quarta-feira, 2 de abril de 2014

Livrarias: presente e futuro


O movimento Encontro Livreiro convidou para apresentar o chamado texto oficial do V Encontro o sociólogo Nuno Medeiros que se tem dedicado à análise e reflexão de questões relacionadas com o livro, as livrarias e a edição, tendo publicado vários estudos sobre estas temáticas, entre eles o livro Edição e Editores: o mundo do livro em Portugal, 1940-1970. O texto produzido por Nuno Medeiros abordou e introduziu o tema proposto para reflexão durante o V Encontro Livreiro.


Como lançar o tema “Livrarias: presente e futuro” para o espaço de discussão e reflexão do encontro livreiro, designação que suscita apenas aparentemente uma homologia de sentidos conferida à palavra livreiro, que se deseja antes de mais uma noção alargada em torno do livro e dos seus praticantes: leitores, editores, tradutores, gráficos, distribuidores, capistas, ilustradores, revisores, autores, agentes de representação, formadores, bibliotecários, críticos e, claro, livreiros? 

O desafio que me foi proposto para trazer à fase inicial da discussão do V Encontro Livreiro obriga-me ao confronto com várias armadilhas. Devo evitá-las? E como? Sendo eu filho de livreiros e, durante muitos anos, colaborador de ocasião e de permanência no espaço livreiro, o da Culsete, que nos acolhe, sou também filho de dois promotores iniciais desta ideia: Fátima Ribeiro de Medeiros e Manuel Medeiros. E tenho vindo a ser, na última década e meia, um estudioso de espaços e campos confluentes, da edição de livros à leitura. É uma declaração de interesses longa e heterogénea, que espero não me tolher o convite que farei para o debate a partir de algumas, poucas, ideias que procurarei delinear. 

Antes de mais, convém abordar a própria categoria, para começar a pensar nela. O que é uma livraria? Como a definir? Quais os parâmetros e critérios da sua delimitação? Entramos em terreno que é mais escorregadio e rugoso do que parece, cujos ângulos se multiplicam a cada passo que damos. De que falamos, então, quando falamos de livrarias? A porta franqueia-se à complicação, diria antes complexificação. Sendo um espaço onde se vende livros, será um espaço onde apenas se vendem livros? Atiremos para a relação os espaços de papelaria onde se apresentam livros, ou de livraria onde surgem artigos de papelaria (assim como esta casa, a Culsete, mesmo que os livros ocupem espaço esmagador na proporção), ou ainda a livraria em que encontramos discos, e máquinas, e jogos, e livros. Juntemos espaços com configurações várias, como a livraria de pequena dimensão, a rede de livrarias culturais e com projecto comercial (veja-se exemplo de Óbidos, com o desígnio da obtenção do selo de Vila Literária através de iniciativas como a da rede de livrarias em elaboração), a livraria independente de maior dimensão (ou em rede), a livraria em rede, a livraria na rede. 

Haverá aqui lugar para os espaços híbridos? Pergunta especiosa, pois como é fácil perceber, o carácter sincrético, misturado, impuro (palavra muito perigosa e que procuro evitar, dada a sua ressonância eugénico-cultural), da livraria, ou melhor, do espaço livreiro, é uma realidade em si mesmo. Como se desenha a linha do que é essencialmente uma livraria, do que não é? E constitui uma ordem física ou não? Visitem-se sítios electrónicos de venda de livros usados e raros e perceba-se que haverá nos seus colaboradores mais livreiros que espaços de livraria. A livraria em casa. De onde, através de cliques e idas aos correios se vai fazendo um negócio e mantendo vivo o sistema de circulação da palavra escrita, impressa e virtual. 

A abordagem, portanto, não se encerra facilmente em gavetas operáveis. O que não quer dizer que se enverede por cair deliberadamente no dédalo da hiper-crítica, em que tudo é questionado até ao limite da inviabilidade de ser operacionalizado e de nos ajudar a pensar, decidir, praticar. Podia ainda ir pegar em aspectos como o da classificação em torno da existência ou não de atributos que legalmente definiriam a livraria, isto é, se um espaço de livraria entendido como espaço livreiro o é à luz de critérios de nomenclatura jurídica e administrativa. Uma parte da dificuldade de pensarmos a livraria de modo automático, logo redutor, virá certamente das transformações pretéritas sofridas pela palavra e pela polissemia que a parece ter caracterizado desde que o livreiro era também editor, distribuidor, vendedor, produtor. Outra parte da dificuldade reside seguramente na perspectiva de quem pensa a livraria, dependendo esta concepção dos seus gostos, hábitos, interesses, preferências. 

Avancemos, pois corro o risco de me perder na velha rábula de Sócrates, que proponha como método certeiro para derrotar alguém pedir-lhe uma definição. As livrarias, na sua pluralidade, enfrentam hoje desafios e obstáculos insofismáveis. Não é possível iludir o encerramento sucessivo de livrarias históricas um pouco por todo o país. E outras, menos históricas, por idade ou estatuto atribuído, também têm perecido. O estado de coisas não é apenas nacional. Mesmo as livrarias de nicho, em Portugal normalmente viradas para a literatura de recepção infantil, enfrentam problemas. O panorama livreiro nacional é um panorama em muito caracterizado pela morte livreira, pelo padecimento, pelo estiolamento de espaços que muitos aprenderam a chamar seu – mesmo que eventualmente nunca lá tivessem ido ou lá fossem arribando apenas a espaços. A luta é constante e de desfecho frequentemente avassalador. 

Por outro lado, como negar a resistência de projectos de criação ou recuperação, ressurreição até, de lugares devotados à venda e animação do livro? Não tenho presente essa contabilidade, a má e a boa, nem sei se está feita de modo sistemático e actual, mas sou confrontado com notícias paradoxais. Há, nesse sentido, um dinamismo, visível em encontros como este, ou como o de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde já decorreram três encontros livreiros. Há aventuras auspiciosas, em locais surpreendentes. 

O ciclo é um ciclo em aceleração, pautado pela velocidade de mudança, em que a morte é contrariada pelo nascimento de novos projectos. O universo corporativo, entenda-se, dos maiores jogadores deste diversificado tabuleiro, também tem demonstrado ritmo de transfiguração. E de onde a morte, o nascimento e a compra e venda não têm estado igualmente ausentes. E o processo continua. Mesmo aqui em Setúbal se prevê a vinda de um espaço de venda de livros para o novo centro comercial em construção. 

O cenário não é, por isso, de apreciação simples nem imediata. Mas está em transformação acelerada nestes últimos anos pela conjugação de factores de todos conhecidos, nos quais a inserção em movimentações igualmente sentidas internacionalmente não desempenha certamente um papel menor. Refiro apenas quatro, provavelmente os factores mais decisivos, se exceptuarmos o contexto geral de contracção económica, com evidentes e duradouras repercussões em tudo quanto tenha que ver com o livro: a) a concentração editorial e, em escala e com contornos diferentes, o seu émulo livreiro; b) a transfiguração tecnológica e a adopção de novos produtos, vias de acesso e práticas de fruição; c) o crescimento dos espaços virtuais de venda, edição e criação autoral (e aqui também a explosão dos serviços de auto-edição e comercialização, mesmo quando maquilhados com chancela); d) o fim provavelmente definitivo do modelo de distribuição assente em empresas de maior ou menor dimensão sustentado num acompanhamento de venda por comissão através da proximidade e de modos de venda não assentes em ritmos vertiginosos de rotatividade editorial nem em compra de espaço de montra e de exposição. 

A livraria tem de encontrar o seu caminho por entre um número alargado e volúvel de indicadores, tanto de entropia como de oportunidade, tanto de impedimento como de possibilidade. É verdade que o alinhamento do universo não é neste momento o melhor, mas o campo mudou inapelavelmente. E continua a mudar. Que fazer, então? 

Não tenho nem quero oferecer um receituário. Não creio que existam panaceias, nem mesmo que cheguem a ser desejáveis. Mas ocorre-me um conjunto de perguntas. Onde tem estado a lógica colectiva, de debate e acção? Multipliquem-se espaços como estes, diversifiquem-se momentos como o que nos levou até à Culsete numa tarde como a do último domingo de Março. Expanda-se o recurso aos jornais e restantes meios de comunicação, até à televisão. Haja uma atenção aos blogues que por aí vão aparecendo. Não resisto a mencionar o da Edição Exclusiva (http://edicaoexclusiva.blogspot.pt/), gerido pelo Nuno Seabra Lopes, perdoem-me a referência interessada, já que sou membro – muito preguiçoso – do mesmo. Mas há muitos outros, onde se procura discutir e pensar o universo do livro e que vale a pena espreitar e usar como recurso. 

E a componente associativa? Seja para defender os interesses de representação de uma classe que nunca foi só uma, seja para dinamizar e forçar a associação existente, APEL, a abraçar novos rumos de intervenção no que concerne à questão – ou questões – livreira. Seja ainda para pensar em formas de ultrapassar condicionamentos antigos, como o reduzido poder negocial de compra e encomenda de entidades o mais das vezes fragmentadas, de tamanho reduzido e actuando isoladamente. 

A capacidade de acção colectiva pode encontrar barreiras difíceis de ultrapassar em termos de uma agenda comum e de âmbito alargado, pois as prioridades e os interesses nem sempre são possíveis de harmonizar institucionalizadamente, através de uma nova associação, por exemplo, ou até da transformação da APEL numa federação de associações ou centros de representação distintos entre editores, distribuidores e livreiros. Mas a prática já demonstrou que é possível agitar as águas, pelo menos a julgar por casos recentes como a da intervenção de um conjunto de livreiros independentes (à falta de outro termo) junto das autoridades para obrigar ao respeito da Lei do Preço Fixo por outras entidades de venda do livro, algumas das quais assumidamente livrarias. Neste caso não foi necessária uma acção organizada em torno de um elemento de associação, mas apenas de mobilização concertada em torno de um desiderato específico. 

Mas, por outro lado, o exemplo que aduzi acaba – e reconheço-o provocatoriamente – por contribuir para um reforço da heterogeneização do campo livreiro (não que isso seja mau ou indesejável), já se trata de uma espécie de luta intestina, livrarias contra livrarias, habitando embora lugares muito diferentes, como diferente e hierárquico é o seu posicionamento geoestratégico no circuito de comercialização do livro. 

O tempo é pouco e as ideias muitas e em atropelo mútuo. Termino por aqui, nem sem antes fazer breve alusão ao terceiro termo, não formulado, da equação inicial: o passado das livrarias. O fecho de muitos destes espaços também encerra a potencial perda ou dissipação de material imprescindível ao conhecimento da cultura impressa e da circulação do livro em Portugal nos últimos cem anos. Essa potencial perda ou dissipação têm sido, aliás, a regra. Tal como para o património editorial, documental e não documental, fará muita falta continuar a alimentar um esforço de discussão e mobilização para a salvaguarda e estudo desse património livreiro, que engrossa, afinal, o património geral do que se convencionou chamar de História Contemporânea de Portugal. Sugiro uma incursão no sítio electrónico, pioneiro, sobre o arquivo histórico da editora e livraria Romano Torres (http://fcsh.unl.pt/chc/romanotorres/).

Nuno Medeiros, professor e investigador em Ciências Sociais

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