quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

É hora dos leitores agirem em prol da continuidade do serviço inestimável prestado pelos bons livreiros


Há uns dias li uma notícia que destacava o dia da Livraria e do Livreiro. Na mesma constatei que existem, aproximadamente, cinquenta e cinco livrarias independentes, situando-se mais de metade entre a Grande Lisboa e o Grande Porto. Tendo em conta a área de Portugal (Continental e Insular) isto é aterrador. Fosse apta para números e saberia dizer, com exactidão, o número de quilómetros quadrados de aridez livreira que isto representa.

Tenho assistido a algumas discussões sobre o futuro do livro e, não raras vezes, ouço dizer que terei de me conformar. O formato em papel, única forma como o concebo, irá progressivamente dar lugar ao digital. Como eu, as livrarias terão, segundo essa corrente, de se adaptar aos tempos vindouros e os livreiros pensarem como será a venda no segundo formato, ainda que se mantenham os espaços físicos. Não acredito. Não quero fazê-lo e embarcarei nas iniciativas que visem impedi-lo, ou retardá-lo. Dada que sou a amores platónicos, a minha relação com os livros é passional e física. A Leitura não é só o poder passar os olhos pelas linhas de palavras. É folhear, avaliar a textura do papel, o seu cheiro, dobrar cantos que me marquem o indispensável. Escrever-lhes nas margens. Sentir o peso do volume que me ocupará o tempo. Dir-me-ão que os aparelhos modernos me permitem ir à internet ler referências, ou pesquisar significados e que os écrans já estão tão evoluídos que fazem lembrar o papel. Não me convencem. Como não me convencem que as relações que estabeleço online, se possam equiparar ao contacto directo com as pessoas.

É hora dos leitores agirem em prol da continuidade do serviço inestimável prestado pelos bons livreiros, das livrarias e do próprio livro, em papel. Um primeiro passo será o de sermos criteriosos, no que toca aos locais em que compramos os livros. Não podemos continuar a olhar só para o nosso umbigo. Claro que sabe muito bem adquirir três e pagar dois, sendo que um deles chega a ser uma novidade. É óbvio que no orçamento pesa menos, comprar aqueles que desejávamos há muito, na estante, por uma bagatela. Ou que dá mesmo jeito passar por aquela obra «A ler», a caminho da fruta, metê-la no carrinho e pronto não se pensa mais nisso. Não podemos persistir nestes comportamentos. Há que encarar o Livro como um investimento. Há quem compre ouro. Há os que têm poder de compra para investir em apartamentos, que põem a render. Eu pertenço ao grupo de pessoas que crê na riqueza do conhecimento e da cultura. É por aí que quero aumentar o meu património e estantes repletas de bons livros, o legado para os meus filhos.

Um dos valores que mais prezo é a Liberdade. Tenho certo que só podemos ser livres se conhecermos. Muito. O mais possível. Só na posse do saber podemos optar em consciência. Discernir o que nos serve, do que não queremos. Pela minha liberdade interior luto, lendo muito. Recordo os primórdios das minhas leituras. Nem todas foram boas. Algumas seriam inconcebíveis à data presente. Venho aprendendo a direccioná-las. Nesse caminho têm tido importância vital as livrarias que me habituei a visitar, cujos escaparates e estantes me apresentam a melhor Literatura. Esse trabalho é do livreiro competente, que subtilmente nos orienta para as leituras que importam. Dando destaque às obras que o merecem e trazendo à luz não apenas a boa novidade contemporânea, como os clássicos, intemporais. Eis como distingo uma livraria que me interessa. Pelo tipo de livros nos quais é posto o enfoque. Aquela em que é seguro que não estarei a perder tempo, ainda que algumas obras me arrebatem e outras mantenham à distância. O meu atraso nas leituras é tão grande, que não me posso dar ao luxo de ler mal. Outra medida que podemos tomar, enquanto leitores, é não negligenciar a importância da promoção da Leitura. Termos o cuidado no nosso dia-a-dia e nas nossas relações de transmitir a paixão que nos consome. Contaminar as pessoas com esta doença tão boa. Não há melhor maneira de o fazer, que pelo exemplo. Ler à frente dos nossos. À minha escala faço-o, com os meus filhos. Tem sido um percurso lento. O mais velho (ainda não tem três anos), por exemplo, começou por me rasgar algumas páginas (Os sacrifícios necessários.), depois riscou outras tantas (Dedicatórias preciosas.), entretanto começou a perguntar-me «O que diz aqui?» e já ouve, com atenção, uma história do princípio ao fim. Antes via a capa e passava a grande velocidade as folhas até à contracapa, sem paciência para as locuções da mãe, ou para as folhear. Para tal tem contribuído, creio, o meu testemunho. O estar perto deles a ler, com aquele ar alheado de prazer, que a evasão pelas narrativas nos confere. Suscito-lhes, espero, a curiosidade: «O que terá de tão bom estar com aquele objecto na mão?»

Podemos, ainda, influenciar as restantes relações. Trazer para a conversa o que temos lido, as livrarias que visitámos, o que gostaríamos de ler a seguir. Para assinalar o dia 30 de Novembro de 2013 lembrei-me de criar uma corrente no Facebook. O conceito, muito simples, consistia em pensar em três livros que me dissessem muito, sugeri-los a três amigos, bem como três livrarias onde os pudessem adquirir e pedir-lhes que fizessem o mesmo, com três amigos que deveriam falar com outros três e assim, indefinidamente. Isto pode continuar. Fica a ideia de utilizarmos esse meio que tanto nos desmaterializa perante o outro, num meio de concretizar as causas que mais nos dizem.

Exemplos como o da Culsete e dos seus livreiros Manuel e Fátima de Medeiros enchem-me de confiança no futuro das livrarias e do livro (EM PAPEL). Foi com convicção que subscrevi a homenagem que lhes foi feita, pelo meritório trabalho de quarenta anos. Felicito a Fátima e lamento a perda recente. Lamento também não ter tido o privilégio de conhecer o Manuel, de o ouvir, de aprender com ele. Não consegui estar presente na entrega do diploma, por motivos de saúde, o que me entristeceu. Sei que outras oportunidades haverá de ir viver a Culsete.

Num livro da Patrícia Reis, «Por este mundo acima.», um cataclismo de contornos indefinidos deixou uma cidade (o mundo?) sem energia eléctrica. As personagens principais faziam expedições pelos destroços, para aumentar uma biblioteca que sobreviveu ao caos. Ali morava a memória da Humanidade. Os sobreviventes poderiam ir buscar ânimo e ideias para se reinventarem.

Que lhes traria Esperança, fosse tudo virtual?

Um abraço amigo.

Carcavelos, 10 de Dezembro de 2013

Andreia Azevedo Moreira
Escreleitora

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