domingo, 1 de dezembro de 2013

OBRIGADA!



Venho aqui hoje, como ontem fiz na livraria, em primeiro lugar para agradecer o diploma LIVREIRO DA ESPERANÇA ESPECIAL CULSETE 40 ANOS, atribuído a mim própria e a Manuel Medeiros, meu companheiro de vida e de sonho, pelo movimento Encontro Livreiro. Juntos, lado a lado, ano após ano, atividade após atividade, superando muitos obstáculos e dificuldades, eu e ele fizemos a Culsete. Um sem o outro, não o teríamos conseguido.
Quero agradecer a todos os que ontem estiveram presentes na livraria a viver este momento connosco e com os elementos do Encontro Livreiro que vieram até Setúbal. Desejo ainda agradecer a quem pensou nesta forma de homenagear o nosso trabalho destes 40 anos, trabalho que fez da Culsete o que ela é hoje, uma instituição de caráter cultural, respeitada na cidade e fora dela. Obrigada Rosa Azevedo, Sara Figueiredo Costa, António Alberto Alves, Joaquim Gonçalves, José Teófilo Duarte, Luís Guerra. Obrigada ainda a todos aqueles que deram o seu aval a esta iniciativa, subscrevendo este diploma. Foram centenas. Gente de todo o país e até do estrangeiro. Bem hajam!
Quero partilhar esta distinção com os meus filhos e com os meus atuais colaboradores. Muito do que se construiu também a eles se deve. Muito do que há para criar terá a sua marca.
A decisão de nos atribuírem este diploma foi tomada à nossa revelia e tornada pública no blogue do movimento. Se tivéssemos tido conhecimento prévio desse intento teríamos pedido para que não avançasse, pois não parece justo receber um diploma que nós próprios concebemos e decidimos entregar anteriormente a livrarias independentes com tradição de promoção da leitura.
Eu própria e Manuel Medeiros considerávamos (e eu considero) este diploma um dos melhores galardões que qualquer livreiro pode desejar, por partir de dentro, das gentes do livro. Porque é verdadeiro e não obedece a segundas intenções. Porque sabemos que estamos todos num mesmo barco, como escreveu em devido tempo Rosa Azevedo.
Por isso, depois da surpresa inicial, decidimos aceitar com muito gosto e alegria essa distinção. É gratificante perceber como tanta gente, amigos e conhecidos, mas também desconhecidos, aprecia o nosso trabalho e o apoia.
Em 15 de Setembro de 1989, após uma sessão de apresentação de um livro, Manuel Alegre deixou escrito que nós éramos “os outros livreiros da esperança”, aproximando-nos do livreiro do seu poema incluído em Praça da Canção. Passámos desde então a ver esta frase como uma gostosa distinção que nos fora entregue por um grande escritor. Anos mais tarde, tomámo-la, juntamente com o Luís Guerra, como mote para designar os diplomas que o Encontro Livreiro passou a atribuir. Este diploma agora recebido é a confirmação pública alargada dessa distinção.
Sinto-a como um redobrar de responsabilidade. Se nunca pensámos desistir nem por um segundo do caminho delineado por ambos em 1973, quando eu e Manuel Medeiros decidimos mergulhar de corpo e alma no projeto Culsete, fazendo dele o segundo objetivo da nossa vida (o primeiro foi/é a nossa família), agora, mais do que nunca e por diversas razões, há que redobrar a nossa criatividade e o nosso empenho, já que temos cada vez mais gente a confiar e a acreditar em nós. Tudo farei, em conjunto com a minha equipa, para não desapontar ninguém, para poder continuar a sentir tão grande apoio.
Receber este diploma no dia 30 de Novembro, o DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO, tem um sabor especial. Este é o nosso dia, o dia de todos os que se consideram filhos da leitura, todos os que amamos e defendemos a nossa mãe-leitura até às últimas consequências. Livreiros e leitores. Só por si é um grande dia de festa que este ano foi vivido mais intensamente na Culsete em função desta atribuição.
O DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO é de grande importância para todas as livrarias. Trata-se de uma organização conjunta do movimento Encontro Livreiro e da Fundação José Saramago que vai no segundo ano de existência, mas que este ano já teve uma adesão bastante boa e que se quer que continue a chegar nos próximos anos a mais e mais livreiros. É um dia de festa que, como o Encontro Livreiro, veio para ficar. Não nos faltam ideias para ir alimentando este Dia. Algumas estão já na calha para o próximo ano.
Espero que todos tenham tido acesso ao material que foi preparado especialmente para distribuição neste dia, nomeadamente os cartões com as duas frases escolhidas como Leitmotif deste ano, uma de José Saramago e outra de Manuel Medeiros. Gosto bastante do cartaz, mas estes dois cartões estão um verdadeiro primor. Obrigada, Zé Teófilo.
Quero deixar aqui uma vez mais a frase de Manuel Medeiros (inserida no seu livro Papel a Mais, de 2009, mas pensada, escrita e verbalizada muito antes disso) sobre a missão e a paixão que deve animar o livreiro: Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro publica a leitura. Esta é uma frase lapidar que devia ter um lugar de destaque em todas as livrarias.
Cada vez mais os livreiros independentes têm de se unir, precisam de se unir, de criar formas de união que ultrapassem o querer e o dizer, para poderem agir como um bloco contra todas os ataques e investidas que chegam de muitos lados. Precisamos também de ter o leitor do nosso lado. Temos de ser todos a uma só voz. Sem medos. A nossa situação há muito que é conhecida e reconhecida. Não me refiro apenas à situação financeira, mas também quero falar nela. Não é de agora que as grandes cadeias de venda de livros andam a comprometer a saúde financeira das livrarias independentes com políticas de venda sem a mínima ética. Mas este ano refinaram a sua estratégia. E nós unimo-nos, como é do conhecimento público. Sem medos. E estamos aí a enfrentá-los, a mostrar-lhes que vender livros não é o mesmo que vender batatas, ou maçãs, ou enlatados. Que vender livros é uma atitude cultural e civilizacional.
Nós, livreiros independentes, não queremos ser daqueles que se lamentam, dos que põem as mãos à cabeça e falam sem dar um passo. Nós somos aqueles que de forma muito consciente e criativa, queremos agir, queremos arranjar soluções para atenuar e alterar este estado de coisas. E agimos.
Anteontem mesmo, Jaime Bulhosa deu conta no seu blogue da resposta da Inspeção Geral das Atividades Culturais, IGAC, à queixa apresentada àquela instituição por várias livrarias independentes, entre elas a Culsete. A queixa, efetuada sobre as recentes campanhas de Natal praticadas pelas cadeias de vendas de livros Bertrand e Fnac, denunciando a violação da lei do preço fixo, já recebeu uma resposta daquela instituição que vai de encontro às nossas pretensões. Será que vamos ter alguma justiça? Esperemos que sim.
Já disse e escrevi algures que apenas uma livraria independente oferece uma verdadeira bibliodiversidade. Disse-o e reafirmo-o agora. Dias como o DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO também ajudam a refletir sobre estas questões.
Deixem-me agora acrescentar algumas palavras sobre o tema de debate proposto para este Encontro Livreiro Especial, A Livraria, o Livreiro, a Leitura. É impossível pensar em LIVRARIA sem pensar em LIVRO e LEITURA. Esta relação direta pode não ser evidente para todos, não é certamente simples, mas é, a meu ver, determinante para enquadrar a livraria no contexto social e cultural. Numa sociedade dominada pela economia há que lutar contra a subversão de valores e a degradação do sentido das coisas. Só a partir do entendimento dos problemas da leitura se podem situar os problemas do livro e só o entendimento de uns e outros poderão determinar uma correta conceção da LIVRARIA e da sua posição relativa no complexo mundo da cultura e da civilização, ao lado da editora, do escritor, da escola, da biblioteca e de tudo o mais, naturalmente.
É esta, em traços largos, a minha visão desta problemática. Foi a partir dela que eu e Manuel criámos esta livraria.
Talvez alguns dos nossos leitores e amigos não se lembrem ou não saibam, por já terem esquecido ou por aqui terem chegado depois disso, mas esta casa abriu em 1 de Outubro de 1973. No dia 1 de Abril de 1974 comecei a trabalhar na Culsete a tempo inteiro, tendo abandonado uma situação profissional estável e economicamente muito compensadora. Vim aqui para me ocupar do sector administrativo, mas uma semana depois já tomava conta da livraria, já era a responsável pelas suas vendas e pela gestão de stocks. Manuel Medeiros ocupava-se da administração e tratava das vendas de artigos de papelaria e de algumas representações exclusivas para o distrito que a Culsete detinha, passando a maior parte do tempo fora. Nos documentos oficiais da livraria eu era a gerente de loja, ele o gerente da empresa. Ocupei essa função durante 16 anos.
Quando achei que a livraria já não precisava de mim a tempo inteiro, até porque Manuel já passava cá muito tempo, dividindo comigo o trabalho na livraria, decidi despedir-me e voltar-me para outros amores, o ensino e a investigação.
Mas nunca deixei de tomar parte ativa em todas as decisões da empresa. Sempre colaborei com a livraria, fazendo de tudo um pouco, como fizera até 1990, do acompanhamento das vendas à contabilidade, da arrumação à animação, promoção e mediação de leitura, aquilo de que sempre gostei mais. Levar alguém a ler um livro de que gostamos e que achamos importante e receber posteriormente o feedback positivo dessa leitura é algo de muito forte e compensador, servindo de conforto e apoio nos momentos de desalento e incompreensão que sempre nos vão batendo à porta.
A promoção do livro e a mediação de leitura em escolas foram por mim concretizadas de forma sistemática durante esses 16 anos, tendo-as levado comigo para outros compartimentos da minha vida.
Todo o trabalho realizado pela Culsete foi sempre feito a quatro mãos. As minhas estiveram sempre juntas com as de Manuel Medeiros. Talvez nem todos as tenham visto, mas estiveram sempre pela livraria. Por isso, hoje, quando ele já não pode estender as suas mãos para receber este diploma, eu estendo as minhas sem medo e com a plena consciência de que, se o merecemos, é em resultado desse trabalho de equipa. Não vou parar por aqui. Ainda há muitos sonhos que sonhámos juntos que é preciso concretizar. E novos desafios já se desenham no horizonte. Estou/estamos e estarei/estaremos preparada/preparados para os novos desafios que se desenham. Contem connosco! Contamos convosco!
A Culsete reafirma-se e reassume-se aqui e agora como defensora dos valores que a nortearam ao longo destes 40 anos: um espaço de promoção, mediação, animação e venda do livro que todos os dias procura contribuir para o desenvolvimento cultural da região onde se encontra inserida, ajudando a formar cidadãos mais informados, mais cultos, mais reflexivos, mais atuantes, mais livres.


Boas leituras!


Fátima Ribeiro de Medeiros
Docente, investigadora e livreira


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