quinta-feira, 18 de julho de 2013

«Duas ou três notas incómodas sobre o lastimável fecho da Livraria Sá da Costa, em Lisboa.»


1. Embora seja uma questão muito mais complexa (e esta da Sá da Costa em particular, até porque se tinha juntado um grupo de pessoas que tinham tornado de novo a livraria um espaço dinâmico e criativo), uma das várias razões por que as livrarias fecham, e de que não podemos alhear-nos, é que as pessoas deixam de frequentá-las (como está também a acontecer, por exemplo, com as salas de cinema). Custa-nos admitir isso, sobretudo a nós para quem livros e filmes sempre fizeram parte da nossa vida. Hoje em dia, as (poucas) pessoas que ainda lêem (não me venham com a conversa de que se lê muito mais hoje; se isso é verdade, o que duvido, lê-se grosso modo “pior”: as tiragens baixaram significativamente por que razão?) encomendam os seus livros on line (ou fazem as suas leituras também on line; se repararmos nas bibliografias dos artigos, trabalhos de investigação, etc., mesmo na área da literatura, já contêm mais links que referências a livros em papel). Depois, o que faz as estatísticas das vendas e dos tops, são os exemplares dos bestsellerzinhos vendidos nos hipermercados;

2. Este manifesto [Manifesto contra o desastroso encerramento das livrarias da Cidade de Lisboa no centenário da Livraria Sá da Costa (Letra Livre)], que também apoio, embora não possa estar presente por viver no Porto, poderia não ser apenas um lamento, mas despoletar em todos a vontade de frequentar mais as poucas livrarias que ainda há, porque também depende de nós não as deixarmos desaparecer. As históricas e as outras, que foram surgindo ao longo dos anos, algumas bastante boas e que vivem com muitas dificuldades. Uma observação: li num cartaz: “Se querem livrarias históricas, vão ao Porto…” Isso é pura ilusão. As livrarias no Porto passam por dificuldades tremendas. Das “históricas”, mantêm-se a Lello, a mais antiga, graças sobretudo a ter sido eleita uma das mais belas livrarias do mundo, mas onde certamente há mais turistas a fotografar que a comprar livros, e à persistência e teimosia de um livreiro, o senhor Antero Braga; se nada fizermos, vamos ver quanto tempo ainda podem durar a Leitura e a Latina; há ainda alguns alfarrabistas históricos, como o Sr Canavez ou a livraria Chaminé da Mota;

3. O mesmo está a acontecer com as chamadas salas de cinema de bairro, programadas por exibidores independentes, onde as pessoas também vão cada vez menos (apesar dos esforços continuados de uma programação diversificada e de qualidade, de conversas sobre os filmes, da presença de realizadores, actores, etc.). Tal como muitos leitores deixaram de ir às livrarias, muitos espectadores deixaram de ir às salas de cinema e preferem fazer downloads e ver o filme no écran do computador, apesar da inigualável (como dizia o Pina, que sei eu?) experiência de ver cinema em sala, uma vez que foi para a sala que os filmes foram feitos (todos os realizadores, mais velhos ou mais novos, querem ver os seus filmes a estrear em sala) e só aí se podem usufruir na sua totalidade (Peter von Bagh, historiador e crítico de cinema finlandês e actual director do festival “Cinema Ritrovato”, escreveu que um filme ao ser visto na televisão ou dvd – poderíamos acrescentar hoje o écran do computador – “não penetra profundamente em nós […] não fica na imaginação do espectador da mesma maneira que o verdadeiro filme ficou na imaginação de gerações de espectadores”).
Mas está mais na moda dizer que já não há cinemas (como, aliás, se diz há muito das livrarias, discurso que os media também propagam), e depois, quando mais uma, ou muitas salas, como aconteceu há uns meses, ou livrarias, fecham, chora-se muito, desabafa-se imenso, protesta-se, etc., e tudo como dantes no quartel d’Abrantes até nos revoltarmos outra vez com o fecho da próxima.
Para que não esqueçamos a Sá da Costa, a partir de segunda-feira, todos à Ferin, à Bertrand do Chiado, à Lello, à Leitura, à Pó dos Livros, à Ler Devagar, à Paralelo W, à Utopia, à Poetria, à Centésima Página, à Fonte das Letras, à Culsete, à Esperança, à A das Artes, etc., etc. (perguntemos ao Luís Guerra, que conhece muito bem as melhores livrarias do país e tem batalhado pela sua defesa).
Last but not least, esta maldita crise que nos desanima e que cada vez nos deixa com menos dinheiro para comprar livros. Como dizia o Eduardo Guerra Carneiro, isto anda tudo ligado. Mas a luta continua.

António M. Costa, Programador (Porto) [texto publicado hoje no facebook].

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