quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

E onde a economia e a cidadania hesitam, estremece a cultura, em maré cálida e estagnada.


Mil novecentos e setenta e três foi ano de grandes e humildes nascimentos em Setúbal: o da Culsete e o meu. A Culsete tornar-se-ia um símbolo da difusão cultural numa cidade em plena mutação societária. E eu uma das suas mais ferozes visitadoras. Abandonada a sua vocação de centro produtor de conservas, não mais Setúbal conseguiu encontrar um rumo de plenitude, mantendo-se numa indecisão exasperadora até hoje. E onde a economia e a cidadania hesitam, estremece a cultura, em maré cálida e estagnada. Mas o casal Medeiros, arrostando o futuro, decidiu inverter o rumo previsível das coisas. E criou a Culsete como quem ampara um filho no momento do nascimento: com afeição, cuidado e ternura. 

Aí comprei todos os manuais de uma vida escolar longa. E depois conheci o Nuno. O filho mais velho da Fátima e do Manuel sentou-se, por decisão administrativa, a meu lado numa das velhas escrivaninhas de madeira da já então denominada Escola Secundária de Bocage. Tínhamos quinze anos e a eternidade ainda era nossa. Tornou-se num dos meus melhores amigos, contribuindo para o cimentar dessa dedicação as caminhadas a pé desde a escola até ao edifício onde se alberga, ainda hoje, esse espaço emblemático da nossa literatura, dado que a casa de meus pais também se situa nas imediações. A partir daí, a livraria deixou de ser para essa jovem adolescente de outrora apenas local de aquisição de livros (um dos seus objectos preferidos), mas sítio de exercício activo da amizade, de lanches e brincadeiras. Disse-me o Nuno, há poucos meses, que já nessa altura eu manifestava predilecção por “palavras difíceis”. Devo tê-las aprendido nas páginas da Culsete. 

Foi, portanto, com naturalidade que compareci no sábado passado à cerimónia de comemoração do Dia da Livraria e do Livreiro realizada, com a presença de bons amigos, nas instalações da livraria. Sei que a Fátima Medeiros continuará com empenho uma obra que foi inicialmente sua e do seu marido após a triste ausência deste. E só posso desejar que a Culsete continue a contribuir para o enriquecimento civilizacional de uma cidade que não é só o meu local de nascimento. É também uma referência, uma paixão e um solo muito amado.

Sandra Neves 
Escritora e jurista

Texto escrito após participação no Encontro Livreiro Especial de 30 de Novembro de 2013

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