabistas. Esse mapa poderia ser lançado em Novembro, por altura das comemorações do Dia da Livraria e do Livreiro. Simultaneamente falou-se da importância de se criar um espaço na Internet, que poderia ser um blog por ser mais funcional, onde as livrarias estivessem registadas e pudessem aí fazer uma contínua divulgação quer do seu espaço quer dos seus eventos, textos, ideias, etc. Poderia ser a nível nacional ou regional.

Nuno Medeiros chamou a atenção para a dificuldade que se sente muitas vezes dentro do próprio mundo dos livros entre os vários agentes - assunto que costuma vir à baila nestes encontros - ou seja livreiros, editores, distribuidores. Carolyn, da livraria Galileu, «Livreiro da Esperança 2013» (com Duarte Nuno Oliveira), defende que as dificuldades aproximam as pessoas, uma vez que em tempos como estes cada um dos intervenientes tem mais necessidade do outro do que antes.

Este ano contámos com a presença de uma associação / livraria luso-hispânica que foi muito bem recebida pelas intervenções e pelos conteúdos que acrescentaram ao nosso Encontro. Javier Betemps e Paulo Madrid falaram da urgência de percebermos, dentro das tão referidas dificuldades, que o futuro está nas crianças e que por isso é importante ouvir o que elas têm para dizer. Acreditam que no futuro, e em Encontros como este, se deve fazer pedagogia. Ouviram-se muitas opiniões sobre o papel dos diversos intervenientes na educação de uma criança para a leitura (pais, escolas, livrarias). Mas a conclusão a que todos chegaram é que é importante formar as crianças, futuros leitores e futuros consumidores do mercado livreiro para a escrita e a leitura habituando-as às livrarias que assim se podem e devem chamar pois está nas mãos delas que estes espaços, que são muito mais do que vendedores de livros, possam subsistir. Segundo Javier Betemps as crianças não só são os futuros leitores como são os leitores / escritores do presente que, ao terem contacto com muitas realidades pela primeira vez, têm leituras isentas de vícios e sobre-interpretações com as quais nós só teremos a ganhar.

A conversa continuou animada e pautada pelo debate com algumas questões recorrentes e estruturantes - o papel do e-book, a importância de novos suportes e novas abordagens do livro, os livreiros das grandes livrarias que podem ou não ser considerados livreiros.

Gostava que este texto lançasse a discussão. Que ela continuasse a não ter um tema mas que tivesse vozes. O Encontro Livreiro é já um movimento cheio de braços e ramificações. A forma de continuar este debate de ideias é continuar a pensar e ao pensar continuar a dizer o que se pensa. Como dizia o Joaquim podemos não ser grandes mas seremos resistentes. E como todos sabemos, uns mais do que outros, não há grandeza maior do que a resistência e a não desistência. E o Encontro Livreiro tem provado ser isso mesmo. Ficamos por isso a aguardar as vossas reacções e comentários a estas ideias lançadas este ano para que o Encontro não se fique só por uma tarde boa passada à volta do moscatel, algures no início da Primavera.

Rosa Azevedo

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