terça-feira, 23 de abril de 2013

Dia Mundial do Livro

Um país sem livrarias, não é um país!

«[...] a nova Lei do Arrendamento é uma ameaça, que só a cegueira criminosa dos nossos governantes não vê e que, a não ser rapidamente alterada, irá a breve prazo matar grande parte das nossas pequenas e médias empresas, entre elas variadíssimas livrarias.» [IV Encontro-Livreiro]

Um país sem livrarias, não é um país!

A defesa das livrarias deve ser uma exigência e um imperativo das gentes do livro, do autor ao leitor.

Um país sem livrarias, não é um país!

Encontro-Livreiro
23 de Abril de 2013

quarta-feira, 17 de abril de 2013

«É verdade: ISTO NÃO FICA ASSIM!»

José Gonçalves, falando no IV Encontro Livreiro

Finalmente, duas páginas dedicadas ao IV Encontro Livreiro [Rita Pimenta, «Livreiro - Muito mais que um vendedor de livros», Público, 16 de Abril de 2013]. É bom. Começam a sair as notícias, começam a sair as opiniões, começam a sair as propostas. É verdade: ISTO NÃO FICA ASSIM!
Deste encontro saíram boas propostas de trabalho, que vieram de várias pessoas e de vários sectores. Colocaram-se algumas ideias que terão de ser levadas à prática. O Joaquim [da livraria A das Artes, de Sines] propôs o associativismo, palavra há muito arredada do vocabulário dos resistentes, e deu mesmo ideias práticas para começar a trabalhar.
Os pequenos resistentes, espalhados ao longo do país, não são todos iguais. Talvez começar por aí, por fazer o levantamento das dificuldades existentes em cada zona.
Não vou nomear os que que ainda resistem e os que tiveram de desistir, mas era bom que a solidariedade entre nós todos existisse, o que por vezes não me parece que exista. Penso e tenho a certeza que continuamos a ser ciosos das nossas capelinhas e a não pensar nas capelinhas dos outros, que por vezes estão mesmo ali ao nosso lado...
Do Luís Guerra, diz o artigo e é verdade que trabalha nos livros há mais de 20 anos [faz 30 anos, em 2013, que entrou na Assírio & Alvim] nas áreas comerciais. Eu já vou a caminho dos 50. 
Só hoje começo a ouvir dizer que um Livreiro faz do seu local de trabalho a sua casa. Só hoje se começa a definir o que é um Livreiro. Lê muito, por vezes até compulsivamente, gosta de conversar, sabe o que vende, ajuda o cliente na sua escolha e procura dar informações corretas. Não recorre ao computador apenas para dizer "está esgotado, não conhecemos, a distribuidora faliu, o editor já não existe, desapareceu do mercado." Claro que isto se passa nas lojas de livros e não nas livrarias, como refere Caroline Tyssen, da Livraria Galileu. As máquinas foram criadas para nos auxiliar no nosso dia a dia e não para nos estupidificar e enganar os clientes. É claro que não vou nomear aqui as chamadas lojas de livros, pois para bom entendedor meia palavra basta.
Os monopólios existem e vão continuar a tentar estrangular os resistentes pela via do capitalismo selvagem. Com maiores descontos, com campanhas loucas de baixa de preços e saldos, com o atraso na entrega  das encomendas dos livros de maior rotação, com os cortes de fornecimentos por vezes por causa de quantias irrisórias. Enfim, podíamos continuar a descrever aqui um chorrilho de outros atropelos.
Mas livreiro é livreiro e não é nem nunca será uma espécie em vias de extinção. Talvez os negociantes de livros, esses sim, tenham um fim trágico... as chamadas "LOJAS DE LIVROS E AFINS".
O artigo de hoje dá-nos muitas pistas e muito trabalho para fazer, resta saber COMO, QUANDO E COM QUEM. Caso contrário, mais uma vez... "palavras leva-as o vento".
Obrigado a todos os participantes nestes Encontros, mas desculpem o meu abraço grande, grande para o meu amigo de muitos anos, com quem tenho aprendido muito, MANUEL MEDEIROS, o meu Livreiro Velho.

LIVREIRO É MUITO MAIS QUE UM VENDEDOR DE PAPEL IMPRESSO.

José Gonçalves
Vendedor, mas sobretudo Amante dos Livros e Leitor.

«E pur si muove!»


Nuno Seabra Lopes, falando no IV Encontro Livreiro

Começando como um desígnio de Manuel Medeiros – plenamente apoiado por alguns amigos de notória proactividade – o Encontro Livreiro de Setúbal conta já com 4 sessões anuais, um prémio carreira, um blogue ativo e uma extensão por terras transmontanas. Mas o que é, de facto, o Encontro Livreiro? Por que caminhos segue e quais os objetivos presentes neste Encontro anual de amigos do livro? 

Tendo estado presente em todos exceto no primeiro, tenho visto o desenrolar desta iniciativa, escutado as diversas intervenções e acompanhado o contexto em que se move. 

Em primeiro lugar, realço o facto de a ação não se arrogar mais do que ser um encontro de amigos, um lugar de convívio entre pessoas com interesses comuns, onde se propicia o diálogo e a troca de experiência e de ideias. A par deste conceito, têm sido desenvolvidas algumas dessas ideias, como a instituição do Prémio Livreiro da Esperança, ou a parceria com a Fundação José Saramago para a celebração do dia da Livraria e (agora) do Livreiro a 30 de Novembro. 

Desenvolvendo-se num ambiente que declara não acreditar na Associação existente para os auxiliar e representar (a quase totalidade deles afirma não pertencer ou querer pertencer à APEL), claramente acreditam no livre espírito associativo. Associativo na medida em que compreendem que juntando-se conseguirão obter pequenas vantagens (informativas, arquiteturais, estratégicas) para melhorar a sua prática profissional e descobrir novas formas de reinventar a profissão. 

Tal como referiu António Alves, da Traga-Mundos (o livreiro transmontano presente), só pelas pequenas coisas (descoberta de autores locais, estratégias de colocação e informação de procura de produtos, realização de ações comuns com distribuição de custos, etc.) já compensa. 

O próprio discurso dos Encontros tem alterado ao longo dos anos. De primeiros anos onde a catarse das condições de mercado só era interrompida pelos votos de amor ao livro, as intervenções foram ficando mais claras, avançando-se ideias e discutindo-as, ganhando em propósito e dando ao Encontro mais lastro, mais capacidade para implementar ações e mobilizar pessoas, ou seja, para crescer. 

Como alguém escreveu (que não Galileu, que Manuel Medeiros ainda é o mais idoso de todos os participantes – mesmo não tendo podido estar presencialmente) no livro de presenças do Encontro, E pur si muove!, e no entanto move-se. E move-se no sentido em que Manuel Medeiros sempre quis: que as pessoas conversassem e as ideias surgissem, e as ações fossem implementadas. 

Neste Encontro já não há utopias, conhecem o estado do setor e a progressiva extinção da profissão (a par de todas as outras profissões de mediação), mas conhecem também os valores que representam e os ideais que querem e devem ser preservados, procurando entender novas formas de o fazer. Conhecem ambientes diversos (mais urbanos ou setentrionais, mais ou menos abastados), e preocupações distintas. Mas sabem também que se a profissão de livreiro terá pouco futuro (atualmente já quase não existe), haverá sempre futuro para o «Livreiro», alguém que ama e conhece os livros e tem a capacidade de auxiliar os outros a encontrar aquilo que procuram, fazendo disso a sua profissão. E se em algum sítio deste país se procura esse caminho, é aqui. 

Nuno Seabra Lopes 
Editor e Consultor editorial

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Fui ao 4º Encontro Livreiro!

«Constato arrependida que ao invés de circular entre as estantes, ou de a explorar ao som dos instrumentos tocados ao vivo, me sentei rapidamente num “daqui já ninguém me tira.”


Carcavelos, 15 de Abril de 2013 

Quando li as “convocatórias” para o encontro livreiro fiquei aflita. Enquanto escrutinava as descrições do que se entendia por “Gentes do Livro”, tentava encaixar-me numa sentindo um desacerto. Eis que cheguei a LEITOR e me quedei descansada. Sim, era legítimo ir. Sou leitora, gente e sou definitivamente do LIVRO. O ano passado já me tinha dado a comichão nos pés para estar presente e motivos alheios me haviam impedido. Este ano é que ia ser. E foi. Quão feliz me senti na Culsete naquela tarde de Domingo, 7 de Abril de 2013. Tentarei transmitir o quanto recebi daquela boa gente, sendo certo que ficarei aquém na tarefa. A Livraria é um encanto. Cheira a história(s), a papel e a liberdade. Constato arrependida que ao invés de circular entre as estantes, ou de a explorar ao som dos instrumentos tocados ao vivo, me sentei rapidamente num “daqui já ninguém me tira.” Enquanto uns bebiam moscatel e outros punham a conversa em dia, aproveitei para ler. Em papel. Única forma como concebo a leitura. Estou certa que o objecto não irá sucumbir à era digital. (Muita esperança.) De vez em quando, levantava os olhos para o tocador de flauta que nos animava os tímpanos e os corações, vagueando alegre e ligeiro. (Há qualquer coisa na música…) Também para os livros. Não podes adiar mais Clarice Lispector. Havia uma capa a dizer-mo em surdina. Começou então o quarto encontro livreiro. Escutei atenta, as palavras de quem vive entre livros e para estes há anos. A situação está má? Está. Não vi ali, todavia, alguém disposto a permitir que lhe tombassem os braços. Não. Vi garra, brilho nos olhos e vontade. Ouvi mensagens de alento e propostas concretas de acção. Ficou-me uma certeza: é urgente a união. As gentes do livro têm de se juntar. Para o ano a Culsete deverá ficar com pessoas à porta, por não conseguir sentar todos os que virão ao quinto encontro livreiro. De costas voltadas não salvamos o Livro e as Livrarias. Carolinne Tyssen explicou porque não devemos pedir desconto. Já não o fazia. Depois de a ouvir jamais o farei. Ia à Trama, de propósito, comprar os meus livros. Não me ficava em caminho, embora fosse relativamente perto do meu trabalho. Ia lá porque me sentia em casa. Lá comprei livros maravilhosos que já li e outros que ainda me aguardam nas estantes. Lá fiz “workshops” de escrita criativa (Com a Raquel!) e sobre Literatura (Com a Rosa!). Lá conheci pessoas que me apaixonaram e outras que estranhei. Lá descobri autores de que nunca ouvira falar. Lá bebi cafezinhos e conversei animada, enquanto percorria as lombadas, doida de curiosidade. Lá havia a Catarina e o Ricardo, dois livreiros inesquecíveis. Não sou abastada. Vivo no modo chapa-ganha, chapa-gasta. Não me importo de não deixar qualquer fortuna pecuniária, em testamento, aos meus filhos. Deixo-lhes estantes habitadas por bons livros. Serão ricos. Faço votos que comecem mais cedo do que eu a ler os que importam. A Trama fechou e é como se me tivesse morrido uma amiga, por isso não me canso de lhe perpetuar a memória. Também por isso me esforço por perceber qual poderá ser o meu contributo. Sou das que acredita no que dizia o poeta: «quando um homem sonha o mundo pula e avança». Cada um a fazer a sua parte como parafuso, para que a engrenagem funcione. Quero saber que parafuso sou e onde me posso enroscar. Por isso vou, sempre que posso, escutar quem sabe. 

Recapitulo: 1) Não pedir descontos. 2) Comprar livros nas livrarias pequenas/independentes. 2.1.) Ir à Galileu. Sinto vergonha por nunca lá ter entrado, quando já comi tantos gelados no Santini. Perdoem-me Caroline e Nuno, é falha que colmatarei muito em breve e visita que repetirei, regularmente, de ora em diante. 3) Divulgá-las junto de quem não tem o hábito de comprar os seus livros aí. 4) Oferecer (bons) livros. 5) Estimular os mais novos a lerem e a escreverem. La Atrevida - Libraria Luso-Hispánica foi um projecto que neste encontro conheci e que se me afigurou fascinante. Já passei palavra ao meu sobrinho Rodrigo que adora escrever e que promete tanto em criatividade, como em desenvoltura na língua-mãe. Ficaria feliz se o viesse a ler na próxima Antologia Atrevida. 

Lamento não ter conhecido, ainda, o Livreiro Velho Manuel Medeiros, “pai” da Culsete. Inspiração para tantos. Espero que se restabeleça e encontrá-lo na sua Livraria no próximo ano. Comoveu-me a ideia do encontro ter continuado no Hospital. Lealdade, dedicação, amizade. O peito reconfortado. 

Agradeço à Rosa e ao Luís terem-me dado a conhecer este encontro. Têm sido focos de grande aprendizagem. 

Para terminar, a questão que se me colocou desde o início. Uma interrogação que me acompanha desde o fecho da Trama. Fui incapaz de a transmitir por estúpida e estéril timidez, mesmo tendo sido instigada pela Rosa a participar. Como quase tudo, não é original. Já a Sara a colocara na sua missiva de abertura do encontro. Aproveito para reforçá-la: o que posso fazer além de tudo quanto ouvi naquele Domingo, enquanto leitora, para cumprir o meu pequeno papel? 

(Garanto que vou, igualmente, pensar sobre o assunto para encontrar novos meios de luta.) 

Ajudem-me(nos) a ajudar-vos. Serei voluntária nesta causa. 

“Isto não fica assim!”.


Andreia Azevedo Moreira 
Escreleitora – Carcavelos

domingo, 14 de abril de 2013

«Mas não nos sentimos pequenos como quem é esmagado, antes como quem é convidado a crescer.»


António Alves (Traga-Mundos) e Jónatas Rodrigues (Krrastzepy Verlag)

Através do simpático convite de Fátima Medeiros, da Livraria Culsete, a Krrastzepy Verlag teve o privilégio de estar presente no IV Encontro Livreiro, realizado nesta livraria de Setúbal. Trata-se de um encontro a nível nacional, da iniciativa de Manuel Medeiros, mentor da Culsete, envolvendo gente que faz dos livros a sua forma de estar na vida. 

Agora, que está a dar os seus primeiros passos, a Krrastzepy Verlag sentiu-se pequena no meio de toda aquela gente, cheia de experiências, de saber e em alguns casos, de muitos anos de resistência contra todo o tipo de agressões que este sector tem sofrido. Mas não nos sentimos pequenos como quem é esmagado, antes como quem é convidado a crescer. 

Numa época em que a produção e distribuição de livros também se tornou uma indústria, com as suas linhas de montagem, de palavras marteladas à vontade do freguês e capas ofuscantes, livreiro é quem estimula a existência de leitores que descobrem o que não suspeitariam existir para além dos brilhantes escaparates dos supermercados. E não se limita a consultar uma base de dados, digitando «Monstro de Sister» no lugar de «Monge de Cister» (como já vi acontecer numa «livraria» da moda).

Foram distinguidos com o diploma «Livreiros da Esperança», Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira, da Livraria Galileu, em Cascais, com mais de 40 anos de actividade (e uma cave infinita onde borbulham tesouros de papel e o tempo desliza sem nos avisar).

Pudemos também conhecer António Alberto Alves e um pouco do seu projecto, o Traga-Mundos - com livros e vinhos e coisas boas do Douro, em Vila Real, uma loja temática que tenta a uma viagem de 400 km.

A Krrastzepy Verlag quer também deixar uma palavra de apreço por Fátima Medeiros, pela forma calorosa como acolheu o À Dolorosa Luz e pela ajuda em alguns pormenores práticos desta actividade.

Link para o blog do encontro: http://encontrolivreiro.blogspot.pt/

Jónatas Rodrigues

«vontade em dar a volta certa às questões, sem previsão de milagres ou soluções mágicas.»


Rosa Azevedo, em plena actividade, coordenando as intervenções e tomando notas.

No primeiro fim-de-semana de Abril reunimos mais uma vez na bela Culsete, em Setúbal, para falar de livros, no IV Encontro Livreiro. É sempre e ainda difícil definir o que fazemos ali. Chama-se Encontro Livreiro mas é um encontro de todas as gentes do livro - sem mais definições do que esta. Este ano sentimos a falta do nosso Livreiro Velho que, por motivos de saúde, não pôde estar presente. No final o Encontro pegou nas malas e foi visitá-lo. E como seria de esperar o Manuel teve tanto a acrescentar como a ouvir.

Sem tema à partida pedimos todos os anos a alguém que escreva um texto para lançar a conversa. Desta feita calhou à Sara Figueiredo Costa que não pôde estar presente por motivos profissionais. A Sara lançou as questões a discutir. A dicotomia presente num país desistente que é tão contrastante com movimentos como o Encontro Livreiro e outros movimentos que daí advêm. No seu texto a Sara levanta uma questão sempre muito presente nestes encontros e que convém ter em conta - o Encontro Livreiro não se propõe resolver os problemas das livrarias nem do livro. O encontro propõe colocar mais questões do que as mais óbvias e pensar em algumas posturas alternativas para dar a volta à situação. E foi nesse contexto que este encontro foi mais rico - na demonstração de uma vontade em dar a volta certa às questões, sem previsão de milagres ou soluções mágicas. Já que é difícil manter o optimismo é importante que encontremos outras posições que sintamos que nos levam num qualquer caminho positivo.

Uma das propostas mais presentes quer nos textos lidos quer nas intervenções dos presentes foi a criação de um mapa de livrarias. A desinformação é um dos maiores inimigos deste tipo de negócios. Não podemos contar com quem conhece, temos de trazer às livrarias quem não conhece, quem compra em grandes superfícies apenas por hábito ou facilitismo. A ideia, que surgiu pela mão do Nuno Seabra Lopes, era que se fizesse um mapa físico das livrarias de Lisboa, mais do que apenas um directório como o que existe para os alfarrabistas. Esse mapa poderia ser lançado em Novembro, por altura das comemorações do Dia da Livraria e do Livreiro. Simultaneamente falou-se da importância de se criar um espaço na Internet, que poderia ser um blog por ser mais funcional, onde as livrarias estivessem registadas e pudessem aí fazer uma contínua divulgação quer do seu espaço quer dos seus eventos, textos, ideias, etc. Poderia ser a nível nacional ou regional.

Nuno Medeiros chamou a atenção para a dificuldade que se sente muitas vezes dentro do próprio mundo dos livros entre os vários agentes - assunto que costuma vir à baila nestes encontros - ou seja livreiros, editores, distribuidores. Carolyn, da livraria Galileu, «Livreiro da Esperança 2013» (com Duarte Nuno Oliveira), defende que as dificuldades aproximam as pessoas, uma vez que em tempos como estes cada um dos intervenientes tem mais necessidade do outro do que antes.

Este ano contámos com a presença de uma associação / livraria luso-hispânica que foi muito bem recebida pelas intervenções e pelos conteúdos que acrescentaram ao nosso Encontro. Javier Betemps e Paulo Madrid falaram da urgência de percebermos, dentro das tão referidas dificuldades, que o futuro está nas crianças e que por isso é importante ouvir o que elas têm para dizer. Acreditam que no futuro, e em Encontros como este, se deve fazer pedagogia. Ouviram-se muitas opiniões sobre o papel dos diversos intervenientes na educação de uma criança para a leitura (pais, escolas, livrarias). Mas a conclusão a que todos chegaram é que é importante formar as crianças, futuros leitores e futuros consumidores do mercado livreiro para a escrita e a leitura habituando-as às livrarias que assim se podem e devem chamar pois está nas mãos delas que estes espaços, que são muito mais do que vendedores de livros, possam subsistir. Segundo Javier Betemps as crianças não só são os futuros leitores como são os leitores / escritores do presente que, ao terem contacto com muitas realidades pela primeira vez, têm leituras isentas de vícios e sobre-interpretações com as quais nós só teremos a ganhar.

A conversa continuou animada e pautada pelo debate com algumas questões recorrentes e estruturantes - o papel do e-book, a importância de novos suportes e novas abordagens do livro, os livreiros das grandes livrarias que podem ou não ser considerados livreiros.

Gostava que este texto lançasse a discussão. Que ela continuasse a não ter um tema mas que tivesse vozes. O Encontro Livreiro é já um movimento cheio de braços e ramificações. A forma de continuar este debate de ideias é continuar a pensar e ao pensar continuar a dizer o que se pensa. Como dizia o Joaquim podemos não ser grandes mas seremos resistentes. E como todos sabemos, uns mais do que outros, não há grandeza maior do que a resistência e a não desistência. E o Encontro Livreiro tem provado ser isso mesmo. Ficamos por isso a aguardar as vossas reacções e comentários a estas ideias lançadas este ano para que o Encontro não se fique só por uma tarde boa passada à volta do moscatel, algures no início da Primavera.

Rosa Azevedo

sábado, 13 de abril de 2013

Com Amizade. Com Alegria. Com Esperança.




E o último momento do IV Encontro-Livreiro cumpriu-se, ao fim da tarde, numa sala do Hospital de São Bernardo. 
Com Amizade. Com Alegria. Com Esperança.

ou,
como diz Nuno Fonseca no seu texto, publicado ontem:

«[...] o que mais me tocou foi no final, após todas as celebrações encerradas, poder ir visitar e abraçar o Manuel Medeiros, que por vicissitudes de saúde não se nos pudera juntar durante a tarde, e 
vê-lo bem-disposto, de olhar ladino e tirada pronta na ponta da língua, brindando-nos com mais uma passagem de Saramago.»

Encontros Livreiros Regionais

António Alberto Alves fala sobre o I Encontro Livreiro de Trás-os-Montes e Alto Douro, o primeiro Encontro Livreiro regional, cuja ideia nasceu no III Encontro Livreiro, em 2012.


Em Agosto de 2011 reiniciei actividade em Portugal, depois de uma ausência de 4 anos em Kiel (Alemanha) e de 5 anos como voluntário em Cantchungo (Guiné-Bissau), com a ideia de abrir uma livraria regional (temática) em Vila Real (Trás-os-Montes e Alto Douro). 

Ao tempo as notícias não eram animadoras: «Cem lojas fecham, em média, por dia devido à queda do consumo em Portugal», segundo a Confederação de Comércio e Serviços em 24 de Agosto de 2011. 

“Tu regressas a Portugal e vais abrir uma loja?! Ainda por cima numa época como esta?! Estás maluco...” afirmam os meus amigos e familiares. 

“Vais abrir uma livraria?! Estás maluquinho...” acrescentam os mesmos amigos e familiares. 

[Entretanto, quem se lembra da Trama, da 107, da Portugal, da Poesia Incompleta, da Loja de História Natural, da...] 

Nos preparativos e pesquisas para organizar e montar o projecto, procurei solicitar informação e aconselhamento nas livrarias independentes e deparei com o blogue Encontro Livreiro. Telefonei para a livraria Culsete e falei com Manuel Medeiros. Para quem conhece o Livreiro Velho, sabe que recebi uma doutrinação crua e pertinente, lúcida e sem rodriguinhos – também me remeteu para Bruno Malheiros, pela sua experiência recente de abrir uma livraria: a Capítulos Soltos, em Braga. Foi assim que nasceu a Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro... 

A 21 de Março de 2012 foi com naturalidade que viajei para Setúbal, para participar no III Encontro Livreiro, uma realização anual na livraria Culsete. Com cinco meses de actividade, foi novamente muito importante ter encontrado um ambiente informal de partilhas e aprendizagens, com diversas personagens do mundo livreiro – foi como carregar baterias de motivação. Regressei com a convicção e vontade de que seria importante realizar um encontro regional, com este modelo e metodologia. 

No início deste ano de 2013, iniciámos os preparativos e lançámos a proposta aos colegas da região. Foi assim que a 24 de Março, na livraria Traga-Mundos em Vila Real, aconteceu o I Encontro Livreiro de Trás-os-Montes e Alto Douro

Se nem todas puderam marcar presença, ainda assim, «para além da Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro, 5 livrarias da região – a saber, a Poética – livros, artes e eventos (Macedo de Cavaleiros), a Livraria Rosa d’Ouro (Bragança, Livraria Aguiarense (Vila Pouca de Aguiar), a Livraria Dinis (Valpaços) e a Livraria Branco (Vila Real) – responderam afirmativamente ao convite para se sentarem à mesma mesa e debaterem preocupações comuns e sinergias possíveis para uma melhor estratégia de afirmação das livrarias ditas “tradicionais”. 

Os livreiros deixaram o seu testemunho e algumas preocupações derivadas da própria conjuntura actual, mas do encontro saíram já algumas intenções de conciliação de esforços, nomeadamente ao nível da partilha de novidades editoriais de cada concelho, da cooperação na apresentação de livros de autores na região e da permuta de informação sobre eventos que cada uma realiza na sua região.» 

«No sentido de manter a continuidade do debate e de trazer cada vez mais livrarias para o mesmo, ficou já agendado para o dia 2 de Junho um novo encontro, que decorrerá, desta feita, na livraria Poética, em Macedo de Cavaleiros.» O ideal seria até ao final do ano realizarmos uma ronda de encontros, conhecendo também o recanto e ambiente de cada uma das livrarias – estreitando cooperações. A 30 de Novembro estaremos certamente em sintonia e empenhados em assinalar o Dia da Livraria e do Livreiro em rede. 


António Alberto S.F. Alves 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Porque ainda não conseguiram reduzir-nos a folhas de excel...



O QUARTO ENCONTRO
por Nuno Fonseca*

Nestes últimos anos temos perdido muita coisa. Não é só o dinheiro que se vai e a qualidade de vida que se deteriora; por todo o lado fecham livrarias e todos os dias vemos as gentes do livro e da cultura a engrossarem as hostes de desempregados, que são o pior resultado desta crise generalizada. O Encontro Livreiro, talvez o percebamos melhor agora, é também ele um filho da crise. Mas graças aos deuses livreiros, tem duas mães, e a outra é a esperança. 

É em épocas de crise que as pessoas se dão conta de que só se juntando, partilhando gostos e vontades, se consegue defender o que se tem e ama, e alcançar o que se almeja e sonha. Este sector dos livros não é diferente do resto da sociedade. Somos todos essenciais, pessoas essenciais. Do escritor ao leitor, do livreiro ao editor, do tradutor ao ilustrador, até do mais distante familiar que não lendo, mesmo assim mantém religiosamente uma estante de livros em casa, para os amigos, as visitas e a família, ao cultíssimo bibliotecário que mantém viva, nos seus olhos e gestos a "sua" biblioteca. Sem livros, podemos dizê-lo, a própria sociedade não existe. Porém, para nós, gentes do livro aqui encontradas livrescamente, é ainda mais importante, pois para todos nós os livros são, de uma forma ou outra, o centro das nossas vidas. É importante dizer que é também por isto que nos juntamos todos os anos. Porque somos essenciais. Porque ainda não conseguiram reduzir-nos a folhas de excel, mas também porque sabemos que uma parte de nós tem de usá-las. Um primado da pessoa e não do número. Um primado do gosto e respeito pelo livro e pelas suas gentes. 

Este ano primámos muito. O Encontro de Domingo foi especialmente frutuoso. Ouviram-se as vozes virtuais da Sara e do Joaquim juntas com as nossas e descrições bem reais da Situação, apropriadamente poucas, mas também e sobretudo, bastantes propostas concretas, coisas de fazer, práticas e relevantes. À nossa simples e entusiástica organização, às mãos da Fátima e da Rosa, do Manuel e do Luís, e com os apoios maiores e menores de todos, começamos a produzir resultados. Porque o Encontro Livreiro também é isto de ajudar a dinamizar coisas novas. A parceria de amizade e propósito com a Fundação José Saramago é, neste aspecto, um ponto alto; assim como a decisão conjunta de promover um Dia anual da Livraria e do Livreiro que será comemorado já daqui a uns meses a 30 de Novembro. Outro ponto alto foi também a entrega do Prémio Livreiro da Esperança à Caroline que participou entusiasticamente em todos os momentos, e a participação do António da Traga-Mundos que nos trouxe a sua boa companhia e as notícias dos seus admiráveis esforços em juntar gentes do livro em Trás-os-Montes. Ainda houve espaço para ouvirmos os entusiasmados editores da La Atrevida - Librería Luso-Hispánica que se dedicam a publicar no interessantíssimo nicho da Literatura Infantil feita por crianças, e de reavivar as tensões ainda existentes mas cada vez menos fracturantes entre as novas realidades dos e-books e do mercado livreiro. 

A minha própria modesta contribuição consistiu precisamente nesta área, pois preocupa-me que os livreiros, se persistindo em ficar de costas viradas para a realidade do mercado digital, acabem por não só perderem oportunidades de vivência e sobrevivência, como também se tornem mais pequenos devido à especialização sobre o livro físico. Neste sentido, e devido à novidade que ainda representa o mercado digital, penso ser a altura perfeita de as livrarias procurarem parcerias de negócio vantajosas para ambos os produtos, que são afinal apenas expressões diversas de um mesmo conteúdo. Tentei fazer passar a mensagem de que só abraçando as diferenças e novidades, podemos melhorar o presente ou almejar por um melhor futuro. 

Depois... depois houve também o importante resto, as experiências mais pessoais. Cada um terá tido a sua. Das várias que eu poderia referir, anoto a agradável conversa entre cigarros cá fora com o José Teófilo Duarte e o Gonçalo Mira, a simpatia imediata com o Sérgio Letria com quem tive pena de não falar mais tempo. Ou os livros que acabei por trazer da Culsete, num desses impulsos lestos e mortais para a bolsa tão típicos de alguém que tem a paixão dos livros. Ou as poesias e músicas ouvidas que aqueceram pontualmente o encontro. Mas acima de tudo, o que mais me tocou foi no final, após todas as celebrações encerradas, poder ir visitar e abraçar o Manuel Medeiros, que por vicissitudes de saúde não se nos pudera juntar durante a tarde, e vê-lo bem-disposto, de olhar ladino e tirada pronta na ponta da língua, brindando-nos com mais uma passagem de Saramago. Tudo isto foi rematado com um belo jantar setubalense, seguindo essa tradição tão boa e portuguesa de nos juntarmos à mesa para falar e ser amizade. 

Sim, o Encontro Livreiro deste ano foi especialmente bom. E para o ano meus caros, para o ano há mais. 



Orgia Literária.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Palavras amigas e cheias de esperança que nos chegam de Maputo - Moçambique.




Saudações,

O meu contacto com a Assírio & Alvim começou em 2010. Numa gaveta na Livraria Minerva, onde tinha começado a trabalhar a tempo parcial, à tarde, encontrei uma lista de editoras portuguesas. Essa lista, elaborada por um livreiro que tinha trabalhado na Minerva mais de 30 anos, tinha moradas e telefones. Foi através dela que comecei a contactar várias editoras, primeiro por telefone e mais tarde através dos mails. Desde essa altura, recebo todas as novidades da Assírio & Alvim e foi pelo Luís Guerra que fiquei a saber do Encontro Livreiro. Sempre acompanhei, também com Esperança, o entusiasmo à volta dessa valente iniciativa.

Estar em Moçambique é a única razão que não me permite participar, mas olho com optimismo e acredito que o Encontro Livreiro é um movimento ímpar, nestes tempos de grandes preocupações. Espero sinceramente que este encontro seja frutuoso e que se encontrem soluções para os problemas que serão discutidos.

Cumprimentos,

Tavares Cebola
Maputo, Moçambique

Hoje, na primeira pessoa do singular


A professora reformada e amiga da livraria, Carolina Palminha, 
numa Hora de Conto na livraria A das Artes, Sines

Ao balcão da livraria, em frente ao computador, estou a escrever de pé. E a ouvir Zeca Afonso. 

Há dez anos, quando abrimos, tinha uma ligação de rede a casa e, aí, sossegadamente, podia trabalhar, podia escrever, podia pensar. 

E fiz tudo isso. Fiz contas, vi catálogos, fiz encomendas, programei actividades. Acima de tudo, sonhei. 

Contingências da vida acabaram com essa ligação, o que me obrigou a ter de fazer tudo na livraria. De pé, porque a ergonomia do balcão não permite outra coisa. 

E, de pé, enquanto alinho aqui as palavras, sinto-me como que a escrever uma carta de despedida. Não querendo, no entanto, acreditar nisso. 

Dez anos, é muito tempo. Pouco, para quem vem da área académica de História. Mas muito, muito tempo, para quem está, com a porta de uma livraria aberta, na área geográfica de um Portugal cada vez mais pequenino. E, aqui, fica a minha homenagem a quem, com sabedoria e, certamente, imenso sacrifício, conseguiu chegar até hoje tendo começado há muito mais tempo do que eu: Os livreiros velhos que ainda nos dão palmadas para não desistirmos. Manuel Medeiros, sempre; no ano passado o saudoso Jorge Figueira de Sousa; este ano, Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira. Não esquecendo a gasolina com que insistentemente nos incendeia, não sendo velho, mas, mais livreiro do que muitos livreiros, o Luís Guerra. 

O acto de abrir uma livraria, mesmo há dez anos atrás, é um acto egoísta. E os pecados pagam-se. Terá havido tempos em que isso seria um negócio. Terá havido. Hoje (mesmo há dez anos atrás!), abrir uma livraria é uma aventura. Uma aventura que sai cara, logo, é preciso dinheiro para a manter. Portanto, vendas. 

Com o paradigma social alterado e adulterado, com o vício paulatinamente incutido das luzes; das cores; da fartura; do verniz dos shopings e grandes superfícies, pouco sobra para o bairro. O que sobra não é suficiente porque o povo/cliente agora é rico. Pelo menos na sua cabeça. Não é modesto. Vive de ilusões que um dia lhe sairão caras. Já estão a sair! Depois… depois é tarde demais para arrepiar caminho. E os vícios não se largam assim do pé para a mão. 

É uma sociedade que, com a ilusão da riqueza, empobrece. Finge que está viva. As escolas fotocopiam descaradamente livros, os professores não os compram, as bibliotecas não têm dinheiro para o papel, as grandes superfícies, sites na Internet, grandes grupos, contornam e, impunemente, não cumprem a Lei do Preço Fixo do Livro que ninguém faz cumprir. O Estado, que era dono dos Correios, a fazer concorrência directa às livrarias com o dinheiro que delas recebe dos impostos!!! Porque o pequeno comércio é para abater. Pelo poder instalado que é o poder do capital sobre o Homem. O poder da polis morreu aqui. 

Criatividade é um neologismo que não aprendi na escola. Desculpem-me os puritanos da língua se estou errado. Aprendi-o, sim, obrigado pela vida. Para me virar. Para fazer das tripas coração. Para fazer de uma livraria de província um local apetecível. Uma livraria com livros, música, artesanato, artes plásticas, chá, pequenos mimos de memória. Onde se falasse de livros… e de tudo. Ao longo de dez anos promovi encontros com escritores, actores, músicos, bailarinos, graças mais à sua generosidade do que ao interesse comercial. E, na esmagadora maioria das vezes, sem qualquer apoio da respectiva editora. 

A indiferença de pessoas ligadas ao livro, mesmo leitores, é notória na falta de participação em acções que não sejam mediáticas. Nas actividades de pequenas livrarias como a minha, como em acções como este Encontro Livreiro, longe dos holofotes. 

Desde há quatro anos que um pequeno grupo de entusiastas se esforça para unir as pessoas que têm como principal ponto de união o amor ao livro. Curiosamente, apesar do grande esforço de promoção e informação, este Encontro Livreiro ainda não contou, salvo gratificantes excepções, com a participação que não fosse dos chamados pequenos. Aos grandes – editores, distribuidores, livreiros, mesmo escritores – parece não interessar este tipo de movimento. 

Só e exclusivamente a nós cabe lutar pela sobrevivência. Talvez seja melhor esses tais não aparecerem. O Encontro Livreiro transmontano é prova de que vale a pena lutar. 

Bem gostaria de parafrasear Palmira Bastos: "Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores". Mas, apesar de gostar de teatro, são os livros que me estão na cabeça – e só me lembro do título do livro de Horace Maccoy, Os cavalos também se abatem

No entanto, se o meu ânimo tem esta sequência, e porque o ciclo da vida se regenera, prefiro transmitir aos outros o contrário: Os cavalos também se abatem, mas as árvores morrem de pé. É uma questão de escolha: Ser animal ou vegetal. 

Visto, então, a pele animal da lagartixa a quem cortaram o rabo que fica ainda a mexer, em pré-morte, isolado do corpo que sobrevive e ainda com a memória vital deste. 

Diz o rabo da lagartixa, como achega a outras propostas que possam sair deste encontro de amigos, que talvez (isto sou eu a pensar alto!) que talvez se possa fazer o seguinte: 

1 - Elaboração de um texto expondo em breves palavras a situação do sector, em que não sejam esquecidas questões como: 

Em relação aos fornecedores

- Extinção da profissão de vendedor que era quem conhecia a realidade local de cada cliente; 
- Falta de informação editorial atempada. Quantas vezes sabemos primeiro pelos órgãos de informação o       que sai ou vai sair? 
- Venda directa ao público com prazos de entrega inferiores aos do comércio; 
- Concorrência directa com os clientes em escolas, bibliotecas, feiras; 
- Exigência de valores ou quantidades mínimas de compras; 

Em relação ao poder político

- A vergonhosa violação da Lei do Preço Fixo, para o que seria necessário a ajuda de amigos advogados que estudem os casos de forma a que, posteriormente, se possa tomar alguma atitude de denúncia ou proposta de alteração da Lei. 

2 – Para enriquecimento, envio desse texto a todas as livrarias de pequena dimensão conhecidas no sentido do estabelecimento de uma base de dados de contactos acessível a todos, para troca de informação e experiências, formando uma rede e tomando como base o blogue do Encontro Livreiro. Desta forma poderíamos ainda colaborar em aquisições, por exemplo, ou mesmo na organização de iniciativas: 

- Um cliente pede-nos um livro que não temos mas alguém pode ter – colocamos o pedido na rede e, quem o tiver, responde, envia, etc. 

- Podemos promover um circuito apresentações com autores ou outras actividades em várias livrarias. 

……………………………

Não sei se sou árvore a morrer ou cavalo a abater. Para estar aqui, hoje, convosco, teria de retirar dinheiro aos fornecedores para custear a viagem. Ausente no corpo mas presente no espírito, optei por ficar em casa. 

Perdoem-me a franqueza e a prosa lamurienta. Logo que me saia uma lotaria qualquer, em que não jogo, voltarei com mais ânimo. Agora, não consigo. 

Razão têm as finanças para que a profissão de livreiro não conste na sua lista. Os livreiros não existem no tipo de sociedade para que nos atiraram. Sobramos os sonhadores. 

Sines, 6 de Abril de 2013 
Joaquim Gonçalves

[Texto enviado por e-mail e lido por Rosa Azevedo no IV Encontro Livreiro]

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Dia da Livraria e do Livreiro


Sérgio Letria, da Fundação José Saramago, falou sobre o Dia da Livraria e do Livreiro

Em 2012, em parceria com a Fundação José Saramago, comemorámos de forma simples o Dia das Livrarias, associando-nos assim a iniciativa similar realizada em Espanha. Do contacto inicial entre a Fundação José Saramago e o Encontro-Livreiro nasceu mais uma iniciativa que muito tem a ver com o espírito e os objectivos deste movimento: a defesa das livrarias como o lugar privilegiado da edição da leitura, como muito bem diz o nosso Livreiro Velho, e como o garante do desenvolvimento da leitura, única forma de defender todos os intervenientes no mundo do livro, do autor ao leitor

Cartaz do Dia das Livrarias 2012


Para além da iniciativa do passado dia 30 de Novembro de 2012, fundamentalmente assinalada com a edição de um cartaz com frases de José Saramago alusivas à leitura, que as livrarias aderentes difundiram e que serviu para assinalar a data através fundamentalmente de blogues e redes sociais - aí difundindo também a mensagem «Todos os dias são bons para visitar uma livraria. Não permita que as livrarias se transformem numa "espécie em vias de extinção!"», continuámos as nossas conversas e, numa reunião realizada há dois dias, acordámos o seguinte:

1. Que fique instituída esta parceria entre o ENCONTRO-LIVREIRO e a FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO

2. Que o dia 30 DE NOVEMBRO se passe a chamar DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO [note-se que, neste dia, se assinala a morte de Fernando Pessoa (1935) e de Fernando Assis Pacheco (1995), este último precisamente numa livraria de Lisboa, a velha Buchholz da Rua Duque de Palmela. Dizia o seu filho João em texto que publicámos no dia 29/11/2012: «Morrer numa livraria chateia tanto como morrer noutro sítio qualquer, suponho. Mas se é mesmo preciso praticar essa maçada de morrer, que seja em serviço. Foi isso que Fernando Assis Pacheco fez numa manhã de 1995, num 30 de Novembro. Saiu de casa para ir trabalhar, passou pela livraria de todos os dias, apagou-se.]

3. Que seja constituído em breve um grupo organizador do Dia da Livraria e do Livreiro em 2013, que integrará elementos da Fundação, do Encontro e de  algumas Livrarias.

Temos hoje connosco o Sérgio Letria, director da Fundação, um amigo pessoal e do Encontro-Livreiro, a quem peço que nos dirija algumas palavras sobre este feliz envolvimento entre a Fundação José Saramago, uma entidade ligada a um AUTOR, e o Encontro-Livreiro, que «é simplesmente um movimento de aproximação entre quem, vivendo e trabalhando no meio dos livros, já percebeu que não faz sentido, hoje mais do que nunca, andarmos a esforçar-nos cada um por si, numa guerra que só pode ser vencida em comum, lado a lado. Se é que se pretende merecer que o livro continue a ser uma das mais ricas potencialidades criadas pelo homem civilizado para progredir em direcção a todas as suas utopias e ambições e conseguir que, trabalhando com ele e para ele, se vão colhendo bons proveitos e justos proventos.», como escreveu no texto do III Encontro o nosso querido e incontornável Manuel Medeiros, um entusiasta deste DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO (foi ele, aliás, o proponente desta nova designação, que eu e o Sérgio Letria aceitámos de imediato e pomos à vossa consideração) pelo que ele significa de chamada de atenção para o lugar central da LIVRARIA e para os sinais, cada vez mais evidentes, de que está a nascer, já está aí em várias livrarias pelo país fora, um novo modelo de LIVREIRO, já não necessariamente o proprietário da livraria, já não necessariamente um autodidacta (embora os haja, e vá continuar a haver, e muito bons), mas alguém com uma maior e melhor preparação e exigência, se bem que desejavelmente aberto a colher o saber dos livreiros menos jovens e mais experientes. 

Muitos de nós conhecemos casos de proprietários e administradores de livrarias que, por não saberem aproveitar devidamente os excelentes livreiros que querem apenas a “arrumar livros” e “atrás do balcão”, vêem as suas livrarias a definhar e cada vez mais vazias de livros e de leitores. 

Estou certo que, no futuro, se assistirá a um movimento desses mesmos livreiros, hoje encurralados em livrarias que não alcançam mais além do lucro imediato, rumo a projectos pessoais ou de pequenos grupos (assistiremos ao ressurgir das cooperativas?) onde possam desenvolver verdadeiros projectos livreiros que, não só cumprirão melhor a função de livraria, integrada no grande desígnio que é o desenvolvimento da leitura, como serão economicamente mais rentáveis. 

Mas aqui está mais um tema sobre o qual também seria bom conversarmos esta tarde. 

Passo a palavra ao Sérgio Letria [Falou de improviso. Foto acima]. 

Luís Guerra
Setúbal, 7 de Abril de 2013

terça-feira, 9 de abril de 2013

Entrega do diploma «Livreiro da Esperança 2013»







O Livreiro da Esperança - uma homenagem das gentes do livro aos livreiros portugueses, muito esquecidos e nem sempre compreendidos na sua fundamental função de editores da leitura - foi instituído em 2012 e homenageou o livreiro Jorge Figueira de Sousa, da Livraria Esperança, no Funchal. 

[Recordamo-lo hoje, com saudade, e cumprimentamos a D. Maria de Lurdes que, com os colaboradores da Livraria e da Fundação Esperança, mantém vivo um sonho de várias gerações. Ontem mesmo fez-nos chegar a seguinte mensagem: 

«Muito boa tarde. 

É com grande desgosto que só agora venho dizer-lhe que amanhã não posso estar presente em Setúbal. 
Estudei todas as hipóteses, mas foi impossível. Contudo acompanhá-los-ei em espírito e para TODOS envio os melhores votos de alegria na reunião e bons negócios no futuro. 

Cumprimentos com toda a amizade, 

Maria de Lurdes Santos»] 


Como já sabem, decidimos homenagear, neste IV Encontro-Livreiro, os livreiros Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira da Livraria Galileu, em Cascais. A Galileu, que completou 40 anos de vida no passado dia 22 de Dezembro de 2012, é um exemplo de sonho transformado em realidade, de persistência, de sinal de esperança e de grande confiança no futuro do livro, da leitura, da livraria. 

Lê-se no sítio da Galileu:

«Estávamos no princípio dos anos 70 e, por incrível que pareça não havia uma livraria em Cascais. Partindo desta premissa, um grupo de pessoas decidiu colmatar esta lacuna e «fazer» a dita livraria. Idealizámos então que ela seria também um lugar de tertúlia (este ideal tornou-se notória e grata realidade), onde os cascalenses se pudessem encontrar para cavaquear e demorar-se numa área de café (projecto que acabou por não vingar) enquanto folheavam e adquiriam o que por cá se ia editando, mais o que viríamos a importar de França, Suíça (sobretudo livros de arte) e Inglaterra. Enfim, um lugar que promovesse, através do amor pela leitura dos seus visitantes, uma vivência desempoeirada da cultura. 

O sonho fez-se carne no dia 22 de Dezembro de 1972, data do nascimento da Livraria Galileu em plena Avenida Valbom - à data uma artéria quase sem comércio, escassamente frequentada. Não faltou, devido a estas circunstâncias (e por causa também da então «astronómica» renda - 12 contos! - que pagávamos pelo espaço), quem nos augurasse um triste e curtíssimo destino. Entretanto já lá vão 40 anos...». 

E continua… 

Mas pedimos a Caroline Tyssen que, imediatamente a seguir à entrega do diploma «Livreiro da Esperança 2013» que agora vamos concretizar, nos conte um pouco da sua experiência, da(s) sua(s) história(s), mas também do presente e do futuro da livraria Galileu. Pedimos-lhe ainda que transmita a Duarte Nuno Oliveira, que não pode estar aqui connosco, as nossas saudações cordiais.

Obrigado, Caroline Tyssen! Obrigado, Duarte Nuno Oliveira! 

Encontro-Livreiro
7 de Abril de 2013

IV Encontro Livreiro - Textos e Mensagens

Publicámos ontem o texto do IV Encontro Livreiro, de Sara Figueiredo Costa. Hoje e nos próximos dias publicaremos aqui mais textos, imagens e mensagens.

Apelamos a todos os participantes que nos façam chegar - através do encontro.livreiro@gmail.com - as suas impressões sobre o IV Encontro Livreiro. E aos que não participaram, mas gostavam de o ter feito, que nos enviem as suas reflexões sobre o que aqui se for mostrando e publicando. 

ISTO NÃO FICA ASSIM!

Encontro-Livreiro

segunda-feira, 8 de abril de 2013

De Setúbal, via Trás-os-Montes.








Via Trás-os-Montes, pela mão e pelo olhar de António Alves, da Traga-Mundos (Vila Real), chegam-nos estas fotografias de alguns momentos do IV Encontro Livreiro, realizado ontem na Livraria Culsete, em Setúbal. Aqui traremos mais textos e imagens do convívio e encontro anual das gentes do livro. ISTO NÃO FICA ASSIM!

Texto do IV Encontro Livreiro




Rosa Azevedo, lendo o texto do IV Encontro-Livreiro

Nota prévia ao texto lido no ano passado por Manuel Medeiros: «Para cada um dos dois encontros anteriores Luís Guerra redigiu e leu um texto. No terceiro encontro não achou bem ser ele a redigir um novo texto, nem por isso admitindo a sua falta. Por isso pediu a outro de nós que dele se encarregasse. Fica assente, pois, mais este ponto: haverá em cada ano um novo «Texto do Encontro Livreiro».

Pedimos à Sara Figueiredo Costa, que preparasse um texto para este IV Encontro Livreiro. Porque, por razões profissionais se encontra neste momento a acompanhar o Festival Literário da Madeira, não pode estar aqui connosco, como tem acontecido nos anos anteriores e como ela gostaria, mas enviou-nos o texto que passo a ler* e que poderá, se assim o entenderem, servir de mote para a conversa que animará a tarde.

Sara Figueiredo Costa no II Encontro Livreiro

Queria e devia anunciar o arranque deste IV Encontro Livreiro de viva voz, mas compromissos profissionais daqueles que não podem adiar-se em tempos tão negros obrigam-me a fazê-lo à distância de umas quantas milhas e com um bocadinho de mar pelo meio. Lamento por isso, mas encaremos isto como uma espécie de correspondência e saibam todos vós que, estando no Funchal, não deixo por isso de ter o coração em Setúbal, no belo espaço da Culsete, entre dois dedos de boa conversa, debate animado e um copito de Moscatel.

Quando todos nos dizem que o futuro está complicado e que o presente não oferece grandes motivos para sorrir, creio que devemos começar por celebrar. Quatro anos de Encontro Livreiro são quatro anos de muitas vontades convergindo para um objectivo comum, de dedicação a um tema que é muito mais transversal do que parece (e, portanto, muito mais central na vida daquilo a que chamamos comunidade do que nos querem fazer crer) e, sobretudo, quatro anos de partilha. Será pouco na cronologia da História, já sabemos, mas é muito quando olhamos para as pessoas que se têm envolvido, para os seus diferentes percursos, preocupações e interesses, ou para o impacto pouco espalhafatoso mas muito eficaz que tudo isto tem tido. É muito, sobretudo, quando pensamos nas histórias e nas experiências partilhadas entre todos, mais novos ou mais velhos, livreiros, editores, jornalistas, distribuidores, autores e, acima de tudo, leitores. As coisas pequeninas só parecem pequeninas porque as vemos no meio do turbilhão de notícias, imagens, links e flashes que compõem o nosso quotidiano, mas são sempre gigantes quando percebemos o modo como tocam as pessoas, como as põem em contacto e como ajudam a criar pontes, apoios, partilhas. Celebremos, pois, que os tempos podem estar sombrios mas não estão para desistências.

A propósito de os tempos não estarem para desistências, vale a pena lembrar que o Encontro Livreiro, nascido em Setúbal pela mão do livreiro Manuel Medeiros e com a ajuda preciosa de Fátima Medeiros e Luís Guerra, já não é o único no país. Muito recentemente, a Traga-Mundos acolheu o I Encontro Livreiro de Trás-os-Montes e Alto Douro e tudo indica que novos encontros regionais se estarão a preparar para breve, num movimento de descentralização que só pode encher de esperança quem sabe da importância que uma tarde de debate ente aquilo a que gostamos de chamar a gente dos livros pode ter. 

Falando em esperança, aproveito a estada no Funchal para vos dizer que visitei ontem a Livraria Esperança e que encontrei o mesmo espaço acolhedor de sempre. Estive com a Dona Lurdes, a quem enviei um abraço em nome do Encontro Livreiro, e posso dizer-vos que apesar da sua ausência, hoje, em Setúbal, o sentimento de pertença a este grupo informal é grande. A partida do Senhor Jorge Figueira de Sousa é notória na livraria, mas não de um modo triste ou cabisbaixo. É notória porque, agora, não é a sua presença que fala e sim a sua memória. E creio que não é preciso dizer, entre gente dos livros, que talvez não tenhamos muitas coisas mais preciosas do que essa a que chamamos memória. E como a memória é coisa que tanto vive em nós como nas páginas impressas, também vos digo que saí da Esperança com a alma lavada e com um saco cheio de livros, esperando que isso não me trame quando chegar a altura de verificar se há excesso de bagagem na mala para o voo de regresso... 

Para além dos já referidos encontros regionais, o Encontro Livreiro tem dado outros frutos visíveis. Entre eles, vale a pena destacar o Dia das Livrarias, uma parceria entre o Encontro Livreiro e a Fundação José Saramago que terá este ano a sua segunda edição. Para onde caminhará esse Dia das Livrarias, é coisa que cabe a nós discutir e fazer acontecer, que para isso nos encontramos, em presença ou à distância, mas creio ser consensual dizer que organizar um dia para colocar em destaque o papel das livrarias na vida cultural (e cívica, e social, e política, e tudo) da comunidade, seja ela o país, o bairro ou a rua, é algo que não só não podemos deixar esmorecer como temos de conseguir fazer crescer. E não há espaço melhor para esse efeito do que este encontro, por isso, mãos à obra.

Este ano, o Encontro Livreiro atribui o diploma Livreiros da Esperança a Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira, os dois livreiros responsáveis pela Livraria Galileu, em Cascais, que cumpriu quatro décadas de vida no ano passado. Se um número tão redondo e responsável não bastasse para justificar a homenagem, bastaria recordar aos mais distraídos a dedicação que os livreiros da Galileu põem em tudo o que fazem, da escolha dos livros ao atendimento, passando por aquela espécie de radiografia cerebral e sentimental que só os bons livreiros sabem fazer e que consiste em passar alguns minutos à conversa com um cliente (coisa que o marketing moderno desprezará, com toda a certeza, por achar que é perda de tempo e que mais vale comprar escaparates com fartura e inundar a vista de quem passa com a mesma capa reproduzida mil e quinhentas vezes...) para depois lhe indicar, sem sombra de dúvidas, quatro ou cinco títulos que obviamente vão ser do seu agrado. Se não soubéssemos qual é a diferença entre uma livraria e um supermercado de livros, bastaria um par de horas na autêntica caverna de Ali-Babá - sem os quarenta ladrões e apenas com tesouros de toda a espécie - que é a Galileu, para a descobrirmos. 

Numa altura em que continuamos a ouvir falar de crise todos os dias, e em que mais do que ouvirmos falar dela a sentimos na pele, de modos e com dores diferentes, a cada hora, sabemos que as livrarias não estão a atravessar tempos fáceis. Talvez nunca os tenham atravessado, e sobre isso valeria a pena ouvir o que dizem os nossos livreiros, sobretudo os mais velhos, mas quando o dinheiro para os livros mirra nos bolsos das pessoas que os querem comprar, e quando a isso juntamos os males que já conhecemos no mercado editorial e livreiro, o optimismo é difícil. A que males me refiro? A vários, mas podemos ficar-nos pela alucinação de um mercado que quis transformar-se em americano sem saber que não conseguia deixar de ser português, inundando escaparates com dezenas de títulos novos todos os dias, fazendo da novidade uma ditadura, arrasando a ideia de livraria enquanto lugar de património e memória (o que não se antagoniza com a ideia de negócio, mas ele há negócios e negócios) e, sobretudo, estabelecendo regras de negócio que não são iguais para todos os que vivem desse negócio.
O que é que podemos fazer quanto a isso? É a pergunta que se impõe e é óbvio que não tenho uma resposta, como talvez nenhum de nós tenha. Podemos, enquanto 'consumidores' (é uma má palavra, mas enfim), fazer escolhas conscientes, preferir comprar livros em livrarias independentes ou não ceder a feiras que oferecem preços com descontos tentadores mas que se escapam a cumprir a Lei do Preço Fixo, mas dificilmente poderemos, sozinhos, mudar o mercado. Também podemos pensar em alternativas de circulação e compra de livros, ou até de feitura de livros, e isso são coisas que vão acontecendo por aí, mas não são coisas que possam preencher todo o mercado, ou substituí-lo, e talvez nem queiram, por não ser essa a sua vocação. As perguntas mais pertinentes costumam não ter respostas, pelo menos imediatas. A sugestão, talvez alucinada, é que se troque a urgência de uma resposta que creio que não virá de modo universal e absoluto pela vontade de fazer muitas perguntas, talvez começadas por "e se...?". Uma sugestão, para não estar aqui sossegadinha no Funchal a debitar ideias alucinadas: e se nos organizássemos para fazer algo sobre as livrarias alfarrabistas históricas, preciosas e essenciais que estão à beira de fechar em Lisboa, a Olisipo e a Artes e Letras? Não temos como alterar o mercado, nem como dar às pessoas o dinheiro que elas deixaram de ter para comprar livros, mas temos como escrever à Câmara Municipal de Lisboa, e a Câmara Municipal de Lisboa pode e deve ter uma intervenção no assunto, já que o problema, segundo a imprensa, está relacionado com a nova Lei do Arrendamento. E podemos fazer dessa carta um acto público, tentando que tenha um impacto que vá além da recepção da missiva por um funcionário camarário que talvez se limite a arquivá-la junto de outras missivas. E claro que podemos fazer isto envolvendo os respectivos livreiros, e talvez começar por aí seja a melhor forma de o fazer. Mas não podemos ficar por aqui nem apenas por Lisboa: a nova Lei do Arrendamento é uma ameaça, que só a cegueira criminosa dos nossos governantes não vê e que, a não ser rapidamente alterada, irá a breve prazo matar grande parte das nossas pequenas e médias empresas, entre elas variadíssimas livrarias. Proponho que, na conversa desta tarde, se apresentem e discutam acções do mesmo género ou outras, dirigidas estas a várias entidades públicas (Presidência da República, Assembleia da República, Governo, etc.), neste domínio mais amplo e nacional. Percebo o pessimismo, os seus motivos e a facilidade com que nele se tropeça (e todos lá caímos, inevitável), mas vejo este Encontro Livreiro como um espaço privilegiado para o contrariar, apesar de todos os pesares. Fecho, por isso, a minha intervenção à distância com esta proposta concreta, imaginando que possam discuti-la ou oferecer outras para a discussão. Muito obrigada pela vossa atenção e até já. 

Sara Figueiredo Costa [* Texto lido por Rosa Azevedo].


Livreiro da Esperança 2013


domingo, 7 de abril de 2013

Conviver à volta de um moscatel no IV Encontro Livreiro


 © rabiscos vieira

«Para que serve um encontro livreiro? “Serve para que as pessoas do mundo do livro convivam. Essa foi a minha verdadeira ideia: materializar um encontro em que nos pudéssemos conhecer uns aos outros. E em festa”, responde Manuel Medeiros, o Livreiro Velho, como se autodenomina o açoriano de 77 anos que imaginou estes encontros e os agendou para o início da Primavera de cada ano. Em rigor, para o último domingo de Março, alterado este ano por coincidir com a Páscoa. 

“A sociedade não avança sem ser por união. Por isso é tão importante a solidariedade. Este é um movimento que se baseia nas pessoas que acreditam no livro. Se conviverem, dialogarem e ficarem a conhecer-se, pode acontecer muita coisa”, diz ao PÚBLICO, por telefone, na véspera do IV Encontro Livreiro, marcado para este domingo, às 15h. “E haverá sítio mais agradável para nos encontrarmos do que uma livraria, depois de um almoço de peixe grelhado e saboreando juntos um moscatel de Setúbal?”, pergunta o autor do livro Papel a Mais (que assina como Resendes Ventura, em edição da Esfera do Caos). 

A conversa com o PÚBLICO acontece enquanto está “sentado num cadeirão” do Hospital de São Bernardo e a viver “uma recuperação vagarosa”, descreve o livreiro que desde 1973 dirige e anima a livraria Culsete com Fátima Ribeiro de Medeiros. 

Entre as muitas iniciativas que Manuel Medeiros espera que aconteçam a partir do movimento criado pelo encontro das “gentes do livro”, já algo se vai concretizando, como conta Luís Guerra, da Assírio & Alvim [muitos anos Assírio & Alvim, hoje Documenta e Sistema Solar] e dinamizador do blogue Encontro Livreiro: “O I Encontro Livreiro de Trás-os-Montes e Alto Douro, a 24 de Março, aconteceu depois de o livreiro António Alves, da Traga-Mundos, de Vila Real, ter estado num dos encontros em Setúbal. É a este tipo de coisas que o Manuel se refere. Por isso gosta de chamar ‘movimento’ ao encontro.” Para dia 2 de Junho, já está marcado II Encontro Livreiro no Norte. Será em Macedo de Cavaleiros, na Poética – Livros, Artes e Eventos. 

O IV Encontro Livreiro em Setúbal atribuirá mais uma vez o diploma Livreiros da Esperança, que este ano distingue Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira, da Livraria Galileu (Cascais, 40 anos de actividade). Na edição do ano passado, quando se atribuiu o primeiro diploma, foi premiado Jorge Figueira de Sousa, da Livraria Esperança (Funchal, Madeira).
[...]»

Rita Pimenta, Público, 7 de Abril de 2013
 © rabiscos vieira

sábado, 6 de abril de 2013

O Encontro Livreiro é simplesmente um movimento...


«O Encontro Livreiro é simplesmente um movimento de aproximação entre quem, vivendo e trabalhando no meio dos livros, já percebeu que não faz sentido, hoje mais do que nunca, andarmos a esforçar-nos cada um por si, numa guerra que só pode ser vencida em comum, lado a lado. Se é que se pretende merecer que o livro continue a ser uma das mais ricas potencialidades criadas pelo homem civilizado para progredir em direcção a todas as suas utopias e ambições e conseguir que, trabalhando com ele e para ele, se vão colhendo bons proveitos e justos proventos.»

Manuel Medeiros, Texto do III Encontro Livreiro [a reler até domingo]

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Modificar a vida através dos livros


«A Livraria Galileu, em Cascais, com quase 40 anos de existência [completou 40 anos no dia 22 de Dezembro de 2012], assiste actualmente a uma crise grave - que não é económica, segundo Caroline Tyssen, mas de valores. A Galileu sobrevive numa luta constante para recuperar os hábitos de leitura dos portugueses.» [vídeo de Abril de 2011]

«Livreiros da Esperança» - Uma homenagem das gentes do livro aos livreiros portugueses


LIVREIROS DA ESPERANÇA
ENCONTRO-LIVREIRO

Uma homenagem das gentes do livro aos livreiros portugueses, muito esquecidos e nem sempre compreendidos na sua fundamental função de "editores"
 da leitura.






                                      
LIVREIRO DA ESPERANÇA 2013
Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira
Livraria Galileu - Cascais


O diploma «Livreiro da Esperança 2013» será entregue no IV Encontro Livreiro, a realizar na tarde do próximo domingo, dia 7 de Abril, na Livraria Culsete, em Setúbal


[Galileu, Março de 2013 - Fotos de Luís Guerra]